Jair Gonçalves: o Paulista de 1974, o corte de cabelo e o carro que Brandão mandou vender

Imagem: Acervo pessoal, via Terceiro Tempo
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No mundo do futebol, não faltam exemplos de atletas que muitas vezes são deixados de lado pela grande maioria das pessoas, mas que possuíram uma influente história dentro do esporte. Ter a oportunidade de falar com essas pessoas é entrar a fundo nos bastidores do jogo, e ainda conhecer histórias até então desconhecidas.

Geralmente, essas pessoas são fundamentais para construir um legado e possuem incontáveis “causos”. Cabe muitas vezes a nós passarmos adiante para aquelas que não os conhecem.

Tivemos o prazer de poder resenhar com o ilustre Jair Gonçalves, ex-atleta com passagens marcantes por Comercial de Ribeirão Preto, Palmeiras e Athletico Paranaense, e que ainda pode atuar por Juventus e Taubaté.

Nascido no interior de São Paulo, Jair Gonçalves contou como foi o inicio em Ribeirão Preto pelo Comercial, a passagem marcante pelo Palmeiras, o título paulista de 1974 sobre o Corinthians e ainda seus anos em Curitiba atuando pelo então Atlético. Marcado pela polivalência em campo, já que atuou praticamente em todas as posições, Jair nos dá detalhes de como era o futebol nos anos 70 e 80.

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“Naquele tempo nosso, a gente tinha muito campo pra poder jogar. Saímos muito para fazer jogos entre os bairros, e meu pai trabalhava em um depósito onde existiam os comercialinos que faziam jogos de final de ano entre solteiros e casados. E um desses comercialinos me viu jogar e me convidou para fazer um teste na equipe de amador do Comercial – pois naquela época não tinha categoria de base, tinha o campeonato da cidade com as equipes amadoras. Independente da idade, podia jogar na equipe.”

Após passar no teste para a equipe amadora do Comercial, Jair Gonçalves fez o chamado contrato de gaveta e passou a atuar pelo Bafo, como é conhecido o Comercial, jogando à época ainda como centroavante. Segundo ele, o treinador Alfredinho o convidou então para participar dos treinamentos contra a equipe profissional. Depois de um tempo, foi integrado em definitivo, mas ainda tendo o contrato de atleta amador.

“Fiz minha estréia em um jogo contra o XV de Piracicaba, em Piracicaba, com o Amaro de treinador. Atuei de volante. Porém, nessa minha passagem, eu acabei ficando um ano suspenso depois de um jogo contra o Paulista de Jundiaí. E então, uma semana antes de vencer essa suspensão, eu fui convocado para a seleção paulista de novos; depois eu voltei para o Comercial e fiquei mais uma temporada antes de sair em 1974.”

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Jair (em pé, o terceiro da esquerda para a direita) no Comercial (Imagem: Terceiro Tempo)

Contudo, antes de sair para o Palmeiras, Jair Gonçalves revela que foi consultado por São Paulo e Guarani — porém, sem sucesso em ambos os casos. Foi então que apareceu o interesse do Palmeiras, intermediado pelo treinador do clube ribeirão-pretano, Armando Renganeschi, amigo de Oswaldo Brandão. Ele ainda diz que os próprios jogadores do Comercial disseram a ele para ir para o clube da capital, pois assim poderiam receber seus salários, que por muita vezes atrasavam.

“Aceitei a proposta do Palmeiras e fui por empréstimo de março até dezembro de 1974, quando, no final do campeonato, acabaram me comprando em definitivo.”

Chegando ao Verdão, Jair Gonçalves logo em sua estréia teve que enfrentar o Santos e marcar ninguém menos que o Rei Pelé – resultado, 4 a 0 para a equipe santista. Segundo ele, as oportunidades vieram, pois muitos jogadores do Palmeiras acabavam sempre indo para a seleção brasileira naquela época.

Além disso, Jair nos conta outro detalhe curioso de sua chegada a equipe de Palestra Itália.

Quando cheguei no aeroporto, na época usava cabelo comprido. Me falaram para eu cortar, porque o Brandão não gostava muito. Então, um dia depois da apresentação, fui atrás de um cabeleireio. Eu, sendo interior, acabei indo no mais barato – entrei no primeiro que encontrei. Saí de lá parecendo que estava no Tiro de Guerra. Por fim, depois, precisei pagar um mais caro para acertar

Naquele ano de 1974, Palmeiras e Corinthians chegaram para uma final histórica de Campeonato Paulista: o Timão estava há 20 anos sem conquistar títulos e poderia quebrar o jejum justamente sobre o seu maior rival.

No primeiro jogo, no estádio do Pacaembu, empate em 1 a 1, dando ainda mais esperanças para os corintianos que lotaram o Morumbi para a segunda partida da decisão, no dia 22 de dezembro de 1974.

Foi então que, no treinamento de sábado da equipe palmeirense, Eurico, lateral direito titular, sofreu uma lesão. Coube a Jair Gonçalves substituir o amigo. O resto é história: cruzamento de Jair Gonçalves, desvio de Leivinha, gol de Ronaldo. Palmeiras campeão paulista de 1974, Corinthians mais um ano na fila.

“A imprensa toda já falava que o Corinthians iria ser campeão, pois era um time já formado há mais tempo, e eram realmente muito entrosados — apesar de que o Palmeiras ,jogador por jogador, era melhor. Um dia antes, vieram alguns jogadores me avisar que o Brandão estava me chamando, e ele disse que eu seria titular na lateral direita no lugar do Eurico. Falando com ele depois, o próprio Eurico me disse que teve uma lesão na coxa no rachão de sábado.”

Após a festa do título, Jair Gonçalves passou o final de ano em Ribeirão Preto, antes de voltar em definitivo para o Palmeiras e jogar pelo clube Paulista até 1979. Após isso, foi para o Juventus, onde teve uma breve passagem.

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Jair Gonçalves (o primeiro à esquerda em pé), no time do Palmeiras campeão paulista de 1974 (Imagem: Palmeiras/Site oficial)

Ainda no Palmeiras, Jair nos contou duas histórias bem peculiares sobre figuras daquele Palmeiras.

A primeira, sobre Emerson Leão – que, segundo ele, debatia sempre com a diretoria a melhoria do bicho igualitário para a equipe. A segunda, sobre a vez em que o técnico Oswaldo Brandão proibiu um jogador a aparecer nos treinamentos com um determinado carro.

Leão era muito profissional. Era o tipo de atleta que acabava o treino e ficava até mais tarde. O pessoal saía e ele não ia junto. Muitos consideravam ele chato, mas era o jeito dele: chegava mais cedo no treino, saia mais tarde, brigava por bicho para jogador e até para contrato melhor quando o jogador chegava. Ele era o que comandava esse tipo de atitude.

“Brandão ele dava muito conselhos, principalmente para os jogadores mais novos, e o De Rosis vinha de um família que tinha um pouco mais de dinheiro, tradicionais na cidade de Santos. Um dia ele chegou com um carro mais caro que o dos demais e o Brandão mandou ele vender, que no Palmeiras ele não iria mais com aquele carro. Até hoje não sei se ele vendeu ou se ele simplesmente não apareceu mais com o carro.”

Após a breve passagem pelo Juventus, Jair Gonçalves desembarcou em Curitiba, para fazer parte de um grande elenco do Atlético. Por lá, jogou ao lado de grandes nomes como Washington e Assis (o famoso Casal 20) e ainda do goleiro Roberto, que posteriormente vestiu a camisa da seleção brasileira, entre outros. Pelo Furacão foi bicampeão paranaense em 1982 e 1983, e por muito pouco a equipe não chegou as finais do Brasileirão 1983, quando parou para o futuro campeão Flamengo nas semifinais.

“Na época fomos jogar no Maracanã e perdemos de 3 a 0 o primeiro jogo para o Flamengo com o estádio lotado. Depois em Curitiba, vencemos por 2 a 0 deles, e não deu para classificar para a final.”

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Atlético, campeão paranaense de 1983 (Imagem: Click nos Campeões)

Depois da ótima passagem pelo Atlético, Jair Gonçalves voltou ao estado de São Paulo e rumou a Taubaté para jogar pelo time homônimo da cidade. Ficou apenas uma temporada antes de parar de jogar profissionalmente.

“Comecei a ter problemas no joelho e tive que fazer fisioterapia, foi então que surgiu interesse por parte de um diretor do Comercial. Ela chegou e me disse que poderia ir sem problema e qualquer coisa iriam conversar comigo, ai eu fui, porém fiquei treinando um bom tempo e não me deram satisfação e eu decidi por parar de jogar.”

Após a carreira, passou a trabalhar no Ipanema Clube, em Ribeirão Preto, ensinando crianças os mesmos passos que ele deu nos tempos de jogador.

“Depois que eu saí do Comercial, alguns amigos me convidaram para tomar conta das categorias de base do Ipanema Clube. Por lá eu fiquei 18 anos. Hoje eu ainda faço parte do clube mas não mais como treinador.”

Perguntado sobre quais foram os melhores jogador que teve o prazer de jogar ao lado, ou até mesmo contra, listou grandes craques:

“No time do Palmeiras, tinha o Ademir da Guia e o Leão que se destacaram mais, mas se falar em Palmeiras, se fala em Ademir da Guia. E contra, os piores de se marcar eram o Enéas, do Corinthians, e o Serginho Chulapa. Eles jogavam muito com braço, e ficava muito difícil de ganhar a bola deles.”

Fica mais uma vez a mensagem para que, ainda mais nesse momento que passamos, se valorize mais tais pessoas, que fizeram e fazem o futebol possuir uma gama tão extensa de histórias para nos contar. Muito obrigado, Jair Gonçalves, por construir tão brilhantemente para essa coisa que amamos tanto chamada futebol.