Soviéticos nos EUA logo após o fim da Guerra Fria: os intensos 6 meses da seleção da C.E.I.

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A decadência da União Soviética passou pelos campos de futebol. Em 1986, um amistoso entre o antigo país e a seleção inglesa, disputado em Tibilisi (hoje capital da República da Geórgia), ficou marcado pelo comportamento da torcida, que apoiou o time visitante em detrimento ao soviético. Era um sinal claro de que o regime logo entraria em colapso, diante de diversos movimentos separatistas e a consolidação da abertura econômica promovida por Mikhail Gorbatchev.

Em 26 de dezembro de 1991, a dissolução foi oficializada, com o reconhecimento da independência de 15 repúblicas que compunham a Federação (Armênia, Azerbaijão, Belarus, Cazaquistão, Estônia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Moldávia, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão, Turcomenistão, Ucrânia e Uzbequistão).

Não é todo dia que um país se transforma em quinze. Em meio a esse grande alvorço, logo veio à tona um problema esportivo: o que fazer com a vaga conquistada pela União Soviética, em novembro de 1991, para a Eurocopa de 1992? Em seu último feito futebolístico, a seleção vermelha eliminou a Itália nas Eliminatórias.

Oleg Blokhin foi o jogador mais convocado pela seleção da União Soviética, que tirou a Itália nas Eliminatórias para a Euro de 1992 (e logo depois deixou de existir)

A solução foi a mesma encontrada para a disputa dos Jogos Olímpicos de 1992: as novas repúblicas (com exceção dos três países bálticos – Estônia, Letônia e Lituânia) formaram uma equipe temporária, a Comunidade dos Estados Independentes (C.E.I.). No dia 11 de janeiro daquele ano, a FIFA autorizou a criação dessa seleção “tampão”, que durou até a disputa da Eurocopa, em junho. Seus resultados, assim como todos os conquistados sob bandeira soviética, foram depois transferidos para a Rússia.

Foram, portanto, apenas seis meses de seleção da C.E.I. – mas bastante intensos.

Preparação para a Eurocopa

Uniforme utilizado na estreia da seleção da C.E.I., contra os Estados Unidos, em Miami

O boicote dos países bálticos (historicamente os mais rebeldes da antiga União Soviética) não afetou significativamente a seleção de futebol. O mesmo não se pode falar do basquete masculino, modalidade na qual os lituanos sozinhos conseguiram resultados melhores que todas as outras nações juntas.

Basicamente a seleção da C.E.I. era a da União Soviética com outro uniforme. O treinador, o ucraniano Anatoliy Byshovets, foi mantido e convocou seus principais jogadores para a primeira série de amistosos: dez russos, seis ucranianos, dois georgianos e um bielorrusso. As federações nacionais estavam sendo fundadas em paralelo, mas aqueles atletas tinham a missão de representar o país que já havia colapsado.

O primeiro adversário não poderia ser mais simbólico  Em 25 de janeiro o time foi a Miami enfrentar os Estados Unidos (já treinados pelo lendário Bora Milutinovic) – justamente o grande inimigo soviético. A Guerra Fria foi perdida e o país dissolvido, mas, ao menos dentro de campo, houve uma vingança vermelha: com gol do georgiano Akhrik Tsveiba (graças a um desvio de um zagueiro americano), a seleção sem país venceu por 1 a 0 na estreia. Outro georgiano também brilhou naquela noite: o goleiro Kakha Tskhadadze, que defendeu um pênalti de Marcelo Balboa.

A União Soviética não existia mais, mas seu hino foi tocado antes daquela partida em território americano, na falta de alguma música que representasse a Comunidade dos Estados Independentes. Em jogos seguintes, a 9ª Sinfonia de Beethoven (base do Hino da Europa) passou a fazer esse papel. Uma bandeira também foi criada para representar a equipe, com as letras C.I.S. (sigla da C.E.I. em inglês) dispostas em azul sobre um fundo branco.

Bandeira utilizada nas partidas da seleção

A seleção seguiu em turnê pelo continente americano durante os dias seguintes. Em 29 de janeiro, bateu El Salvador por 3 a 0, em San Salvador. Pouco depois, em 2 de fevereiro, voltou aos Estados Unidos, desta vez em Detroit, e perdeu para o time da casa por 2 a 1. Dez dias depois, em Jerusalém, derrotou Israel por 2 a 1.

No início de março, já com outra convocação (composta apenas por atletas russos), fez dois amistosos contra o México (derrota por 4 a 0, na Cidade do México, e empate por 1 a 1, em Tampico). A partir de abril, novamente com jogadores de diferentes nacionalidades, passou a medir forças apenas contra adversários europeus: empates por 1 a 1 contra a Espanha, em Valencia; 2 a 2, diante da Inglaterra, em Moscou; e 1 a 1 em duelo com a Dinamarca, em Copenhague. A preparação pré-Eurocopa teve ainda uma vitória por 3 a 0 em um curioso amistoso contra o Schalke 04, na Alemanha.

O adeus – e o futuro independente das seleções
Com bandeira azul e branca, mas uniforme vermelho (respeitando as origens soviéticas), o time vivia grande crise de identidade. Ainda assim, seu desempenho em amistosos nos cinco primeiros meses de vida foi bastante digno: 4 vitórias, 4 empates e 2 derrotas. Até que chegava a hora do despedida de uma seleção que representava um país já dissolvido – em junho começou a Eurocopa, a razão de existir daquele time (e seu fim anunciado).

A partida contra a Escócia, na Eurocopa – que marcou o fim da história de seis meses da seleção da C.E.I.

O sorteio deixou os ex-soviéticos em um grupo bastante complicado: Alemanha (então campeã mundial), a Holanda (de Rijkaard, Gullit e Van Basten, todos astros do Milan) e a Escócia. Para a difícil missão de passar da primeira fase, Byshovets convocou catorze russos (destaque para o atacante Kanchelskis, então no Manchester United), quatro ucranianos (Mykhaylychenko, do Glasgow Rangers, o mais famoso deles), um bielorrusso (Aleinikov) e um georgiano (o goleiro Tskhadadze).

Até que o começo foi animador. Na estreia, igor Dobrovolski abriu o placar diante dos alemães, mas um gol de empate no último minuto impediu o triunfo. Contra holandeses, outra atuação interessante, porém as equipes não saíram do 0 a 0. A seleção chegou na última rodada com chances de se classificar, apenas não conseguiu fazer a sua parte. Uma derrota por 3 a 0 diante dos escoceses marcou a eliminação e o fim da seleção da C.E.I.

Nos meses seguintes, as seleções nacionais das novas repúblicas soviéticas começaram a seguir seus caminhos de forma independente.

  • A Rússia voltou a ter uma seleção nacional em 16 de agosto de 1992, vencendo o México por 2 a 0. A base da C.E.I., afinal, era formada por russos e até alguns atletas nascidos em outros países (mas identificados com Moscou) passaram a integrar o time, que
    A Rússia teve rápido sucesso após o fim da seleção da CEI e foi à Copa de 1994 – fazendo, inclusive, o artilheiro do torneio: Oleg Salenko

    rapidamente conseguiu sucesso (vagas na Copa de 94 e na Euro de 96). Depois, vieram outras três participações em Mundiais (2002, 2014 e 2018, como país-sede) e quatro edições seguidas de Euros, entre 2000 e 2016 (com destaque para a campanha de 2008, quando atingiu as semifinais).

  • A Ucrânia foi o segundo time mais bem-sucedido, como era de se esperar. Já havia realizado um amistoso com suas cores nacionais durante a existência da seleção da C.E.I. (em abril de 1992, uma derrota para a Hungria). Como país independente, foi às quartas de final da Copa do Mundo de 2006 e jogou as Euros de 2012 (como país-sede) e 2016.
  • Nenhuma outra seleção europeia que integrava a C.E.I. conseguiu disputar uma Eurocopa ou Copa do Mundo desde então. A Letônia jogou a Euro de 2004, mas vale lembrar que as repúblicas bálticas não aderiram ao time (assim como seus governos não fazem parte da organização supranacional também chamada C.E.I. que existe até hoje).
  • Quatro das ex-repúblicas soviéticas hoje disputam competições pela Ásia (Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão). Os uzbeques têm conseguido boas campanhas nos torneios continentais, mas ainda não se classificaram para uma Copa do Mundo.
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