Cléo: entre o amor e o ódio na Sérvia

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Quinze minutos do segundo tempo no estádio Marakana, em Belgrado. O meia sérvio Adem Ljajic recupera a bola em seu campo de defesa e, com um toque rápido, lança o atacante Cléo na linha do meio de campo. Com a bola dominada, o brasileiro parte sozinho até a entrada da área e, mesmo com dois marcadores à frente, consegue cortar e chutar no ângulo, garantindo a vitória do Partizan por 2 a 1, pelo torneio nacional da temporada 2009/10.

Nas arquibancadas, o gol do jovem brasileiro serviu como faísca para incendiar a torcida do time visitante, que chegou a atear fogo (literalmente) em algumas cadeiras do estádio. A situação só foi controlada quando a polícia, já acostumada aos recorrentes atos de vandalismo das duas maiores torcidas do país, usou jatos d’água para evitar o incêndio e esfriar os ânimos.

Embora violência e atitudes excessivamente passionais nunca sejam justificáveis em campos de futebol, pode-se dizer que, desta vez, as duas torcidas tinham motivos para estarem ainda mais à flor da pele. Um deles era a diferença entre o líder Estrela Vermelha e o Partizan, que caiu de quatro para apenas um ponto após a derrota; a outra era o autor do gol da vitória, que havia se juntado ao seleto grupo de jogadores (apenas 11 em toda a história do futebol sérvio) que tiveram coragem trocar um rival pelo outro.

Em agosto de 2008, aos 23 anos, Cléo chegou à Sérvia para defender o Estrela Vermelha por empréstimo. Já tinha alguma experiência internacional (atuou no Olivais e Moscavides, da terceira divisão de Portugal, e disputou a Libertadores 2005 pelo Atlético-PR), mas nada comparado ao que estava por vir. “Em junho, terminou a temporada e meu contrato. Eu ia voltar para casa, mas o Partizan mostrou interesse, comprou 80% dos meus direitos e resolvi ficar porque já estou adaptado ao país”, afirmou ao UOL Esporte. Era a primeira vez que um estrangeiro topava fazer esta caminho tortuoso. E isso, obviamente, teve consequências.

Quando entrou no gramado para enfrentar o Estrela Vermelha, no jogo em que deixaria seu nome na história do futebol sérvio, Cléo chegou a ver na torcida de seu ex-clube alguns cartazes ofensivos escritos em português. Aliás, o ódio da torcida do ex-time já havia sido sentido na internet, até mesmo com ameaças de morte, o que acabou mudando até a rotina do paranaense. “Deixei de fazer as coisas que eu gosto, como ir ao restaurante, ao cinema. E sempre que eu tinha que sair de casa, eu ia sozinho, sem a minha mulher e meu filho”, revelou o atacante à Folha.com.

Mesmo assim, depois de colocar a bola no ângulo diante do Estrela Vermelha, Cléo não teve o menor pudor em comemorar. “Comemorei o gol, sim. E se não comemorasse, o que a torcida do Partizan pensaria de mim? Isso também me ajudou a conquistar a confiança dos torcedores. No começo, eu era visto com um pouco de desconfiança por ter vindo de uma equipe rival”, analisou o jogador ao jornal Tribuna/Rede Sul, de Guarapuava, onde começou a carreira no modesto Batel, em 2004.

De lá, saiu para tentar a sorte em Portugal, no modesto Olivais e Moscavide, mas precisou voltar ao país oito meses depois para resolver problemas no visto de trabalho. Foi aí que, levado por um ex-jogador (Tico), Cléo fez testes e assinou com o Atlético Paranaense, que logo o emprestou à Ferroviária-SP. No interior de São Paulo, recuperou a boa forma e voltou a chamar a atenção do time paranaense, que o reintegrou para a disputa do Campeonato Brasileiro e da Copa Libertadores.

O ano era 2005 e Cléo, reserva de Aloísio Chulapa (que o chamava de “Créu”, antecipando a moda funk dos anos seguintes), se destacou ao marcar um gol no jogo de ida com o Cerro Porteño, pelas oitavas de final, tento que acabou sendo fundamental para a classificação do time chegar às finais. Mas o gol não foi suficiente para garantir nem a titularidade, nem o espaço de Cléo na temporada seguinte. E a solução foi emprestá-lo ao Figueirense.

No entanto, o Olivais e Moscavide reapareceu e foi à Fifa para ter de volta o jogador com quem ainda tinha contrato. Cléo até tentou ficar no Brasil, mas para não sofrer uma pesada punição, decidiu retornar a Portugal. Na segunda temporada na Europa, novamente adaptado, o atacante foi o artilheiro do time na II Divisão (terceira divisão) e chamou a atenção do Estrela Vermelha, que defendeu por uma temporada.

Quando já estava conformado em voltar para as divisões inferiores portuguesas, Cléo recebeu a proposta de compra definitiva do Partizan e não pensou duas vezes em aceitar. Foi a melhor escolha, segundo ele. “No Estrela Vermelha, eu vi os torcedores batendo em jogadores. Aqui isso não acontece. Hoje me sinto em casa no Partizan, eles me respeitam muito”, falou o jogador a Folha.com, que ainda demonstrou que, se por um lado é odiado, por outro é idolatrado. “Os torcedores se reuniram comigo e ofereceram proteção para mim e para a minha família. Disseram que colocariam alguns torcedores como seguranças meus. Eu disse que não precisava”, declarou o camisa 9.

Sobre o futuro, Cléo já iniciou os trâmites para se tornar cidadão sérvio e espera defender a seleção do país em breve – a partir de 2013, segundo a Fifa. No fim do ano passado, o presidente da federação de futebol daquela pátria, Tomislav Karadzic, fez o convite ao jogador, que já não nutre mais esperanças de defender as cores do Brasil. “Tenho que ser realista. Para um atacante, ter a chance de jogar na Seleção Brasileira só se eu atuasse no Real Madrid”, disse Cléo ao Trivela, deixando escapar um desejo futuro na carreira.

“Espero me transferir para um centro maior em breve, ganhando mais visibilidade. Acho que me adaptaria mais facilmente no campeonato espanhol ou italiano, devido ao meu estilo de jogo, baseado na força”, analisou ao jornal Tribuna/Rede Sul. Enquanto nenhum destes sonhos se concretiza, Cléo segue marcando seus gols e alimentando o amor e o ódio dos fanáticos sérvios.

FICHA TÉCNICA

Nome Completo: Cleverson Gabriel Cordova
Idade: 25 anos (09/08/1985, em Guarapuava-PR)
Posição: Atacante
Altura/Peso: 1,87m/86kg

Histórico de clubes:
2004 – Batel-PR
2004/05 – Olivais e Moscavide-Portugal
2005 – Atlético-PR
2005 – Ferroviária-SP (empréstimo)
2005 – Atlético-PR
2005 – Figueirense (empréstimo)
2006/07 – Olivais e Moscavide-Portugal
2007/08 – Olivais e Moscavide-Portugal
2008/09 – Estrela Vermelha-Sérvia (empréstimo)
2009/10 – Partizan-Sérvia
2010/11 – Partizan-Sérvia

Títulos: Campeonato Paranaense 2005 (Atlético-PR) e Campeonato Sérvio 2009/10 (Partizan)

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