A maior punição do futebol brasileiro: o banimento do América-MG em 1993

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A torcida do América-MG lavou a alma entre 1992 e 1993. Com alguns dos grandes ídolos de sua história em campo – como o goleiro Milagres (recordista de jogos pelo clube), o zagueiro Luiz Carlos Marins (273 partidas com a camisa americana), o meio Flavio Lopes (posteriormente treinador campeão da Sul-Minas de 2000 pela equipe) e o inesquecível ataque Euller (o “filho do vento”), Hamilton e Robson -, o Coelho devolveu à sua torcida algumas alegrias não vivenciadas por décadas.

O sonho começou em 1992, quando o time, beneficiado pela virada de mesa que promoveu 12 equipes em vez de duas na Série B do Brasileiro, conseguiu acesso à elite nacional, encerrando longos 13 anos na segundona (com uma rápida passagem pela Série C). Ainda naquele ano, no segundo semestre, o Decacampeão voltou a figurar entre os dois melhores do estadual após 19 anos, vendendo caro o título para o Cruzeiro, na primeira vez que a Raposa venceu uma decisão direta diante do rival.

Um vice-campeonato estadual e um acesso questionável já eram motivo de grande empolgação para uma torcida carente. Mas o êxtase estava por vir: sem perder nenhum clássico, com uma defesa marcante (que passou de 400 minutos sem sofrer gols) e um histórico 4 a 0 contra o Atlético, o América levantou o Campeonato Mineiro de 1993 após 21 anos de jejum.

Quando o Brasileiro começou, em setembro, os americanos estavam nas nuvens. Não poderiam imaginar que, após tal ressurgimento, o Coelho viveria um pesadelo sem precedentes no futebol nacional.

O Brasileiro de 1993 teve um regulamento bizarro, algo bem comum na época. Eram 32 equipes, divididas em 4 grupos de 8, todas jogando 14 partidas de turno e returno. Até aí, tudo bem, mas lá vem o absurdo: as chaves A e B, formadas por membros do Clube dos 13, não tinham rebaixamento. Já na C e D (que contavam com todos os clubes vindos da segundona um ano antes, com exceção do Grêmio), os quatro piores colocados enfrentariam o descenso.

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Pela classificação final da primeira fase, o América-MG, 5º colocado do Grupo C e 16º na tabela geral (lembrando: entre 32 times!) foi rebaixado. Clubes como Atlético-MG (4 pontos), Botafogo (6), Fluminense (8) e Vasco (13) fizeram menos que os 14 pontos americanos, mas já estava determinado que não cairiam.

Magnus Lívio, o presidente americano que peitou a CBF

Revoltada com o rebaixamento, a diretoria do Coelho decidiu peitar a CBF. Convicto de que conseguiria se manter na Série A – com base no mérito esportivo, por ter feito campanha melhor que a de 16 adversários -, o clube, liderado pelo presidente Magnus Lívio, entrou na Justiça Comum contra a entidade máxima do futebol brasileiro.

Alguns anos antes, em 1989, o Coritiba havia feito o mesmo (em reclamação à não remarcação de um jogo) e foi condenado a passar um ano sem disputar torneios nacionais. A pena mais tarde foi revogada, graças a um acordo dos paranaenses com Ricardo Teixeira, e o Coxa terminou punido “apenas” com um rebaixamento.

No caso dos mineiros, porém, a punição pela rebeldia foi ainda mais dura e não coube recurso: o América foi banido do Brasileiro por duas temporadas, excluído das edições de 1994 e 1995. Sem calendário por muitos meses do ano, a saída foi recorrer a excursões internacionais, como a o tour pela Ásia em 1994, com amistosos na China, Catar e Arábia Saudita. Em uma dessas partidas, o eterno goleiro Milagres se envolveu em uma briga com chineses e acabou deslocando a retina – lesão que custou quase um ano de afastamento.

Após tantas aventuras, o América voltou a jogar o Brasileiro na Série B de 1996, quando terminou em 5º. No ano de 1997, em uma equilibrada disputa com a Ponte Preta, o clube se sagrou campeão da segundona e conquistou o acesso que enterrou de vez o trauma do banimento.

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