1967: O título nacional esquecido do Bangu

O Estado de Minas, 4 de fevereiro de 1937 (Crédito: Reprodução)
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O Campeonato Brasileiro como o conhecemos é disputado desde 1971. Entretanto, muito antes disso, o futebol do Brasil já convivia com competições nacionais de destaque. E se você pensa que estamos falando da Taça Brasil (1959 a 1968) ou do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1968 a 1970), é melhor olhar mais para trás.

Nos prímeiros anos do século XX, os jogadores de São Paulo e da Guanabara (então Distrito Federal, capital da república) já se enfrentavam em curtos torneios interestaduais. Foi assim que surgiram a Taça Brasil de 1907 (um torneio entre as seleções paulista e carioca), a Taça Salutaris de 1911 (que colocou frente a frente os times campeões paulista e carioca daquele ano) e a Taça dos Campeões Estaduais Rio-São Paulo (disputada com regularidade até a década de 1950, depois retomada sem sucesso na década de 1980).

Neste cenário, surgiu a Copa dos Campeões Estaduais. A competição foi criada pela Confederação Brasileira de Desportos em 1920 para ajudar a selecionar os jogadores que representariam a seleção brasileira no Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) daquele ano. Foram chamados Fluminense (campeão do Distrito Federal), Paulistano (campeão de São Paulo) e Brasil de Pelotas (campeão do Rio Grande do Sul). O Paulistano foi campeão.

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O Estado de Minas, 4 de fevereiro de 1937 (Crédito: Reprodução)

O torneio voltou a ser disputado no Rio Grande do Sul em 1930, com Botafogo, Pelotas e Corinthians. Os paulistas desistiram por dificuldades financeiras, e o time carioca foi campeão. Mais tarde, em 1937, a CBD convidou times de seus cinco estados filiados (São Paulo, Guanabara, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo), além de um time da Marinha. O Atlético-MG levou o título – e, segundo jornais da época, foi o campeão brasileiro daquele ano.

Nos próximos 30 anos, a competição ficou esquecida. Até que, em 1967, a Federação Mineira de Futebol resolveu retomar o torneio. A competição seria disputada em janeiro, contando com os campeões dos principais torneios de 1966: Taça Brasil (Cruzeiro), Campeonato Paulista (Palmeiras), Campeonato Carioca (Bangu) e Campeonato Mineiro (Cruzeiro). Como o título estadual era critério de classificação para a Taça Brasil, a FMF decidiu então convidar o Atlético-MG (vice-campeão mineiro de 1966) para completar a disputa.

O torneio seria sucinto: um mata-mata simples para definir os finalistas. Assim, em rodada dupla no dia 18 de janeiro, o Bangu venceu o Cruzeiro (2 a 0), enquanto o Atlético-MG derrotou o Palmeiras (3 a 1). Quatro dias depois, os cruzeirenses ficaram com o terceiro lugar ao derrotarem os palmeirenses por 3 a 2, enquanto atleticanos e banguenses empataram em 2 a 2 – Paulo Borges e Norberto marcaram para os cariocas, mas Edgar Maia e Santana igualaram o marcador.

Diante do placar, as duas equipes decidiram definir o campeão em um jogo-desempate. O problema é que não havia datas disponíveis para tal. Assim, ficou decidido que o título do Torneio dos Campeões de 1967 seria definido quando as duas equipes jogassem pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa daquele ano, em 19 de março.

Notícia do Jornal do Brasil de 21 de abril de 1967 dá pouco destaque ao título do Bangu (Crédito: Reprodução)
Notícia do Jornal do Brasil de 21 de abril de 1967 dá pouco destaque ao título do Bangu (Crédito: Reprodução)

Assim, em março, as duas equipes voltaram a entrar em campo no Mineirão. Diante de 16.773 torcedores, o Bangu venceu por 1 a 0, graças a um gol de Cabralzinho aos 8 min do primeiro tempo após um cruzamento de Tonho, e sagrou-se campeão do Torneio dos Campeões.

A partida, porém, foi marcada pela confusão no Mineirão. Após marcar o gol, Cabrazinho saiu contundido (foto que abre este texto) e foi substituído por Fernando. Curiosamente, aos 37 min, Tonho cruzou e o próprio Fernando fez 2 a 0, mas os jogadores do Atlético-MG reclamaram de impedimento e árbitro José Teixeira de Carvalho acabou invalidando o lance. Mesmo assim, no meio da confusão, o Atlético teve o meio-campista Vanderlei expulso.

Na etapa final, o time mineiro cresceu, mas não conseguiu empatar o jogo. De quebra, aos 35 min, um torcedor do Atlético-MG invadiu o gramado e acertou o árbitro com uma bandeira – coube aos próprios jogadores do Atlético-MG segurarem o invasor. Aos 38 min, Edgar Maia teve a chance do empate, em um rebote do goleiro Ubirajara, mas mandou para fora.

O resultado valeu ao Bangu seu primeiro título nacional. Nos jornais do Rio, entretanto, o destaque dado ao feito foi bastante discreto.

Mais informações: Bangu.Net, RSSSF Brasil e Wikipédia.

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