Implicância cromática

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Chegou o dia! Nesta quarta-feira, 12 de dezembro de 2012, o Corinthians estreará no Mundial de Clubes, enfrentando o Al-Ahly (Egito) em uma das semifinais. Quando entrar em campo no Toyota Stadium para encarar Aboutrika, Gedo e companhia, o time paulista estará na briga pelo título mais importante do futebol mundial… E com um detalhe verde na camisa.

Você deve ter acompanhado a polêmica em torno do assunto nos últimos dias. Se não acompanhou, vamos a ela.

Por exigência da Fifa, os times que disputam o Mundial entram em campo com um patch na manga da camisa (olhe bem), referente à campanha Football for Hope. O problema – se é que é mesmo – é que o selo é verde, justamente a cor do arquirrival corintiano, o Palmeiras. Os representantes alvinegros bateram pé, pediram para retirar o logotipo da camisa, mas a Fifa manteve sua posição. Fim de papo, e o Corinthians vai ter que jogar com o detalhe verde.

O símbolo verde: uma ofensa, não?

A justificativa da rivalidade, neste e em outros casos, virou uma muleta e que toma uma proporção maior do que a necessária quando o assunto é o futebol. A presença ou ausência do detalhe verde no uniforme corintiano certamente não fará diferença no futebol apresentado pela equipe nos dois jogos que ela fará no Mundial de Clubes. Aliás, se a Fifa endoidasse e obrigasse os times a jogar com as camisas de seus rivais, um eventual título mundial do Corinthians teria significado menor?

“Quer dizer que os outros não podem usar camisa preta? Não podem usar camisa branca? Não podem colocar um terno preto? Isso de não poder usar camisa de determinada cor, de não comer determinada comida, de não fazer tal coisa… Isso tudo nossos avós já faziam, aí continuamos fazendo e não sabemos o motivo. Mas eu acho isso tudo ridículo. É ridículo e muito pequeno”, avaliou, de maneira muito inteligente, o presidente do Corinthians, Mário Gobbi.

Argumentações à parte, não é a primeira vez que temos casos parecidos no futebol – e especificamente, no futebol brasileiro. Histórias recentes não faltam.

1. Coca-Cola e o Grêmio

Você já deve ter ouvido aquela história sobre a escolha das cores do rótulo da Coca-Cola, de que ele é vermelho e branco porque o branco em meio a uma cor quente (vermelho) passa a sensação de frescor. Papo furado, como você pode ler aqui e aqui.

De qualquer forma, o vermelho e o branco se tornaram cores facilmente associáveis ao produto. Por isso, qualquer propaganda da Coca-Cola passaria a ser vermelha e branca.

Ano: 1905.

Então, o que fazer quando, em 1987, a Coca-Cola assinou para estampar sua marca na camisa do Grêmio? Seria possível levar seu logo vermelho e branco – justamente as cores do Internacional, maior rival gremista – à camisa tricolor? A resposta: não. A solução encontrada foi adotar um patrocínio preto e branco, dentro das “possibilidades cromáticas” do clube e da bebida.

Assim foi até 1995, quando a Coca-Cola foi substituída pelas Tintas Renner como patrocínio máster do Grêmio. Hoje, a empresa é novamente uma patrocinadora do clube, em papel minoritário. O dilema das cores, porém, é o mesmo.

Olhe com atenção ali atrás do Vanderlei Luxemburgo. Notou algo?

2. Banrisul e o Internacional

Talvez nem todos os nosso leitores conheçam o Banrisul. A sigla é referente ao Banco do Estado do Rio Grande do Sul S.A., que patrocina os rivais Grêmio e Internacional desde o início do século XXI. O problema: as cores da marca do banco são o azul e o branco – que, se caem bem para o gremista, caem mal para o colorado.

Eis a rejeição: como fazer para promover a marca do banco junto à imagem do Inter? Na camisa, não há problema: basta escrever de forma vazada, em branco, na camisa vermelha. Na camisa branca, faz-se o contrário, escrevendo-se de vermelho.

A solução foi a mesma encontrada para a agência do Banrisul na Avenida Padre Cacique, em Porto Alegre, anexa ao Estádio do Beira-Rio. Diferente de todas as outras agências em azul e branco do banco, a do estádio do Inter é vermelha e branco. Simples.

3. Medial Saúde e Corinthians

Quando disputou a Série B do Campeonato Brasileiro, em 2008, o Corinthians trocou de patrocinador máster: deixou a Samsung, empresa coreana de eletrônicos, e assinou com a Medial Saúde, corretora nacional de planos de saúde, graças a um acordo que renderia ao clube R$ 16,5 milhões durante a temporada. O problema? A Medial-Amil Saúde S.A. era (e é) verde.

Desta vez, porém, isso não foi problema. Para evitar o uso da cor do arquirrival Palmeiras no uniforme corintiano, a Medial rapidamente se dispôs a mudar sua cor na camisa. Assim, a logomarca da empresa apareceu em preto e branco durante todo aquele ano nos uniformes.

“Somos muito dinâmicos e flexíveis, de forma que aquela cor que o presidente Andrés (Sanchez, do Corinthians) não quer mais falar não vai estar na camisa. Vamos começar com o preto e o branco, e depois vamos avaliar como a marca se desenvolve”, disse Luiz Kaufmann, presidente da Medial, na época. Detalhe: até mesmo ele evitou mencionar a cor verde na declaração.

4. McDonald’s e o Besiktas

Fenerbahçe, Galatasaray e Besiktas são os três principais clubes de Istambul, principal cidade da Turquia. A rivalidade entre os dois primeiros é grande, mas Galatasaray e Besiktas tem um detalhe que os colocam frente a frente: ambos ficam na parte europeia da cidade, enquanto o Fener fica do outro lado do Estreito de Bósforo, do lado asiático de Istambul. De fato, cada clube tem sua torcida concentrada em uma parte da cidade.

OK, explicamos a parte geográfica da rivalidade. Agora vamos às cores. Acontece que o McDonald’s resolveu instalar um restaurante da rede nas proximidades nas proximidades do Estádio Inonu, do Besiktas. Não é uma má ideia, mas as cores vermelho e amarelo da franquia certamente seriam associadas ao Galatasaray.

Caso você tenha vivido os últimos 80 anos em Marte e não conheça, esse é o logo do McDonald's. É vermelho e amarelo.
Caso você tenha vivido os últimos 80 anos em Marte e não conheça, esse é o logo do McDonald’s. É vermelho e amarelo.

Qual a solução? O McDonald’s relutou um pouco, mas topou mudar as cores das lanchonetes da região da torcida do Besiktas. Os chamados “Golden Archs” estão lá, em dourado, mas o letreiro da loja é todo em preto e branco – cores do Besiktas.

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