A última ausência de um gigante: como a Argentina ficou fora da Copa de 70

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Enquanto brasileiros costumam se lembrar da Copa de 1970 com entusiamo, a maioria dos argentinos prefere fingir que aquele torneio nunca aconteceu. Se conquistamos o inédito tricampeonato com uma seleção inesquecível, nossos vizinhos deram um dos maiores vexames de sua história e foram eliminados nas Eliminatórias de 1969, perdendo a vaga para o Peru‎. Essa foi a última vez que uma das quatro seleções com mais pontos somados na história dos Mundiais (Brasil, Alemanha, Itália e Argentina) ficou fora da competição. Países como França, Espanha, Inglaterra, Uruguai e Holanda foram eliminados no qualificatório em anos seguintes, mas nada que se compare ao peso da ausência portenha.

O curioso é que três meses antes de golearem os italianos por 4 a 1 e erguerem a taça Jules Rimet, Carlos Alberto Torres, Gerson, Pelé e Jairzinho – entre outros titulares daquele escrete – entraram em campo na derrota por 2 a 0 do Brasil contra a Argentina em um amistoso preparatório, disputado no Beira-Rio, no dia 4 de março de 1970. O revés foi um dos últimos jogos do treinador João Saldanha comandando a equipe (seria substituído por Zagallo, às vésperas da Copa).

A seleção albiceleste que bateu os futuros campeões do mundo, em Porto Alegre, entrou em campo com Agustín Cejas (ídolo do Racing, com passagem pelo gol do Santos), Oscar Malbernat (tricampeão da Libertadores pelo Estudiantes de La Plata), Roberto Perfumo (o Marechal, um dos maiores zagueiros de seu tempo, campeão no Racing, River e Cruzeiro), Roberto Rogel (de grande passagem no Boca), Rubén Díaz (que brilhou no Atlético de Madrid), Omar Pastoriza (“El Pato“, na época atleta do Independiente – depois famoso como treinador, chegando a dirigir Grêmio e Fluminense), Miguel Brindisi (que, no fim da carreira, foi “mentor” do jovem Maradona no Boca), Rodolfo Fischer (dupla de ataque com Jairzinho no Botafogo, entre 72 e 74) e Oscar Más (quase 200 gols com a camisa do River). O técnico era Juan José Pizzutti (campeão da Copa Intercontinental com o Racing, em 1967 – a primeira vencida por um argentino).

Pelas credenciais podemos ver que não se tratava da melhor Argentina de todos os tempos, mas contava com nomes de respeito. Era uma equipe renovada, com três remanescentes (Cejas, Perfumo e Brindisi) da trágica queda nas Eliminatórias, sete meses antes. Já não eram mais convocados os defensores Luis Gallo (um dos atletas que mais vestiram a camisa do Vélez Sarsfield), José Rafael Albrecht (destaque do San Lorenzo campeão argentino invicto de 1968, elenco conhecido como “los matadores“) e Silvio Marzolini (herói do Boca, considerado por alguns o maior lateral esquerdo argentino da história); os meias Juan Carlos Rulli (do Racing invicto por 39 jogos) e Carlos Pachamé (quase dez anos com a camisa do Estudiantes); além dos atacantes Ángel Marcos (que se aposentou pelo Toulouse e hoje vive na França), Héctor Yazalde (também consagrado na Europa, pelo Sporting de Lisboa) e Aníbal Tarabini (“el conejo“, estrela do Indepediente). Todos comandados por Adolfo Pedernera (treinador do Boca, vice da Libertadores de 1963 – para o Santos de Pelé -, e que levou a Colômbia ao Mundial de 1962).

O futebol argentino não vivia uma crise de talentos. Até se deu ao luxo de abrir mão de “la bruja” Juan Ramón Verón (pai de “la brujita” Juan Sebastian Verón) e outros astros do Estudiantes de La Plata, tricampeão da Libertadores entre 1968 e 1970, que disputavam o Torneio de Carranza, na Espanha, no mesmo dia em que o país ficou fora da Copa. O que, então, teria causado o vexame?

A Argentina foi considerada campeã moral da Copa de 1966 [eliminada pela campeã Inglaterra em um jogo polêmico] e essa impressão causou um dano fenomenal à seleção, que, nos anos seguintes, viveu um período turbulento, com muitas trocas de treinador e desprestígio“, explicam os jornalistas Diego Borinsky e Pablo Vignone no livro “Así Jugamos“, já resenhado pelo UD, focado na trajetória da seleção albiceleste.

Adolfo Pedernera

A instabilidade no ciclo entre um Mundial e outro foi mesmo impressionante. O ditador militar do país à época, Juan Carlos Onganía, nomeou seguidos interventores na presidência da AFA (Associação de Futebol Argentino), trocando o comando quatro vezes em quatro anos. Consequentemente, foram também seis treinadores no período: Alejandro Galán (5 jogos, em 1967); Carmelo Faraone (2 jogos, em 1967); Renato Cesarini (5 jogos, entre 1967 e 1968); José Maria Minella (8 jogos, em 1968); Humberto Maschio (4 jogos, em 1969) e, finalmente, Adolfo Pedernera (4 jogos, em 1969). A campanha somada de todos os técnicos foi de 9 vitórias, 8 empates e 11 derrotas.

As Eliminatórias para a Copa de 1970

Pedernera assumiu na primeira rodada das Eliminatórias. Naquela edição, os dez afiliados da Conmebol foram divididos em três grupos: A (Argentina, Bolívia e Peru); B (Brasil, Colômbia, Paraguai e Venezuela); e C (Chile, Equador e Uruguai). Todos jogavam em turno e returno, dentro de suas chaves, e os três líderes se classificariam ao Mundial.

Apesar da péssima fase argentina e dos bons nomes no time peruano (como Héctor Chumpitaz e Teófilo Cubillas, comandados pelo brasileiro Didi), o favoritismo era naturalmente do país mais tradicional. Nada disso valeu, porém, no desastroso começo de campanha: entre julho e agosto de 1969, os argentinos amargaram derrotas para a Bolívia (2 a 1, em La Paz) e o Peru (1 a 0, em Lima).

Cachito Ramirez

Os jogos eram disputados seguidamente e não havia tempo de recuperar o psicológico. Em 24 de agosto de 1969, a Argentina bateu a Bolívia por 1 a 0, no estádio La Bombonera, mantendo-se viva na última rodada das Eliminatórias. Para ir à Copa, seria preciso vencer os peruanos, no mesmo estádio, uma semana depois.

Após um primeiro tempo nervoso, a segunda etapa foi cheia de emoções. Jogando pelo empate, o Peru abriu o placar com Oswaldo “Cachito” Ramirez, em um contra-ataque, aos 7 minutos. Os argentinos empataram, aos 33, em pênalti convertido por José Rafael Albrecht. Dois minutos depois, no entanto, Cachito fez seu segundo na partida e deixou o time da casa com dez minutos para marcar dois gols (ou ficar fora da Copa). O reserva Rendo empatou o marcador, aos 42 minutos, mas não houve tempo para mais um.

O Peru eliminou a seleção comandada por Pedernera, e Cachito Ramirez passou a ser conhecido como “Verdugo de la Bombonera” (“carrasco da Bombonera”). A Argentina ficou fora do Mundial que esteve próxima de sediar (perdeu o posto para o México em votação apertada na Fifa, em 1964).

“Quis abandonar o futebol, partir para um lugar distante onde ninguém me conhecesse. Muitos jogadores argentinos da minha época viveram um drama igual, pressionados em um ambiente que, em circunstâncias como esta, nos deixavam loucos“, comentou Perfumo ao livro Así Jugamos, se referindo às intimidações do regime militar.

Os clubes argentinos venceram nove das onze Libertadores disputadas entre 1967 e 1978, mas a ferida aberta pelos gols de Ramirez (atacante do Sport Boys à época) demorou muito a cicatrizar. No título mundial de 78, a controversa goleada por 6 a 0 diante dos peruanos foi uma espécie de revanche portenha.

Nas Eliminatórias para a Copa de 74, ciente da dificuldade de se jogar contra a Bolívia na altitude, a Argentina convocou a chamada “seleção fantasma“, que passou semanas treinando em La Paz, à parte do time titular, para se adaptar aos efeitos de se jogar nas alturas e vencer os rivais. Sem repetir os erros de quatro anos antes, a classificação foi tranquila.

Foram necessários 28 anos até que a Bombonera voltasse a receber um jogo de Eliminatórias. Apenas em 16 de novembro de 1997, com o país já classificado para a Copa da França, o estádio sediou Argentina 1 x 1 Colômbia na última rodada. Desde então, houve momentos de sufoco na busca por uma vaga na Copa (como antes do Mundial de 94, quando o país precisou disputar uma repescagem contra a Austrália), mas a catástrofe de 70 jamais se repetiu.

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