Gunther Schweitzer denunciou venda da Copa de 98… Ou não?

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Desde 12 de julho de 1998, você perdeu as contas de quantas vezes recebeu aquele e-mail assinado por Gunther Schweitzer, funcionário da Central Globo de Jornalismo, que denuncia como o Brasil vendeu o título da Copa do Mundo daquele ano. Lembrou? Aquele no qual o Leonardo diz que “se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas”. Reconheceu agora?

O e-mail é uma daquelas correntes que surgem ninguém sabe de onde, que passam informações duvidosas e que ganham ares de verdade. É o que se chama de hoax na internet. Desde o e-mail original sobre a Copa de 1998, você já deve ter visto inúmeros semelhantes – trocando apenas os personagens envolvidos, a mesma história já foi contada para “explicar” o título do Corinthians no Mundial de Clubes de 2012 ou a eliminação da Espanha na Copa do Mundo de 2014, apenas para citar exemplos mais recentes.

O que você não sabe é que: Gunther Schweitzer existe, e realmente denunciou um suposto complô do Brasil para vender a Copa do Mundo de 1998.

Quer dizer, é mais ou menos isso. Gunther Schweitzer é paulistano, formado em administração de empresas e em educação física. Em 1998, trabalhava para a Volkswagen quando recebeu o conhecido e-mail com a denúncia. Acreditou e repassou a mensagem – que, por descuido, foi adiante com sua assinatura. E foi só isso.

Gunther Schweitzer, aquele do e-mail que denúncia uma suposta venda da Copa de 1998, existe mesmo (Crédito: Getty Images)

Gunther hoje mora em Mogi das Cruzes (SP), onde trabalha como personal trainer. Desde 2012, ele dá aulas de vôlei no Projeto Vôlei para Brilhar, um braço do Instituto Brilho Brasileiro. Como sua assinatura acidental virou a de um “informante” da Central Globo de Jornalismo, nem Gunther sabe. Mas desde que a mensagem ficou famosa na internet, ele se diverte.

“Eu era (…) um mero mortal que achou que devia compartilhar a falcatrua. Por esse deslize do meu Outlook na época, a assinatura foi junto”, contou Gunther ao blog, em entrevista por Facebook – sim, pois até por Facebook a gente faz entrevista hoje em dia. O professor brinca e diz que, desde que seu nome apareceu vinculado à Rede Globo, seu salário continua o mesmo. “Estou querendo receber os salários da Globo desde 2002 e nada”, ri.

Gunther mostra bom humor, mas isso não quer dizer que ele não confie no e-mail que recebeu. Segundo ele, a Copa do Mundo de 1998 foi mesmo comprada. E a Copa de 2014 tem tudo para seguir no mesmo caminho.

“Esporte é jogo, jogo é dinheiro. Dinheiro se remete à empresa e a Fifa junta tudo isso. Não se pode esperar muita coisa”, analisa o professor, que diz ter certeza a respeito das suspeitas da Copa de 2014. “É só analisar a coisa politicamente. Os países em crise sempre recebem um ‘incentivo’ motivacional para vivermos no ‘pão e circo’.”

Com uma postura bastante crítica a respeito do futebol, Gunther diz que não foi ou irá a jogos do Mundial de 2014, mas faz um breve elogio à organização do torneio – “pena que não perdure”. “Ex-torcedor” do São Paulo, o Gunther do Facebook assumiu a responsabilidade do e-mail de 1998, e se despediu de maneira simpática: “vou para o jardim cortar a grama”.

Confira a entrevista exclusiva de Gunther Schweitzer:

Última Divisão – Encontrei você no Facebook para comentar a respeito daquele e-mail famoso, que diz que o Brasil vendeu a Copa do Mundo de 1998. Você já deve ter visto esse e-mail, né?

Gunther – Sim, em 2002.

Última Divisão – É assinado justamente por um Gunther Schweitzer, funcionário da Rede Globo… Imagino que te perguntem muito sobre isso.

Gunther – Pegaram minha assinatura de quando eu trabalhei na Volkswagen Caminhões. Por infelicidade, na época, reenviei o e-mail e, por um erro da assinatura eletrônica, meus dados foram juntos.

Última Divisão – Como assim? Você era diretor da Volkswagen, algo assim?

Gunther – Nada, era um analista de PPCP (programação de veículos), um mero mortal que achou que devia compartilhar a falcatrua. Por esse deslize do meu Outlook na época, a assinatura foi junto. Aí, já viu.

Última Divisão – Então aquele e-mail todo é seu mesmo? Aquele texto todo?

Gunther – Não. Eu recebi de alguém e repassei. Para ter aquele tanto de informações, deve ter vindo de alguém que sabe o que estava dizendo.

Última Divisão – E aí você virou o diretor da Rede Globo que “revelou” tudo aquilo…

Gunther – Pois é. Alguém resolveu dar um up no meu status (risos)… E estou querendo receber os salários da Globo desde 2002 e nada.

Última Divisão – Você acredita ainda hoje naquele esquema todo do e-mail?

Gunther – Cara, sou professor de educação física. Esporte é jogo, jogo é dinheiro. Dinheiro se remete à empresa e a Fifa junta tudo isso. Não se pode esperar muita coisa.

Última Divisão – E você acha mesmo que esta Copa do Mundo de 2014 está comprada, como muita gente diz?

Gunther – É só analisar a coisa politicamente. Os países em crise sempre recebem um “incentivo” motivacional para vivermos no “pão e circo”.

Última Divisão – O Brasil seria esse país hoje?

Gunther – Se esquecermos que o Mensalão está liberando o ex-ministro (José Dirceu) para trabalhar em (regime) semiaberto, que as crianças não receberam os livros didáticos para estudar, acho que sim. Aliás, tenho certeza. Sou formado em administração e educação física. Trabalhei em multinacionais por mais de 10 anos, atuo junto ao esporte desde os meus 14.

Última Divisão – Você tem uma postura crítica em relação ao governo. O que você achou da organização da Copa do Mundo até aqui?

Gunther – Da organização do evento, de 12 de junho para cá, tem sido, digamos, algo sazonal. Que servirá ao propósito da Copa e só.

Última Divisão – Ou seja: para a Copa em si, está bom?

Gunther – Vendo pelo lado organizacional do evento em si, do pontapé inicial ao apito final, está indo muito bem. Pena que não perdure.

Última Divisão – Chegou a ir a algum jogo? Pretende ir?

Gunther – Não fui nem irei. Não sou muito fã de futebol. Até torcia pelo São Paulo quando tínhamos Telê Santana como coach. Mas, sinceramente, depois disso, o esporte virou barganha. Meus alunos da ONG de voleibol também preferem jogar vôlei a assistir os jogos da Seleção.

Última Divisão – Ainda sobre o e-mail: alguém já te procurou para falar sobre? Alguma autoridade, alguém da Rede Globo…?

Gunther – Na época, em 2002, um procurador até me ligou falando que, se eu sofresse alguma ameaça, ele daria um jeito. Achei tudo muito louco na época. Da Globo, nunca ninguém se manifestou. Muitos indagaram à Globo se eu trabalhava lá e tal; a Globo mandou notas via net falando que desconhecia o tal Gunther.

Última Divisão – Mas ninguém nunca ameaçou, nada disso, né?

Gunther – Nada. Só me mandam mensagem perguntando se é verdade tudo aquilo. E eu respondo o que te disse.

Última Divisão – Escuta, você chegou a ver a entrevista com o sósia do Felipão?

Gunther – Não vi.

Última Divisão – O Mario Sergio Conti, colunista d’O Globo e da Folha de São Paulo, entrevistou um sósia do Felipão achando que era o próprio (leia mais AQUI e AQUI). Já acontece disso com você, de te procuraram como diretor da Rede Globo e tudo mais?

Gunther – (Risos) Ah, só via Facebook. Mas sempre com pergunta se eu era o jornalista que denunciou o esquema da Fifa. De boa. Respondo todos e faço meu ‘merchan’ de personal trainer. E dou uma pitada para um bom voto nas próximas eleições – afinal, também sou mesário.

O e-mail de 1998 diz que o escândalo “deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos” (Crédito: Ross Kinnaird/Allsport/Getty Images)

A posição da Rede Globo

O blog entrou em contato com o departamento de comunicação da Rede Globo. Em e-mail, a emissora disse que “desconhece o autor e o conteúdo dessa mensagem”.

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