Gama 1998: Quando Distrito Federal chegou lá

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O dia 20 de dezembro de 1998 ficou marcado na história do futebol da capital federal. Nesta data, um domingo nublado que depois lavou a alma da galera com uma chuva fina, o Gama enfrentou o Londrina diante de um público de aproximadamente 51200 pagantes (recorde do Estádio Mané Garrincha original) e bateu o time paranaense pelo placar de 3 a 0, coroando assim a campanha que levaria um clube do Distrito Federal pela primeira vez à Série A do Campeonato Brasileiro pós-Copa União, divisão na qual permaneceu por quatro anos e cuja passagem renderia história pra muitos outros textos, de tão marcante que foi este período (Caso Sandro Hiroshi, Copa João Havelange, entre outras).

Os antecedentes desta epopeia cujo desfecho completou 20 anos na última quinta-feira remontam não só ao torneio disputado em si, mas aos acontecimentos de pelo menos quatro anos antes do capitão do time, o zagueiro Jairo, erguer a taça simbólica oferecida pela Federação Brasiliense de Futebol e fazer a festa diante de sua torcida (a taça oficial seria entregue em cerimônia da CBF dias depois).

Mas antes façamos um resumo do que era o futebol de Brasília até aquela data:

Capital Marginal

Quando Brasília foi concebida na segunda metade da década de 50 o futebol já era há muitos anos o esporte mais popular do país e com agremiações consolidadas nas principais cidades brasileiras. Só isso já fez a cidade largar atrás no mapa da bola, vendo o esporte surgir nos campos montados em meio aos canteiros de obras dos futuros palácios por intermédio (claro) das construtoras aqui instaladas. Registros de campeonato existem desde 1959, mas a profissionalização só viria na metade dos anos 70, impulsionada pelo sucesso que o time do CEUB fazia ao disputar o Brasileirão como primeiro representante da cidade em um campeonato nacional.

Após essa fase veio as participações do Brasília e de outros times na elite do futebol nacional (quando o título estadual dava vaga direta à divisão principal), mas sempre atuando de forma discreta, sem destaque. Aí veio a Copa União e o acesso passou a ser feito via divisões B e C, fazendo com que os times do DF sumissem dos holofotes e dos confrontos badalados com Flamengos e Corinthians e, consequentemente, fazendo o povo evaporar das arquibancadas.

E onde estava a Sociedade Esportiva do Gama nessa história toda? Durante essa época o clube conquistou seu primeiro título: o Candangão de 1979, o que o credenciou a representar o DF no torneio nacional nas edições do mesmo ano e da de 1980. Após isso passou vários anos vivendo à sombra dos oito títulos do Brasília e dos cinco do Taguatinga.

Gama campeão de 1979

Até que em 1994 o Gama se estruturou melhor e montou uma base que seria a espinha dorsal do time pelos próximos anos, tendo nomes como os zagueiros Gérson e Jairo, o lateral Rochinha, o volante Deda e os atacante Romualdo e Marcelo França. Esta base acrescida de vários reforços que passaram pelo clube no período conquistou 8 títulos distritais em 10 anos (sequência vitoriosa interrompida somente pelo Guará em 1996 e pelo CFZ em 2002) e conquistou o acesso à Serie B em sua primeira tentativa em 1995.

Após isso foram 3 anos na famigerada segunda divisão, onde ficou em 17º em 1996 após uma campanha honesta, e um 7º lugar em 1997 – onde o alviverde já começou a sentir o gostinho de alçar voos um pouco mais altos ao chegar no quadrangular semifinal daquela competição, porém não pode ir além ao cair num grupo com Náutico, Ponte Preta e CRB.

Inclusive a primeira incursão deste que vos escreve em um campo de futebol para ver um time do DF em campo foi na fase anterior, de oitavas-de-final, onde o Gama bateu o ABC por 3 a 1 no antigo Bezerrão, cancha raiz que teria um papel preponderante na gloriosa saga de 1998.

Estádio Walmir Campelo Bezerra, o Bezerrão (Wikipédia)

Com a eliminação de 1997 pensava que nem tão cedo o Periquito do DF teria outra oportunidade como aquela de sonhar em disputar a divisão principal do futebol brasileiro. Mal se sabia o que estava reservado para o ano seguinte.

Os Preparativos

Para a “segundona” de 1998 o Gama contava com a sua base habitual que havia conquistado o bicampeonato candango naquele ano (o sexto de sua história) reforçada com jogadores que seriam importantes naquela campanha como William, Renato Martins, a dupla de Neis – Júnior e Bala – e o principal deles, Rodrigo, eternizado na história do Gamão do Povão ostentando a camisa 10 durante o campeonato.

No banco, um velho conhecido da torcida alviverde: Orlando Lelé. O ex-lateral com passagens por Santos e Vasco estava em sua terceira passagem no comando técnico da equipe e havia assumido faltando quatro jogos para acabar o Candangão daquele ano. Veio o título e Lelé foi mantido para conduzir o time em mais uma campanha na Série B.

E convenhamos que o Gama pegou um grupo encardido, com times consagrados como Bahia e Ceará e outros tradicionais como XV de Piracicaba, Americano e Tuna Luso. Se o regulamento favorecia para realizar um bom desempenho (quatro times passavam num grupo de seis) o futuro na competição era preocupante, pois a grande atração daquele ano era sem dúvidas a participação do Fluminense, que depois de ser beneficiado pela virada de mesa que aumentou o número de participantes da Série A de 1997 foi rebaixado novamente e não teria mais como fugir de “pagar” a Série B e entrar na disputa para poder voltar à elite, onde teoricamente era favorito a levar uma das duas vagas.

Só pelo que conhecemos da história do Fluminense naquele período sabemos onde isso vai dar.

A Chegada do “Comandante” Benazzi

O Gama não teve vida fácil, a começar pelo início. Um empate com um gol no finzinho contra a Tuna Luso e derrotas contra Bahia, XV e Ceará fizeram Orlando Lelé ser sacado do comando do time.

Providencial ou não, a mudança foi um divisor de águas na campanha. Para o seu lugar foi chamado aquele que daria cara ao time que conduziu o periquito até à festa no Mané Garrincha: Vagner Benazzi.

Sua estreia não poderia ter sido melhor: contra o Americano no Bezerrão veio uma vitória daquelas para encher o torcedor de otimismo, 3 a 0 no clube carioca. E para melhorar ainda mais seguiu-se um segundo triunfo contra o mesmo adversário por 2 a 1 em Campos dos Goytacazes.

Fazendo o dever de casa (devolvendo em casa as derrotas que teve contra XV e Bahia) o alviverde conseguiu beliscar a quarta e última vaga daquele grupo, deixando – quem diria – o Bahia por mais um ano na segundona. Dali pra frente a torcida gamense faria festa atrás de festa toda vez que tivesse jogo no Bezerrão.

E o Fluminense? Teve uma campanha irregular em seu grupo, ficou em quinto e, pelos critérios de desempate, acabou despachado para a Série C. O resto é história.

O Fator Casa

Minha primeira ida ao Bezerrão naquela campanha havia sido na vitória contra o Americano, mas o jogo mais marcante excluindo a final foi o jogo contra o Remo, um 1 a 0 em que você sentia que a torcida embalou e começou a acreditar que dessa vez era possível chegar lá. E para deixar a galera sonhar ainda mais veio um 4 a 1 no Mangueirão que eliminou a necessidade do terceiro jogo (aquela era a época dos infames playoffs).

A torcida chegando cada vez mais junto foi uma marca daquela campanha. Torcidas organizadas novas começaram a ser montadas como Força Jovem e Inferno Verde e camisas verdes começaram a ficar comum nas ruas. Lembro que se você fosse em uma loja de material esportivo e perguntasse se tinha qualquer camisa de um time da cidade o vendedor iria rir da sua cara, agora a camisa (que diga-se de passagem era bem espalhafatosa) era exposta orgulhosamente nas vitrines e vendida a módicos R$ 24 – a título de referência uma camisa de um clube da Série A custava em média R$ 40, a da Seleção que jogou a Copa da França R$ 80.

O estádio Bezerrão lotou em todos os jogos a partir do quadrangular semifinal, onde o Gama pegou Desportiva, Criciúma e novamente o XV de Piracicaba. Fazendo mais uma vez o dever de casa o clube terminou em primeiro e espantou o fantasma do ano anterior, chegando finalmente a um quadrangular final. Faltavam seis jogos para o sonho virar realidade.

Gama e Desportiva se somaram a Botafogo de Ribeirão Preto e Londrina na disputa pelo título. A campanha segura e a empolgação da torcida fez o Correio Braziliense estampar a manchete “Brasília torce pelo Gama”, ilustrada pela foto do meia Rodrigo – já àquela altura o ícone do time e ídolo maior dentre tantos outros que eram venerados pela torcida alviverde.

Uma das imagens mais icônicas a propósito foi registrada no empate contra o Botafogo, no dia 13 de dezembro. No dia seguinte o Correio estampou uma foto de um dos refletores do estádio apinhado de torcedores pendurados nas lâmpadas e na escada junto ao poste. Aquela temeridade fez com que todos chegassem a um consenso – a casa do Gama estava pequena demais para todos que queriam empurrar o time rumo ao título, a decisão contra o Londrina teria que ser no Mané Garrincha.

O Momento Máximo

34 km separam a cidade do Gama do estádio no Plano Piloto. Óbvio que muita gente não curtiu ter que se deslocar, mas se por um lado a galera que estava se espremendo no alambrado desde o empate contra a Tuna estava se sentido desprestigiada, por outro lado surgiu a oportunidade para que o alviverde pudesse ser abraçado não só pela satélite, mas por todo o Distrito Federal.

E a galera veio. Surgiu. Em grande número. Naquele 20 de dezembro a sensação era a de que todo o DF se dirigiu ao velho cimento do Mané Garrincha. Eram ônibus e mais ônibus lotados, estacionamento cheio, fogos, sinalizadores verdes, coisa que há muitos anos um time do Distrito Federal não mobilizava.

Quem visse pensaria que o Gama estava tranquilo na tabela para motivar a torcida, mas não era bem assim. O grupo até aquele momento se recheou de empates e o time do DF só estava na frente porque tinha um empate a mais que todos e se mantinha invicto naquela fase (todos os times tinham uma vitória cada). De qualquer forma a situação era: o Gama só dependia de si mesmo para subir, subia até empatando.

E a torcida nem esperou para começar a festejar. Aos 6 minutos Rodrigo cobrou falta perto do escanteio cruzando pra área. Renato Martins veio por trás de todo mundo sem marcação e cabeceou livre para abrir o placar e fazer a torcida ter seu primeiro momento de explosão.

Já o segundo gol foi a demonstração maior do entrosamento e do trabalho bem feito da equipe. A bola veio sendo trazida pela direita quando chega aos pés do lateral Paulo Henrique, que toca rasteiro pra dentro da área. Rodrigo (sempre ele) viu William se aproximando da meia lua e rolou paro o companheiro de meia cancha mandar uma bomba e estufar a rede do goleiro Renato. 28 minutos da etapa inicial e a torcida extasiada já sentia a taça em suas mãos.

O tempo foi passando e o jogo foi sendo conduzido pelo ao longo da segunda etapa de forma segura, parecia até que a fatura já estava liquidada. Parecia, pois aos 33 minutos Nei Bala mandou uma bola cruzada na área e o goleiro Renato fez o favor de mandar a bola para dentro do gol, fechando o caixão dos paranaenses e aumentando a grande festa daquela tarde.

A festa que tomou conta do Mané Garrincha naquele dia tinha todos os temperos especiais para que se tornasse inesquecível: finalmente o Distrito Federal sairia da marginalização da bola e passaria a figurar o mapa da bola brasileiro. Para os torcedores simbolizava uma espécie de redenção: não mais seria necessário torcer para os times de fora para poder acompanhar o principal torneio de futebol do país, pois o Gama, um time tão próximo da galera, agora fazia parte da festa.

Naquela noite mesmo os jogadores já saíram do estádio no carro de bombeiros para serem escoltados pela torcida até a volta ao Bezerrão, onde foram recebidos por uma multidão que jamais se esquecerá daquela comemoração – de longe a mais importante da história da cidade.

Para celebrar não só o título, mas todo aquele momento em que todos tinham motivos para se orgulhar de ser alviverde, foi erguido um monumento no balão que dá acesso à cidade – onde hoje existe um viaduto – com o escudo do clube e em cima do mesmo um periquito estilizado carregando uma bola. Criado pelo artista Ariomar da Luz Nogueira, o marco ganhou importância tamanha que o balão daquele momento em diante passou a ser chamado pelo povo de Balão do Periquito.

Até os Raimundos quis deixar registrado aquele momento. Na letra de Boca de Lata a banda canta: “1999 aí e o Gama fazendo presença de primeira”.

No ano seguinte o Gama fez uma campanha honesta no Brasileirão, teve vários jogos memoráveis e vitórias fantásticas e, por mais que o desfecho não tenha sido o desejado pelos torcedores (na verdade por ninguém no mundo) não se pode dizer que a passagem gamense pelos holofotes da elite não foi marcante, para ninguém, mas isso é papo pra outro texto.

Mas pergunte para qualquer um que viveu aquele momento se não deu orgulho ver o time da sua cidade fazendo parte do álbum de figurinhas do Brasileirão.

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