Spartak x Dínamo de Moscou: a rivalidade em campo que se tornou arma política na União Soviética

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Em 1950, a transferência do atacante russo Sergei Salnikov do Spartak de Moscou para o grande rival Dínamo causou enorme controvérsia no futebol soviético. Salnikov já era uma grande estrela em seu país (em 1956 se tornaria campeão olímpico), e, acima de tudo, uma legítima cria das academias de Spartak. A reação da torcida chegou a tal ponto que diversas cartas foram enviadas para Joseph Stalin pedindo a anulação da transferência pelo bem da competitividade e da esportividade, mas os apelos não tiraram o sono do ditador.

O fato é que, em 2003, a história da polêmica transferência foi revelada. O Dínamo, clube historicamente ligado à polícia secreta soviética, já estava de olho no futebol de Salnikov desde 1949. Naquele mesmo ano, o padrasto dele, Vladmir Sergeev, foi preso acusado de crimes financeiros. A irmã do jogador chegou a receber visitas pouco amistosas de policiais, que alertaram que a saúde dele era precária e possivelmente não aguentaria o inverno na cadeia.

Ao saber disso, o jovem atacante entrou em contato com o ex-colega de time Ivan Konov, que defendia o Dínamo, e a transferência foi acertada. Pouco tempo depois, Salnikov recebeu a informação de que Vladmir foi realocado para uma prisão perto de Moscou, onde poderia receber visitas de sua família.

Essa história, contada em biografia, mostra um pouco não só como as coisas funcionavam na União Soviética sob a batuta de Stalin [1922-1953], mas também de como floresceu a intensa rivalidade entre os moscovitas Spartak e Dínamo no início do campeonato soviético, conhecida hoje como o mais antigo dérbi da Rússia e que se assemelha mais a um Davi e Golias do futebol.

O time do povo

Antes da Revolução de 1917, o futebol não era a atividade das mais populares na Rússia. Apesar do campeonato existir desde 1910, a maioria dos praticantes era estrangeira, principalmente de origem britânica, e o esporte era praticado em clubes fechados da elite. Além disso, o preço do ingresso no estádio era quase o dobro do que ganhava um trabalhador naquela época.

A tomada do poder pelos bolcheviques mudou tudo isso. As antigas academias de esporte foram fechadas ou trocaram de mãos, e o campeonato local foi dissolvido. Mas se o elitismo saiu de cena, no lugar entrou a máquina estatal.

A partir de 1922, com o fim da Guerra Civil, diversos clubes esportivos ligados aos militares e à indústria começaram a surgir na União Soviética. A ideia era não apenas oferecer atividades físicas aos trabalhadores como também uma forma de lazer.

O Dínamo fora fundado por Felix Dzerzhinsky, chefe da polícia secreta Cheka (que futuramente se tornaria a KGB), com ramificações em diversas outras cidades. O CSKA era ligado ao Exército Vermelho; o Lokomotiv à empresa pública de transporte ferroviário; e o Torpedo à indústria de automóveis.

Enquanto isso, a origem do Spartak remonta ao nascimento do clube de esportes Krasnaya Presnya, localizada no bairro de mesmo nome em Moscou e fundada por Ivan Artemyev. Diferente de seus concorrentes, o Krasnaya Presnya era uma sociedade independente e era financiada em parte pelos ingressos dos amistosos que disputava em turnês pela União Soviética.

Ivan convidou Nikolai Starostin, um afamado jogador que se dividia entre o futebol e o hóquei no gelo, para ajudá-lo na empreitada. Ponta-direita habilidoso e carismático, Starostin logo se tornou uma das peças fundamentais para o crescimento do clube – tanto pelo que fazia dentro de campo quanto fora dele. Graças à sua influência (ele chegou a ser capitão da seleção soviética), Starostin conseguiu o patrocínio de um sindicato da indústria de alimentos de Moscou para o Krasnaya Presnya, o que possibilitou a construção de seu primeiro estádio em 1926.

Nikolai Starostin (BBC)

Mais tarde, em 1934, já perto de pendurar as chuteiras, Starostin ficou amigo de Alexander Kosarev, presidente da Juventude do Partido Comunista (Komsomol). Starostin o convenceu a colocar o Krasnaya Presnya sob a sua asa e também propôs uma mudança de nome para marcar essa nova era: Spartak.

A origem do nome remonta à história de Spartacus, o escravo que liderou uma rebelião contra o poderoso império Romano. A referência é mais do que clara: Spartak seria um clube independente enfrentando verdadeiros gigantes em termos de poder e influência. Provavelmente por isso, o nome demorou quatro meses para ser aprovado pelas autoridades.

Essa imagem de rebeldia e antiestablishment atraiu a simpatia de muitos torcedores. A União Soviética vivia um momento de intensa repressão e paranoia. Era o início do Grande Expurgo de Stalin de 1936, na qual diversos ex-aliados e membros do governo e do exército foram perseguidos e mortos, assim como qualquer pessoa que demonstrasse alguma insatisfação com o regime.

Por isso, torcer para o Spartak era não apenas uma atividade social e esportiva. Era também um ato político velado.

Da rivalidade à perseguição

Lógico que o fato do time ter reunido grandes jogadores, entre eles o próprio Starostin e seus irmãos, e de jogar um futebol ofensivo e organizado como poucas vezes se viu na Rússia ajudou na popularização do time. No primeiro ano do campeonato soviético, disputado em 1936, o Spartak tinha uma média de 39 mil pessoas por partida.

Também foi nessa época que floresceu a intensa rivalidade com o Dínamo de Moscou. Na edição de primavera da estreia da Liga Soviética, o Dínamo da capital se sagrou campeão, com Dínamo de Kiev em segundo e Spartak em terceiro. Mas, na edição de outono daquele mesmo ano, Spartak levou a melhor, ficando à frente de Dínamo de Moscou e Dínamo de Tbilisi.

Em 1937, a temporada foi unificada com apenas um campeão por ano – e quem levantou o caneco foi novamente o Dínamo de Moscou, com o Spartak logo atrás. Porém, em 1938 e 1939, o time de Starostin conquistou não só o bicampeonato da liga como também da Copa da URSS, um feito até hoje histórico.

Em 1940, Dínamo de Moscou voltou a se impor e ficou com a faixa de campeão daquele ano. A partir daí, o campeonato entraria em hiato por conta da Segunda Guerra Mundial e só retornaria em 1945.

Só que, apesar do sucesso em campo, o Spartak enfrentava sérios problemas fora dele. Em 1938, Lavrentii Beria, braço-direito de Stalin e admirador confesso do Dínamo, assumiria o comando da polícia secreta e usaria a força para tirar o Spartak do caminho.

Inclusive, há uma história de que a vendetta não foi apenas por motivos clubísticos. Antes de seguir carreira política, nos anos 20, Beria teria sido humilhado por Starostin durante uma partida de futebol na Geórgia – e Beria teria guardado esse rancor durante anos.

Lavrentii Beria (BBC)

Para Beria, esmagar o Spartak também significava cortar as asas do Komsomol no controle do esporte soviético. Ainda em 1938, durante o Grande Expurgo, Alexander Kosarev foi preso e executado. O clube perdia seu patrono político e sua única garantia contra desmandos, que não demorou a vir.

No ano seguinte, o time passou por uma situação bizarra: na Copa da URSS, o Spartak venceu o Dínamo de Tbilisi na semifinal e em seguida bateu o Stalinets Leningrad por 3 a 1 na finalíssima. Mas, após protestos do Dínamo (e provavelmente de Beria) por causa de um gol considerado ilegal,  as autoridades anularam o jogo e o Spartak teve que jogar novamente a semifinal. Mas, para desgosto do comandante, novamente eles venceram a equipe da Geórgia por 3 a 2 e, enfim, se sagraram campeões.

“Quando olhei para o camarote, vi Beria se levantar furioso e dar um chute em uma cadeira antes de deixar o estádio”, disse Nikolai em biografia.

Mas o momento mais grave aconteceu em 1942:  Starostin e seus irmãos, que também trabalhavam no clube, foram presos e levados à uma gulag sob acusação de planejarem o assassinato de Stalin. A polícia secreta teria inclusive torturado atletas do Spartak para arrancar essa confissão.

Após dois anos de interrogatórios, a acusação foi derrubada e trocada por “importar conceitos burgueses ao futebol soviético”, que basicamente consistia em oferecer salários considerados altos aos jogadores. Com isso, eles foram sentenciados a dez anos de prisão em campos de trabalho forçado na Sibéria.

Vasily Stalin (Reprodução)

A sorte de Starostin é que, em 1948, o filho de Stalin, Vasily, entrou em contato com ele. Vasily era chefe das Forças Aéreas e pediu para que Nikolai treinasse seu time, o recém-criado VVS, em Moscou. Starostin aceitou a proposta, mas Beria descobriu o plano e ordenou que ele deixasse a capital.

Porém, Vasily peitou Beria e deixou que Nikolai morasse em sua mansão para se proteger da polícia secreta. Eles, inclusive, dormiam na mesma cama – com o precavido filho de Stalin sempre guardando uma arma carregada debaixo do travesseiro.

Até que um dia, aproveitando que Vasily estava embriagado, Starostin fugiu da mansão para se reencontrar com a mulher e a filha. Ele acabou sendo capturado pela polícia secreta e levado à gulag de Maikop.

Agentes de Vasily interceptaram o trem na parada de Oriel para levá-lo de volta a Moscou, mas, cansado dessa guerra particular entre o filho e o braço-direito de Stalin, ele decidiu que queria morar ao sul da Rússia. Vasily concordou, desde que ele treinasse o time local do Dínamo. Só que a polícia secreta só o autorizou a ficar no Cazaquistão.

Então, após dois meses morando com o filho de Stalin, Nikolai foi treinar o Dynamo Alma-Ata, em Almaty.

Pós-guerra e declínio

Sem Starostin e seus irmãos, o Spartak ainda conquistou um bicampeonato da Copa da URSS em 1946 e 1947, mas na liga nacional o time perdeu sua relevância, com o CSKA de Moscou tomando seu posto na liga. Um dos nomes de destaque dessa difícil fase do Spartak era justamente Sergei Salnikov, que foi para o Dínamo em 1950.

A fase ruim do Spartak não se explica apenas pela perseguição política de Beria. Durante a Segunda Guerra Mundial, a influência do CSKA e do Dínamo no governo possibilitaram que seus jogadores não precisassem se alistar e correr os riscos inerentes de um conflito armado sangrento. Por isso, muitos jogadores do Spartak decidiram trocar de time para poder sobreviver – sendo que três atletas não tiveram sorte e morreram. Ao fim da guerra, o Spartak precisou praticamente reconstruir seu elenco.

As coisas melhoraram aos poucos. Em 1952 e 1953, o Spartak conquistou o bicampeonato soviético, com o título de 1953 ganhando um sabor especial: com a morte de Stalin e a execução de Beria naquele ano, o novo governo soviético decidiu anistiar os prisioneiros políticos – dentre eles, os irmãos Starostin.

Nikolai só voltaria a ser presidente do Spartak em 1955 e um de seus primeiros atos foi justamente trazer Salnikov de volta. E assim um grande time foi montado, com destaque para o meia Igor Netto e os atacantes Nikita Simonyan e Anatoli Ilyin, todos campeões olímpicos em Melbourne (1956) e que disputaram a Copa de 1958. Por outro lado, o Dínamo tinha Lev Yashin, o Aranha Negra, até hoje considerado um dos melhores goleiros de todos os tempos.

Esse reequilíbrio em campo fez a rivalidade retornar aos primórdios da liga soviética: 4 títulos cada um até 1970 (Spartak: 1956,1958, 1962 e 1969; Dínamo de Moscou: 1955, 1957, 1959 e 1963).

Porém, na entrada dos anos 60, novas forças passaram a emergir, principalmente o Dínamo de Kiev (campeão em 1961, 1966, 1967 e 1968) e Torpedo Moscou (campeão em 1965). Com isso, os antiga rivalidade entre os clubes moscovitas diminuiu.

Mas ainda deu tempo para o Dínamo de Moscou se gabar de ter ido à final da Recopa Europeia de 1972, a primeira de um time soviético e que ficou mais conhecida pela invasão no Camp Nou por torcedores exaltados do Rangers. Para piorar, o Spartak foi rebaixado em 1976, mesmo ano em que o rival levantou sua última taça na liga.

O clube de Starostin, porém, conseguiu se reestruturar e continuar relevante após o colapso da União Soviética. Tanto que o Spartak reinou absoluto nos anos 90, ganhando nove campeonatos russos entre 1992 a 2001. E em 1990-1991, chegou à semifinal da Copa dos Campeões da Uefa, passando por Napoli e Real Madrid antes de ser eliminado pelo Marseille.

Já o Dínamo de Moscou nunca mais conseguiu um título na liga após 1976. Seu maior feito foram três Copas da URSS/Rússia em 1977, 1984 e 1995. Muitos atribuem isso à uma possível Maldição de Beria, na qual o clube estaria pagando os pecados cometidos pelo comandante da polícia secreta.

Na temporada 2015-2016, o clube sofreu uma sanção da UEFA por uma violação do Fair Play Financeiro e a confusão administrativa teve reflexos em campo, no que culminou no rebaixamento para a segunda divisão. Na temporada seguinte, o time voltou à elite como campeão.

Outro fato que marcou o Dínamo de Moscou foi o de quase ter matado de tuberculose o zagueiro brasileiro Thiago Silva durante sua breve passagem por lá.

Mas se nos seus primórdios, Spartak e Dínamo eram a metáfora futebolística de uma disputa política que se desenrolava na União Soviética, hoje eles estão em pé de igualdade dentro do mundo capitalista. O Spartak pode se gabar de ser o Time do Povo, como a torcida se considera até dos dias de hoje; e os torcedores do Dínamo ainda podem ser chamados de Musora (um apelido não muito carinhoso dado aos policiais, cuja tradução literal é “lixo”).

Só que eles não representam mais a dualidade Estado vs. o Cidadão Comum, se é que antigamente podiam ser retratados assim. Em biografia lançada em 1989, Nikolai Starostin, fundador do Spartak, disse que isso tudo era uma bobagem. Nem todo torcedor do Dínamo ou do CSKA eram estritamente ligados à polícia ou ao Exército, e ele mesmo teve ajuda do governo antes e depois da morte de Stalin.

E a realidade é que hoje o dono do Spartak é Leonid Fedun, um bilionário ucraniano da indústria do petróleo – e que por acaso é torcedor do Dínamo de Kiev. Enquanto o Dínamo de Moscou, após aquela confusão administrativa, passou a ser gerido pelo Dynamo Sports Society, uma sociedade independente.

Fonte Russian Football News These Football Times Spartak Moscow: A History of the People's Team in the Workers' State
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