E se a Copa de 1946 tivesse sido realizada?

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Enquanto a Copa vive seu último recesso, os blogs Abrindo o Jogo e Última Divisão propõem a você, leitor, um exercício de imaginação: e se a Fifa tivesse mantido a realização da Copa do Mundo para 1946, a despeito da II Guerra Mundial?

O primeiro capítulo da série, você lê no Abrindo o Jogo: e se a Copa de 1942 tivesse sido realizada?

E em 1946? Como seria?

Bem, a história começa em agosto de 1945. Em frangalhos, o mundo escrevia a última página da II Guerra Mundial. Benito Mussolini e Adolf Hitler estavam mortos, os japoneses estavam rendidos, e o Eixo formado por Alemanha, Itália e Japão estava desfeito. Enquanto vários países se reconstruíam, o futebol do mundo todo esperava pela Copa do Mundo de 1946. Sim, pois se houve Copa em 1942, em meio aos conflitos, como não haveria em 1946, com a paz selada?

Mas nem tudo seria simples assim, desejo de boa vontade da Fifa. Muitos dos principais atores da entidade estavam em reconstrução, banidos da Fifa, ou simplesmente afastados do futebol. Era sabido que a Alemanha, que nem mesmo realizou seu campeonato nacional entre 1945 e 1947, não estava a fim de futebol. Países invadidos, como Áustria e Polônia também não. União Soviética, Hungria, Checoslováquia e Romênia, que haviam se licenciado da modalidade, esvaziavam ainda mais o contingente europeu no pós-guerra. O que fazer?

Antes de qualquer coisa, a Fifa precisou decidir às pressas a sede do evento. A ideia era sediar os jogos em um país fora da América do Sul (já que a Copa de 1942 havia sido no Brasil) e que não demandasse tanta reconstrução. A Inglaterra queria realizar o torneio em 1948 com a Olimpíada de Londres, mas não convenceu a Fifa a adiá-lo. Os Estados Unidos chegaram a cogitar o torneio, mas quem levou a melhor foi a Suíça. De certa forma, a escolha por disputar a primeira Copa do Mundo após a II Guerra Mundial na neutra Suíça era bastante simbólica.

Desta forma, a América do Sul teve uma presença destacada entre os 16 times classificados para a Copa de 1946. Além do Brasil, campeão em vigência, o continente teve a forte Argentina, tricampeã sul-americana, como candidata ao título – afinal, fora nomes como Rossi, Labruna, Mendez, Pedernera e Lostau, a equipe do técnico Guillermo Stábile contava ainda com o jovem Alfredo di Stéfano. Paraguai, Uruguai e Chile completavam a lista que cruzou a linha do Equador para chegar àquele Mundial.

Guilherme Stábile (Crédito: Conmebol/Site oficial)

Na Europa, a Suíça tinha uma das vagas por ser anfitriã. Junto dos anfitriões, a Suécia e a Dinamarca chegavam respaldadas – os suecos tinham a boa geração encabeçada pelos irmãos Nordahl (Bertil, Knut e Gunnar), enquanto os dinamarqueses apostavam no talento do ponta-esquerda John Hansen. Inglaterra (também com o campeonato paralisado), Iugoslávia, Itália, Escócia. Irlanda e Turquia completaram a lista. Estados Unidos, México e Coreia do Sul completavam as 16 seleções do torneio.

Para receber a competição, a Suíça disponibilizou seis cidades-sede, tendo como base a distribuição dos times da Nationalliga, o campeonato local. Foram designadas Zurique (Estádio Hardturm), Genebra (Estádio Charmilles), Berna (Estádio Wankdorf), Lausane (Estádio Olímpico), Locarno (Estádio del Lido) e Biel-Bienne (Estádio Gurzelen). Nada muito inventivo, apenas para que a bola pudesse continuar rolando normalmente.

O formato foi o mesmo da Copa de 1942: quatro grupos com quatro times em cada, no qual todos os times medem forças entre si, classificando o primeiro colocado das chaves para o quadrangular final. Suíça, Brasil, Uruguai e Itália foram escolhidos os cabeças de chave. Os donos da casa caíram em um grupo complicado, com Suécia, Argentina e Chile. A Seleção Brasileira, por sua vez, tinha Dinamarca, México e Iugoslávia. No Grupo C, a Itália tinha Irlanda, Paraguai e Coreia do Sul. No Grupo D, estavam Uruguai, Inglaterra, Estados Unidos e Turquia.

O Brasil vinha de bons resultados na Copa América, então chamada de Campeonato Sul-Americano de seleções, com dois vice-campeonatos em 1945 e 1946. Assim, o técnico Flávio Costa não teve muitas dificuldades para convocar os jogadores que buscariam o bicampeonato. O time-base da Seleção tinha Ary (Botafogo); Newton (Flamengo) e Norival (Flamengo); Zezé Procópio (Palmeiras), Ruy (São Paulo) e Jayme de Almeida (Flamengo); Lima (Palmeiras), Zizinho (Flamengo), Heleno de Freitas (Botafogo), Ademir de Menezes (Vasco) e Jair Rosa Pinto (Vasco). Era um luxo ter nomes como Bauer (São Paulo), Tesourinha (Internacional) e Chico (Vasco) no banco de reservas.

Ademir de Menezes (Crédito: Conmebol/Site oficial)

No Grupo A, Suiça e Suécia estrearam empatando em Genebra, 1 a 1. A Argentina, por sua vez, fez 5 a 1 no Chile e mostrou força, graças a três gols de Pedernera. No entanto, com os suíços surpreenderam na segunda rodada e venceram a Argentina por 1 a 0. Como os suecos fizeram 3 a 2 no Chile, com um gol de Nils Liedholm no final, três times chegaram à ultima rodada com chances de classificação: Suíça (três pontos), Suécia (três pontos) e Argentina (dois pontos). A Suíça levava a vantagem no saldo de gols, mas parou no Chile (1 a 1), enquanto os suecos se classificaram ao vencer os argentinos: 4 a 2.

O Grupo B teria o México como saco de pancadas e três países disputando entre si a vaga no quadrangular final. O Brasil estreou abrindo 2 a 0 na Dinamarca, graças a uma atuação infernal de Heleno de Freitas, mas cedeu o empate no segundo tempo: 2 a 2, com gols de John Hansen e Eigil Nielsen. A Iugoslávia, por sua vez, fez sua parte ao golear o México por 6 a 1. Na segunda rodada, o Brasil fez 5 a 2 nos mexicanos, enquanto Dinamarca e Iugoslávia pararam no 1 a 1. Na terceira rodada, a Dinamarca atropelou e fez 7 a 0 no México, mas o Brasil fez 3 a 1 nos iugoslavos. No fim, Brasil com cinco pontos, Dinamarca com quatro, Iugoslávia com três e México zerado.

Pelo Grupo C, a Itália levou sufoco na estreia, vencendo a Irlanda por 1 a 0. O Paraguai, por sua vez, fez 3 a 1 na Coreia do Sul – Arsenio Erico, já aos 33 anos, marcou os três gols paraguaios. No entanto, qualquer possibilidade de zebra acabou na segunda rodada, com o 5 a 1 dos italianos sobre os paraguaios. A Irlanda completou a rodada fazendo 1 a 0 sobre os coreanos, sob muita chuva, com gol de Brendan O’Kelly. Na rodada final, os bicampeões mundiais selaram a vaga ao vencer a Coreia do Sul com incríveis 8 a 1 sobre os asiáticos. Irlanda e Paraguai empataram por 3 a 3, com mais dois gols de Arsenio Erico – Doroteo Coronel completou. Com 100%, seis pontos em três jogos, com sete gols de Riccardo Carapellese em três partidas, os italianos avançaram e despontavam como favoritos.

O Grupo D se desenhava como um grupo complicado, mas não foi bem assim. Comandado pelo técnico Aníbal Tejada, o Uruguai tinha um time forte: Máspoli; Pini e Tejera; Sabatel, Obdulio Varela e Prais; Volpi, Medina, Schiaffino, Vásquez e Zapiraín. Assim como o Brasil, o time contava com opções importantes no banco de reservas, como Aníbal Paz, Gambetta, Cajiga e Vidal. Desta forma, o time celeste avançou com três vitórias: 2 a 0 na Inglaterra, 4 a 1 nos Estados Unidos e 6 a 0 na Turquia. A Inglaterra decepcionou, vencendo a Turquia por 3 a 2 e empatando sem gols com os americanos. Na primeira rodada, os turcos venceram os americanos, 1 a 0.

Avançaram para o quadruangular final Suécia, Brasil, Itália e Uruguai. Os uruguaios eram os azarões em uma briga embolada, mas estrearam vencendo a Seleção Brasileira por 1 a 0 em Locarno, graças ao gol de Zapiraín. A Itália chegou a abrir 2 a 0 sobre os suecos, mas levou a virada, 3 a 2. Na segunda rodada, os suecos venceram os brasileiros por 2 a 1, enquanto os uruguaios fizeram 3 a 0 nos italianos. Principais candidatos ao título, brasileiros e italianos já estavam eliminados e cumpririam tabela entre si na última rodada. O Brasil aproveitou a apatia italiana e venceu por 2 a 0, com gols de Ademir de Menezes e Tesourinha, despedindo-se com o terceiro lugar.

Coube à última rodada colocar frente a frente Suécia e Uruguai, os únicos candidatos remanescentes na briga pelo título. O Uruguai tinha a vantagem do empate, já que tinha melhor saldo de gols nas duas primeiras partidas do quadrangular: 4 a 2. De quebra, ainda saíram na frente: em um jogo tenso em Zurique, Vásquez aproveitou a bola afastada por Gambetta na zaga, driblou o goleiro Torsten Lindberg e chutou para abrir o placar no final do primeiro tempo. O bicampeonato celeste estava mais próximo.

No entanto, os suecos empataram logo após o intervalo, em bobeada da defesa uruguaia que Henry Carlsson aproveitou. Gunnar Nordahl virou o jogo pouco tempo depois, obrigando o Uruguai a se lançar para o ataque desordenadamente. Com espaços para atacar, Gunnar Gren aproveitou mais uma oportunidade no fim do jogo e marcou o terceiro na saída do goleiro Máspoli. Final de jogo: Suécia 3 x 1 Uruguai, e o primeiro título da seleção sueca.

Gunnar Gren marca o terceiro gol da vitória sueca; a imagem, na verdade, é do gol de Gren na vitória da Suécia sobre a Iugoslávia na final olímpica de 1948, em Wembley (Crédito: Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

Consequências

Nada do que foi relatado aqui aconteceu de verdade, é claro. Mas e se tivesse acontecido? O que teria mudado no futebol mundial? Vale especular também, a começar pela Suécia.

A geração que teria conquistado o único título escandinavo em Copas do Mundo ganharia espaço nos principais centros europeus, como de fato aconteceu. Dos 12 jogadores que conquistaram de fato a medalha de ouro no futebol para a Suécia na Olimpíada de Londres, seis deles (Knut Nordahl, Bertil Nordahl, Sune Andersson, Gunnar Gren, Gunnar Nordahl e Nils Liedholm) se transferiram para clubes italianos. Os suecos ainda chegariam fortes à próxima Copa do Mundo, em 1950, na América do Sul – e como a Copa de 1942 foi no Brasil, é provável que a Argentina recebesse o torneio pela primeira vez.

Gunnar Nordahl, Nils Liedholm e Gunnar Gren no Milan (Crédito: Carlo Fumagalli/AP)

Campeão em 1930 e vice em 1946, o Uruguai não se abateria com o segundo lugar diante da Suécia, conquistando o bicampeonato em 1950 – pior para a anfitriã Argentina, que perdeu o caneco para os rivais pela segunda vez. O Uruguai ainda seria uma força secundária até a década de 70, quando entraria em decadência. O time só recuperaria voltaria ao patamar de força secundária no Século XXI, com a geração de Luis Suárez e Edinson Cavani.

Com o título de 1942 e o terceiro lugar de 1946, a camisa branca levaria o Brasil a um patamar de potência. A geração de Garrincha e Pelé brilharia entre as décadas de 50 e 70, conquistando títulos em 1958 (tirando o bicampeonato da Suécia), 1962 e 1970. Posteriormente, conquistou as taças em 1994 e 2002, tornando-se a primeira e única seleção hexacampeã mundial. Questionada pelos próprios torcedores depois disso, principalmente em decorrência do individualismo de seus jogadores, a Seleção Brasileira seria uma equipe mundialmente respeitada. Exemplo disso: a terceira camisa que a fabricante lançaria, amarela com detalhes verdes, que seria sucesso em diversos países e um fracasso de venda no próprio Brasil, onde as camisas brancas dividem espaço com os uniformes de clubes.

A Itália permaneceria como uma força mundial, faturando os títulos de 1982 e 2006. Os bons serviços prestados à Fifa, somados à estruturação do país e ao forte futebol local, asseguraram aos italianos o direito de sediar a Copa do Mundo de 1954 – que eles perderiam para a Alemanha. Os alemães, que eliminaram a brilhante geração húngara nas semifinais, conquistaria seu primeiro título em uma final dramática, vencendo de virada por 3 a 2. O jogo seria conhecido como “o Milagre de Turim”.

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