O que um dos esportes que lida há mais tempo com o VAR pode ensinar ao futebol

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Por Jônathas Lucas Souza

A Copa do Mundo da Rússia de 2018 foi a primeira em que a arbitragem teve o auxílio do vídeo para tomar decisões. Em 16 de junho, durante uma partida da fase de grupos entre a futura bicampeã França e a Austrália, o árbitro uruguaio Andres Cunha sinalizou, formando um retângulo com os dedos, que os europeus tinham um pênalti a seu favor — com a chancela do replay.

De lá pra cá, o que não faz muito tempo, muitas são as discussões, opiniões, reprovações e defesas apaixonadas de puristas e progressistas do assunto futebol sobre a novidade. O impacto de todas elas dentro de campo só será percebido no futuro do futebol. Mas, o que aconteceu com um esporte cujas discussões, parecidas com essas, aconteceram há muito tempo?

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Em novembro de 1992, durante uma partida entre as seleções de críquete da África do Sul e da Índia, o árbitro Cyril Mitchley fez o mesmo gesto que Cunha faria um quarto de século depois em Kazan. Ele pedia que o árbitro de vídeo verificasse uma decisão pela primeira vez. A modalidade é tão tradicional que, naquele dia, os uniformes das duas equipes eram brancos e não tinham números.

Muitas modificações no DRS (Decision Review System, ou Sistema de Revisão de Decisões, em inglês) se seguiram. O ponto em que o sistema está hoje traz algumas situações interessantes, que podem agilizar os caminhos da evolução do VAR no futebol.

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Críquete, esporte mais antigo que o futebol, adota o árbitro de vídeo desde 1992 (Twitter/Sky Sports)

1. Sim ou não

No críquete, não há talvez. O jogo é extremamente objetivo, o que ajuda na hora de implementar um sistema de revisão. As perguntas a serem respondidas têm apenas duas respostas possíveis. Nas raras ocasiões em que há imprecisão no sistema (por exemplo, na hora de prever a trajetória futura de uma bola arremessada), o “talvez” é automaticamente substituído por qualquer que fosse a decisão do árbitro de campo.

No esporte bretão, as decisões definitivas assim só podem ser: gol/não gol, fora/dentro da área, impedimento/posição legal e confusão de identidade. Ou seja, nada de pênalti/não pênalti ou cartão amarelo/vermelho.

Árbitro de vídeo deve ser usado para dúvidas objetivas (David Klein/Reuters)

2. Está na mão dos jogadores

O VAR é um auxiliar dos árbitros de campo, por isso pode ser acionado quantas vezes for necessário, assim como os auxiliares das laterais. Isso pode levar a inúmeras checagens por jogo e falta de critério (alguns árbitros podem pedir mais ajuda que outros ou alguns auxiliares podem solicitar mais revisões que outros).

No críquete, apenas o capitão do time — ou, na ausência deste, o jogador envolvido no lance em questão — pode pedir o desafio. Para que o jogo não seja parado constantemente, há o limite máximo de dois desafios perdidos por período. Gastá-los rápido demais pode significar que um lance crucial pode ficar sem checagem nos momentos decisivos.

E mais: o DRS só pode ser acionado até 15 segundos depois da decisão do árbitro. Por isso, nada de enrolar para pedir o desafio.

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Regras para acionamento do árbitro de vídeo são mais claras no críquete (AFP)

 

3. Comunicação

Absolutamente toda a comunicação é pública. O árbitro é microfonado e seu áudio liberado assim que o desafio é pedido. A mesma coisa acontece com o árbitro de vídeo. As imagens analisadas também são transmitidas ao vivo no telão do estádio e na TV, ou seja, nada de telinha de caixa eletrônico na beira do campo.

Um recurso muito utilizado é a visualização da mesma jogada por dois ângulos diferentes, com tempo sincronizado. A sincronização permite, por exemplo, que um lance de impedimento seja analisado com a tela dividida: de um lado, a batida da bola, do outro, a posição do atacante.

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Cabine do VAR: comunicação apenas com o juiz de campo (Rodrigo Corsi/FPF)

4. Sem pressa

A aceitação de todos os envolvidos — jogadores, técnicos, mídia, dirigentes e todo o resto — pode levar muito tempo. Agora, o DRS é discutido em seus detalhes, não em sua natureza. No entanto, esse consenso é recente.

A Índia, uma das potências do esporte (e, coincidentemente, o time que foi prejudicado na primeira utilização do vídeo em 1992), ainda mostrava preocupações com a checagem de vídeo há quatro anos atrás. Os indianos apenas cederam após pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology, uma das universidades mais prestigiadas do mundo) se debruçarem sobre o sistema e apontarem melhorias.

Por isso, sabemos que as discussões não vão terminar tão cedo. O importante é que elas sejam construtivas, para que o futebol utilize a tecnologia como plataforma de evolução, não de transformação de sua essência.