Moscou, 1980: nem todo mundo gostou de boicotar uma Olimpíada

Imagem: US Soccer
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A Olimpíada de 1980, em Moscou, foi marcada pelo boicote de diversas nações alianhadas aos Estados Unidos. Em protesto contra a ocupação da União Soviética no Afeganistão um ano antes, dezenas de delegações abriram mão da participação olímpica – além de Estados Unidos, vale a pena destacar países como Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai, para listar apenas os sul-americanos.

Não foi uma iniciativa inédita. Quatro anos antes, nos Jogos Olímpicos de Montreal, países africanos deixaram de participar, como resposta à participação da Nova Zelândia nas competições. O motivo: a seleção neozelandesa masculina de rugby realizou jogos na África do Sul naquele mesmo ano de 1976, em pleno regime do Apartheid. Diversas nações da África pediram que a Nova Zelândia fosse afastada da Olimpíada daquele ano, sem sucesso.

Pois bem, de volta a 1980. O boicote liderado pelos EUA teve um impacto pesado no torneio de futebol da Olimpíada de Moscou. Das 16 seleções na disputa, sete abriram mão de vagas, enfraquecendo a competição.

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Na África, Nigéria e Zâmbia substituíram Gana e Egito. Na Ásia, Iraque e Síria assumiram as vagas de Malásia e Irã. Nas Américas Central e do Norte, Cuba herdou o posto dos EUA. Na América do Sul, a Venezuela viajou no lugar da Argentina. Na Europa, a Finlândia assumiu o lugar da Noruega.

Em campo, os países alinhados à União Soviética sobraram. Sem surpresas, as semifinais tiveram Alemanha Oriental contra URSS e Tchecoslováquia contra Iugoslávia. Na decisão, os tchecoslovacos venceram os alemães orientais por 1 a 0 e ficaram com o ouro.

Mas e para quem ficou de fora? Acredite: o boicote foi menos comemorado do que pode parecer hoje em dia.

Entre 1979 e 1980, a seleção dos EUA fez uma boa campanha nas eliminatórias da Concacaf para a Olimpíada. Passou pelo México (que foi eliminado por utilizar atletas profissionais) e pela seleção de Bermudas na primeira fase. Depois, na fase final, contra Costa Rica e Suriname, conquistou duas vitórias, um empate e sofreu uma derrota. Ficou em segundo lugar na classificação final, atrás apenas dos costarriquenhos, mas acabou sem a vaga.

“Não ir à Olimpíada devido ao boicote foi uma grande decepção”, disse o defensor Ty Keough, em declarações ao site da US Soccer. “A maioria de nós havia perdido pelo menos algumas recompensas financeiras a curto prazo para manter o status de amador. Mais importante, teria sido uma tremenda honra e emoção representar nosso país em um grande torneio de tão alta estatura.”

“Quando descobrimos, foi uma decepção”, disse Perry Van der Beck, então capitão da equipe dos EUA. “Foi muito decepcionante, porque depois de ter disputado todas as eliminatórias, agora não poder participar dos Jogos Olímpicos, que era o ponto alto para nós como jogadores, representando nosso país no mais alto nível na Olimpíada.”

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Imagem: US Soccer

O boicote foi confirmado em março, ainda durante a fase final das eliminatórias da Concacaf. Mesmo assim, os EUA seguiram jogando. Empataram em 1 a 1 em casa com a Costa Rica e asseguraram a vaga com a vitória dos costarriquenhos sobre o Suriname por 3 a 2 no final do mesmo mês. Assim, quando foram a Paramaribo no começo de abril e perderam por 4 a 2, apenas cumpriam tabela.

Os Jogos Olímpicos começaram em 19 de julho de 1980. Onze dias depois, os 461 atletas que os Estados Unidos enviariam a Moscou estavam na Casa Branca, em Washington, para receber medalhas folheadas a ouro, entregues pelo presidente Jimmy Carter.

E mesmo sem uma Olimpíada, os atletas puderam celebrar o encontro. Perry Van der Beck, então atleta do Tampa Bay Rowdies, levou Alfredo Beronda, chefe da rouparia do time, para o evento.

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Imagem: Acervo pessoal, via US Soccer

“Coloquei meu braço em volta do presidente dos Estados Unidos e Alfredo tirou uma foto. E você pode ver na foto um dos seguranças olhando em minha direção. Quantas pessoas obtêm essa oportunidade?”, contou o ex-capitão – que, no entanto, ainda hoje lamenta o boicote.

“Infelizmente, acho que a convergência sem precedentes de esportes e política na época prejudicou a carreira de muitos atletas.”