Tímido e precoce: conheça o começo da carreira de Ceni no Sinop

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O Rogério Ceni que todos nós conhecemos é um líder nato. Porém, 30  anos atrás, já existiu um Rogério Ceni totalmente diferente. Era tímido e de poucas palavras. Um típico menino do interior. Ele nem tinha muito compromisso com o futebol, mas foi revelado precocemente: virou campeão estadual pelo Sinop-MT aos 17 anos, como titular na final. Depois se tornou um dos maiores ídolos do São Paulo como goleiro. E também se firmou como o maior técnico da história do Fortaleza. Agora Ceni foi campeão brasileiro como treinador pelo Flamengo.

Éder Ferreira foi companheiro de time  de Rogério Ceni no começo de carreira. Conheceu bem aquele garoto tão diferente de hoje. “Quando ele chegou no Sinop, eu tinha 20 anos e ele 17. Ele era tímido, muito tímido. Não era de falar muito. A gente se falava quando eu ficava batendo bola no gol nos treinos. Mas ninguém ouvia ele falar muito”, lembrou o ex-meio-campista.

Pai do Rogério Ceni, o senhor Eurydes confirmou essa característica. “Era tímido porque era muito garoto, tinha 17 anos. Então é complicado você ser um recém-iniciado, é difícil”, contou.

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Ceni esteve perto de não ser goleiro. Quando jovem, seu foco estava no trabalho como auxiliar de serviços gerais do Banco do Brasil. Nas peladas da empresa, era meio-campista. No trabalho do dia a dia, organizava tudo e conseguia se destacar.

Mas veio a grande chance no futebol. “Ele começou como terceiro goleiro (do Sinop), até um pouco descompromissado. Ia treinar, mas nem precisava viajar”, lembra o pai. Foi quando o inesperado aconteceu: o titular Marília e o reserva Valdir Braga se lesionaram praticamente ao mesmo tempo. O jovem Rogério se tornou a única opção. Ninguém sabia, mas era a melhor opção.

A inexperiência não pesou: em seu primeiro jogo, Rogério Ceni defendeu um pênalti. Depois foi campeão mato-grossense – o primeiro título estadual de uma equipe que não era da capital.

E Ceni precisou dar sangue na conquista. Ou quase isso. “Teve um jogo em Cuiabá que teve uma confusão.  Um policial bateu nele com o cassetete. Ele ficou com a cabeça sangrando. A gente ficou preocupado. Ele era muito novo e foi bem preocupante”, contou Éder.

O pai de Ceni também lembra da confusão, mas diz que não foi tão grave: “nem foi na cabeça que bateram. Foi nas costas. Foi a Policia, no final do jogo, mas ele não se envolveu na confusão. Não é que ele brigou, mas os caras foram batendo nele”, defendeu Eurydes.

A confusão seria esquecida, mas o talento de Rogério Ceni não. Ele foi observado por um olheiro do São Paulo. “Foi um diretor que trouxe ele lá de Sinop. O São Paulo sempre teve olheiro em todo lugar. E alguém falou para o diretor olhar esse goleiro”, relembra Gilberto Morais, o primeiro a testar Ceni no Morumbi. O diretor citado era o conselheiro José Acras, que entrou em contato com o Sinop e intermediou a primeira avaliação do jovem campeão mato-grossense.

Durante o teste, Gilberto também viu timidez em Rogério Ceni: “ele era quieto, porque é normal isso com quem vem do interior para o São Paulo”. Mas também enxergou o talento do goleiro. “Fiz como eu fazia com todos. E na hora a gente notou que ele já era diferenciado, porque o goleiro novo, de 17 anos, normalmente quer voar, quer pular e fazer defesas bonitas. Mas ele já era centrado, apesar da pouca idade. Só caía quando era necessário, tinha uma característica de goleiro europeu”, observou Gilberto, que tem orgulho da descoberta, mas não exibe vaidade. “Fui eu, mas poderia ter sido qualquer um. Todo mundo aprovaria o Rogério”. Uma vez dentro do São Paulo, Ceni voltou a mostrar precocidade. “Ele chegou para ser avaliado para o juvenil, mas acho que pulou etapas. Foi direto para os juniores”, relembra Gilberto.

O problema é que Ceni estava “sozinho”. Seu pai, que tinha lhe acompanhado para fazer os testes, voltou para Sinop. O goleiro estava longe da família, morando no Morumbi e ficou na reserva de Zetti durante anos. O São Paulo não queria lhe emprestar e por isso algumas ideias negativas surgiram. “No começo ele ficou querendo ir embora, desistir. Pensou em voltar, se sentiu sozinho, mas a gente foi aconselhando ele a ficar”, contou Eurydes.

Ele ficou. Virou titular, fez grandes defesas e até gols históricos. Conquistou títulos, conquistou o mundo e resistiu ao assédio da Europa para ficar na história tricolor. O menino tímido virou um símbolo de liderança no Morumbi. E entrou pra história do Flamengo justamente no Morumbi.

(Essa reportagem foi publicada inicialmente no portal Terra por mim e resgatada agora, com adaptações)

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