Dê uma chance ao escanteio curto (os números estão pedindo)

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Se você debate o futebol com seus amigos ou conhecidos, sabe que o esporte na contemporaneidade está sujeito a diversas críticas. Desde calendário e distribuição de verbas, até chuteiras coloridas, jogadores de nomes compostos e escanteios curtos. Mas até onde isso é folclore?

Recentemente, no Twitter do Última Divisão, nós perguntamos o que vocês, nossos leitores/seguidores, acham do escanteio curto. Por unanimidade, ninguém gosta. Eis algumas das respostas que separamos para vocês.

Mas será que é isso mesmo? Será que o escanteio precisa ser cobrado na área, só porque um monte de jogadores está lá dentro? Será que não é possível buscar uma alternativa para a jogada? Quem sabe… O escanteio curto?

Desmistificando o escanteio tradicional

Felizmente, há quem defenda esta tese. O livro Os números do jogo – Por que tudo o que você sabe sobre futebol está errado, de Chris Anderson e David Sally, disseca os escanteios – e, para tal, analisa as ocorrências do lance no Campeonato Inglês entre as temporadas 2001/2002 e 2010/2011. O resultado da avaliação de bolas levantadas diretamente na área é um tanto quanto decepcionante. Diz a obra:

Nem todo escanteio leva a uma finalização: a defesa se fecha toda, para garantir que isso não ocorra. Assim, era improvável que a taxa de sucesso dos escanteios que levam a finalizações fosse de 100%. O que não esperávamos, porém, é que ela fosse de apenas 20,5%. Apenas um em cada cinco escanteios levava a uma finalização ao gol. Ou, colocando de outra maneira, quatro escanteios em cada cinco não levaram sequer a uma finalização.

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A redução na correlação é ainda maior se observarmos quantas dessas finalizações originadas de escanteios levaram a gols. Aqui, o que vemos é que apenas uma em cada nove finalizações oriundas de escanteios termina com uma equipe comemorando e a outra caminhando inconsolável para o círculo central. Em outras palavras: 89% das finalizações a gol geradas pelos escanteios são desperdiçadas.

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A pesquisa de Anderson e Sally traduz a numeralha: um escanteio “vale” aproximadamente 0,022 gol. Nesta média, um time precisaria de cerca de 45 escanteios cruzados para a área para marcar um gol. Nos números do período analisado pelo livro, isso equivaleria ao número de escanteios de dez partidas. Ou seja: um gol de escanteio a cada dez partidas.

A obra cita Barcelona e a seleção da Espanha como casos de times que parecem “ter desistido do escanteio tal qual o conhecemos, preferindo, em vez disso, usá-lo como uma oportunidade de conservar a posse de bola, e não de lançar a bola na área”. Enquanto a você tem a posse da bola, ela é sua; quando você arrisca um cruzamento, ela passa a ser de ninguém.

A obra não perdoa ao chamar os escanteios tradicionais de “ineficazes”. Na temporada 2010/2011, foram analisados 1434 escanteios de 134 jogos, sem apontar um maior número de gols em uma partida com maiores números de tiros de canto. Seria então desperdício levantar a bola na área? Ao que indica o estudo de Chris Anderson e David Sally, sim.

Da próxima vez que seu time obtiver um escanteio, pense duas vezes antes de pedir que os jogadores mais altos de seu time subam ao ataque. Talvez seja melhor cobrá-lo curto, para manter a posse de bola, do que tentar um golpe decisivo. Os números podem nos ajudar o jogo sob uma luz diferente. Aquilo que sempre fizemos não é necessariamente aquilo que devemos fazer.

Escanteio curto pode ser valioso

É claro que não basta tocar de lado um tiro de canto para aumentar suas chances de gol. Como muita gente criticou na nossa pesquisa, falta uma sequência ao escanteio curto. O que o segundo jogador faz com a bola depois que recebe a bola do primeiro?

Há algumas alternativas para tal. Uma das mais populares é transformar o escanteio curto em escanteio longo novamente. O segundo jogador faz um pivô para o primeiro, que levanta a bola na área; desta vez, porém, com mais ângulo para cruzar a bola na área, acrescentando perigo ao lance original. Dali, pode até sair um chute direto para o gol.

Ou pode virar um escanteio rigorosamente igual ao que seria um escanteio longo. Assim.

E se você tiver uma jogada ensaiada, pode transformar a posse de bola de um escanteio curto em um golaço. Tipo esta obra de arte do escocês Shaun Maloney:

Ou este aqui, do italiano Claudio Marchisio:

Nem melhor, nem pior; apenas diferente

Em resumo, não há motivos para odiar o escanteio curto se você não odeia o escanteio como um todo. Se bem treinado, ele pode ser uma opção bastante eficiente, especialmente se houver uma jogada bem pensada a partir do jogador que recebe o passe no canto. Certamente, o aproveitamento não fica devendo em relação ao escanteio direto para a área.

Mas ei, este texto não quer te convencer a gostar do escanteio curto, ou a ser um amante da posse de bola. Por isso, pedimos uma opinião a respeito ao amigo Arthur Chrispin, autor do romance Dezena, centena e milhar e crítico de longa data do escanteio curto – além de conhecido como o criador do termo ‘Lampions League’ que batiza a Copa do Nordeste. Com a poética de sempre, Arthur avaliou o lance e mostrou: não se pode jamais abrir mão do imaginário popular.

O escanteio curto parece cocaína mas é só tristeza. Dizem os números que ele é eficiente, que o aproveitamento é alto, que desse jeito se é mais feliz, mas aos olhos puristas ele é apenas uma alegria fugaz que vicia os pragmáticos e enfeia o jogo. O escanteio curto é somente uma ilusão de verão, assim como o coração aberto, o amor platônico e o futebol-arte.

É bonito? É feio? Você decide. Mas dê uma chance ao escanteio curto – nem que seja para desperdiçar o escanteio de uma maneira diferente.

(Colaborou Allan Brito)

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