A Copa do Mundo de 1970 e o fascínio por essa seleção brasileira

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Recentemente (para ser mais exato, no último dia 21 de junho), comemoramos os 50 anos do tri da Copa do Mundo da seleção brasileira, disputada em solo mexicano. Depois de diversos textos publicados e vários estudos feitos, seria um absurdo dizer que a seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1970 é o maior time da história do futebol?

Por que todo esse burburinho quando se fala dessa seleção? Eu não era nascido na época, mas de acordo com estudos, pude fazer esse texto falando um pouco sobre essa histórica seleção. Então vamos lá:

A boa e polêmica passagem de João Saldanha como técnico

O combinado canarinho antes da Copa tinha como técnico João Saldanha, que muitos não gostavam da forma como ele se portava à frente da seleção. Talvez o comandante tenha visto ali uma oportunidade de não ser tão execrado por conta de ser um homem também da imprensa.

Bom, mas como o assunto é Copa do Mundo então vamos deixar de lado essa parte pré-Copa, até porque a atuação da seleção nas eliminatórias foi tranquila. Na época haviam três grupos de seleções na América do Sul para disputar a ida ao Mundial, porém para carimbar a vaga tinha que terminar as eliminatórias como líder do grupo. Como eram três grupos as vagas ficaram com: Peru, Brasil e Uruguai.

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Um adendo: na época estávamos vivendo a ditadura do general Médici, que gostava de se envolver palpitando na seleção. Por exemplo, pediu a convocação de Dadá Maravilha. Saldanha, que já era conhecido por ser um comunista ferrenho, não aceitava opiniões de fora ainda mais de um presidente que não partilhava das mesmas ideias que ele. Por conta de toda esse rebuliço, a Confederação Brasileira de Desportos (antiga CBD) demitiu o treinador. Era o fim da era Saldanha e logo com a Copa do Mundo se aproximando.

A polêmica por sinal dura até hoje. Vale lembrar que, vários anos depois do ocorrido na seleção, João Saldanha soltou em uma entrevista que na época a ditadura não iria permitir um comunista campeão com a seleção. Enfim…

O início da Era Zagallo

Muitos citam e com razão o famoso Carrossel Holandês de 1974, time comandado por Rinus Michels, como a equipe que revolucionou aquele futebol jogado, trazendo uma espécie de dinâmica diferente ao jogo, aquele estilo que prioriza a posse de bola e que dispensa o terrível chutão. Atualmente temos o estilo Guardiola, que segue a mesma linha. Por sinal vale lembrar que Michels foi treinador do Barcelona e foi ele quem levou essa mentalidade para a equipe, mostrando ao mundo um novo tipo de jogo.

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Eu concordo em partes, porque a nossa seleção que disputou a Copa do Mundo de 1970 na minha singela opinião já mostrava esse tipo de futebol. O time comandado pelo folclórico Mário Jorge Lobo Zagallo — que inclusive já havia vencido a Copa do Mundo de 58 e 62 como jogador —, jogava (como dizemos por aqui) “o fino da bola”, onde a saída de bola é sempre com eficiência, sem chutão e muitas vezes começando nos pés do nosso ex-goleiro Félix.

Mas chega de papo e vamos falar da atuação da seleção na Copa de 70. Lembrando que não estou aqui para falar de atuações individuais mas sim da seleção brasileira no geral.

Seleção De 1970
O time completo (foto: CBF)

O técnico Zagallo convocou o que tinha de melhor. Chamou jogadores dos times mais poderosos do Brasil na época como Botafogo, Palmeiras, Cruzeiro e Santos. Obviamente haviam jogadores de outros clubes, mas se acalme: no final do texto listarei todos os convocados da seleção para o mundial e os respectivos times em que jogavam.

Para se ter ideia do poderio ofensivo, entre os convocados havia cinco jogadores que atuavam como camisa 10 em seus times, sendo eles: Pelé, Gérson, Rivellino, Jairzinho e Tostão, que atuava como 8 no Cruzeiro, mas fazia tranquilamente um papel de 10. Porém, muitos desacreditavam da forma que Zagallo estava compondo esse time não duvidando da qualidade técnica dos jogadores, óbvio, mas sim querendo entender como essa seleção iria se comportar sem pontas e centroavante. Mas não só deu certo, como encantou o mundo do futebol para sempre!

O time atuava em uma espécie de 4-3-3, com um “falso 9” que era o Tostão. Mas engana-se quem pensa que o time não marcava, o rodízio que essa seleção era capaz de fazer era incrível. Não havia mesquinhes, todos faziam papel de meia quando necessário. O único atacante afundado mais na frente era o “Furacão” Jairzinho — que inclusive carrega até hoje a façanha de ser único jogador a marcar gols em todos os jogos em uma Copa do Mundo. Ufa, QUE TIME!

A Copa do Mundo

Para quem não sabe ou não se recorda, naquela época a Copa do Mundo era formada por quatro grupos, que iam de 1 a 4. A seleção canarinho caiu no grupo 3, que contava também com: Tchecoslováquia, Inglaterra e Romênia.

O primeiro jogo foi contra a Tchecoslováquia, e o Brasil saiu perdendo com o gol de Petrás logo aos 11 minutos da primeira etapa. Mas isso não abalou a equipe brasileira. Aos 24 minutos, Rivellino, de falta, empatou. Depois disso, foi só tranquilidade no jogo. Gérson meteu uma bola magistral para Pelé virar. E para fechar o placar, mais dois gols de Jairzinho. Mas o lance icônico do jogo ficou por conta de Pelé, em que ele chuta a bola do meio-campo, encobre o goleiro Viktor e sai do lado da trave: o chamado “Gol que Pelé não fez”. Mas tudo bem, primeiro desafio vencido!

O segundo jogo foi contra a forte seleção inglesa, que inclusive defendia o título por ter vencido a última Copa do Mundo. E talvez tenha sido a partida mais difícil para a nossa seleção, e também das mais marcantes da Copa de 70. O Brasil venceu por 1 a 0, com o gol de Jairzinho após passe de Pelé. O jogo foi marcado por ótimos lances, mas o momento que marcou não só no jogo mas sim no futebol eternamente, foi a famosa defesa do goleiro Gordon Banks após forte cabeçada de Pelé, onde o atacante brasileiro sobe alto, cabeceia forte e para o chão, mas o goleiro inglês faz o que muitos consideram a maior defesa de todos os tempos. Realmente incrível o que fez o arqueiro! Mas deu tudo certo, vitória brasileira.

O último jogo da fase de grupos foi contra a boa seleção romena. O jogo pelo placar pode ser julgado sendo o mais difícil do Brasil nessa Copa, mas o que realmente aconteceu foi uma dominância brasileira. A nossa seleção jogou muito e venceu por 3 a 2. Nossos gols ficaram por conta de Pelé (duas vezes) e Jairzinho. Pelo lado romeno, gols de Dumitrache e Dembrovschi. Passamos para as quartas — sim, por ter menos seleções, a Copa do Mundo não possuía oitavas de final.

Nas quartas de final enfrentamos nossos vizinhos peruanos, e mais uma vitória da seleção amarelinha. Com um show de belas jogadas, passes precisos e gols fantásticos, assim foi a vitória contra o Peru. E não achem que por ser a seleção peruana era fácil: naquela época nossos hermanos tinham bons nomes em seu plantel, como os atacantes Cubillas e Ramón Mifflin. Os gols brasileiros foram marcados por Rivellino, Tostão (duas vezes) e Jairzinho, após boas tramas da equipe. Já os gols peruanos foram de Cubillas e Gallardo. E vamos às semi!

O confronto nas semifinais também foi contra vizinhos, dessa vez a forte seleção do Uruguai, que já havia vencido a Copa do Mundo e as Olimpíadas, duas vezes cada. Já era conhecida por ser a famosa “Celeste Olímpica”. Como era de se esperar o jogo foi complicado, muitas consideram esse jogo o mais difícil para o Brasil na Copa, eu prefiro ficar com a partida contra a Inglaterra, mas não dá para negar que essa partida foi de acelerar o coração.

A nossa seleção saiu perdendo com o gol de Cubilla, e só foi empatar final do primeiro tempo. Clodoaldo começou a jogada com Tostão, que devolveu para Clodoaldo já dentro da área para empatar um jogo que tava realmente difícil. Isso aos 44 minutos do primeiro tempo. Bom para ir para o intervalo no gás.

O jogo retornou e o Brasil foi superior. A virada veio com passe de Tostão e gol de Jairzinho, e para fechar o placar, boa jogada de Pelé que entrega para Rivellino colocar a nossa seleção na final da Copa do Mundo! Não podemos esquecer do belo lance de Pelé, que dribla o goleiro uruguaio só com o corpo, infelizmente a conclusão foi para fora. Outro lance marcante que aconteceu foi um tiro de meta que o goleiro uruguaio cobrou e Pelé simplesmente chuta de primeira sem nem deixar a bola cair no chão. Infelizmente os deuses do futebol não permitiram que essas bolas entrassem. Mas sem problemas, estávamos na final.

 

O duelo final para definir o primeiro tricampeão mundial de futebol

Dia 21 de junho de 1970, estádio Azteca, Cidade do México.

Brasileiros e italianos fizeram a grande final da Copa do Mundo de 1970. E o que tava em jogo além do título, era saber qual país ostentaria a honra de ser a primeira seleção a vencer três Copas do Mundo. Bom, vamos ao jogo, e já digo que foi um jogaço!

A Itália começou melhor, partindo para o ataque logo nos primeiros minutos de partida, exigindo atenção do goleiro brasileiro. Nossa seleção jogava com tranquilidade, parecia sentir que venceria o embate. Então em uma jogada aos 17 minutos, que surgiu de um lateral pela esquerda, Rivellino cruzou a bola na área que encontrou Pelé, que subiu alto e abriu o placar, explodindo o estádio Azteca, que parecia urgir por um gol brasileiro. Bem, então estava aberta a contagem.

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Pelé após o primeiro gol brasileiro na final

 

O gol foi bom para nós e a seleção italiana parecia ter sentido o golpe, deixando o Brasil gostar mais ainda do jogo. Mas estávamos jogando contra bicampeões de Copa do Mundo, e a Azurra chegou ao empate aos 37 minutos. Em uma rara trapalhada de Clodoaldo e Everaldo, o atacante Boninsegna roubou a bola, aproveitou que o goleiro Félix e Brito bateram cabeça e só empurrou para o gol vazio. Estava empatada a decisão! O jogo continuou e o Brasil chegou até a virar com Pelé chutando de bico, porém o juiz alemão Rudi Glockner anulou, marcando final de primeiro tempo. Lance bastante polêmico já que a bola estava no ar quando o atacante brasileiro chutou. Até hoje o juizão carrega a fama de ser o mais vaiado de todos os tempos.

Mas tudo bem, a seleção não se desestabilizou com o ocorrido, e talvez tenha dado até mais força para vencer a partida, já que no segundo tempo os comandados de Zagallo passaram por cima dos italianos, com jogadas dinâmicas, belos dribles… um show de futebol! Os italianos não conseguiam jogar e paravam os brasileiros somente nas faltas, inclusive muitas perto da área.

Não demorou então para viramos o placar. Após boa jogada de Jairzinho a bola sobra para Gérson, o “Canhotinha de Ouro” fuzila de perna esquerda, sem chances para o goleiro. E não parou por ai… cinco minutos depois, quase que do meio-campo, Gérson lançou para Pelé lá dentro da grande área, que escorou de cabeça para o nosso “Furacão” chegar chutando bola e tudo para dentro do gol. Era o terceiro gol, e o estádio gritava “Brasil, Brasil!”, os torcedores ficaram maravilhados com o futebol mostrado pela seleção brasileira.

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Jairzinho ganhou a alcunha de Furacão da Copa de 1970

Os italianos já estavam abatidos, não conseguiam mais assustar o goleiro Félix. Mas a cereja do bolo ainda estava por vir, e seria com enorme estilo. O Brasil começou tocando a bola lá atrás; Tostão voltou para apoiar Everaldo na marcação, e deu certo. Ele roubou a bola de Domenghini, e acabou sobrando para Brito e lá começava um dos gols — para mim o gol mais emblemático de uma Copa do Mundo — mais lembrados da história da Copa do Mundo. Ele tocou para Clodoaldo, que viu Pelé e Gérson caindo pela esquerda e aproveitou para tramar a jogada com eles, que devolveram para Clodoaldo e com uma sequência de incríveis dribles de curta distância tirou quatro italianos de combate, depois tocou para Rivellino que encontrou Jairzinho.

O “Furacão” acionou sua velocidade e partiu para cima dos italianos, então encontrou Pelé fora da grande área, aí acontece a mágica final… o time era tão entrosado que Pelé rola a bola para Carlos Alberto sem nem ver, ele parecia saber que o companheiro iria aparecer ali. O “Capita” chega em uma velocidade impressionante e acerta um chute forte de primeira, sem chance nenhuma para o goleiro Albertosi.

Amigos, esse é o gol que fechou a conta da Copa de 70, um gol que mostrou a essência desse time, formado por cinco camisas 10, pelo toque de bola envolvente e pelo entrosamento, para mim, sem igual. Eu realmente não sei uma equipe mais mágica e objetiva que essa seleção, e assim acabo esse texto.

“Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção”.


E como prometido colocarei a convocação completa do esquadrão de 70.

Goleiros

  • Félix (Fluminense-RJ)
  • Ado (Corinthians-SP)
  • Leão (Palmeiras-SP)

Zagueiros e laterais

  • Brito (Flamengo-RJ)
  • Piazza (Cruzeiro-MG)
  • Carlos Alberto (Botafogo-RJ)
  • Marco Antônio (Fluminense-RJ)
  • Baldocchi (Palmeiras-SP)
  • Fontana (Cruzeiro-MG)
  • Everaldo (Grêmio-RS)
  • Joel (Santos-SP)
  • Zé Maria (Portuguesa-SP)

Meio-campistas

  • Clodoaldo (Santos-SP)
  • Gérson (São-Paulo-SP)
  • Rivelino (Corinthians-SP)
  • Paulo César (Botafogo-RJ)

Atacantes

  • Jairzinho (Botafogo-RJ)
  • Tostão (Cruzeiro-MG)
  • Pelé (Santos-SP)
  • Roberto (Botafogo-RJ)
  • Edu (Santos-SP)
  • Dadá Maravilha (Atlético-MG)

Técnico

  • Zagallo
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(Foto: futebolemimagens.tumblr.com)