Zé Mario: do ineditismo na seleção brasileira ao adeus precoce

A Cidade On
0 177

Entra ano, sai ano e o debate acerca dos jogadores convocados para a seleção brasileira sempre aparece entre jornalistas e torcedores do nosso país. Muitos defendem a tese de que devemos optar mais por jogadores que atuam no futebol nacional, enquanto outros dizem muitas vezes o técnico não tem poder de decisão e quem convoca os atletas é a CBF por motivos empresariais.

Seja qual for a verdade  ou a opinião de cada um, fato é que mesmo os jogadores que atuam no futebol brasileiro só conseguem uma chance com a camisa amarelinha quando chegam em um time considerado “grande” em nosso futebol. São raros os casos de jogadores, como o goleiro pontepretano Ivan, que recebem uma convocação atuando em um clube “menor” do nosso futebol.

Mas quem foi o primeiro jogador do interior a ter a honra de vestir o manto de nossa seleção? É justamente esse o personagem da nossa história de hoje e que infelizmente teve um final precoce.

Imagem106
Zé Mário na revista Placar de outubro de 1976 (Reprodução)

Nascido em Ribeirão Preto, José Mario Donizeti Baroni (ou simplesmente Zé Mário) começou a trajetória no mundo da bola nas categorias de base do Comercial. Começou ainda garoto atuando como meia direita, mas foi se encontrar quando mudou de posição, atuando no ataque, principalmente pelas beiradas. Acabou se destacando justamente com a camisa do maior rival do Bafo, o Botafogo.

Por lá, muito dizem inclusive que era ele seria o maior ponta do Brasil, como cita Arlindo Fazolin, que foi companheiro de ataque da jovem promessa no Pantera.

“Se não tivesse acontecido essa fatalidade, o Zé Mário seria o maior ponta do Brasil. Ele era muito mais criativo que o Sócrates, que era um jogador genial, mas, de meio tempo, não tinha condição física duradoura e tínhamos que correr por ele. O Zé Mário dava muito mais trabalho em campo e criava bastante o tempo inteiro”

Ao lado de Sócrates, Zé Mario levou o Botafogo a uma das maiores conquistas de sua centenária história: a Taça Cidade de São Paulo em 1977, que representava o primeiro turno do Campeonato Paulista. O time dirigido por Jorge Vieira e que tinha como destaques Lorico, Sócrates, Zé Mário e João Carlos Motoca, empatou por 0 a 0 com o São Paulo no tempo normal e na prorrogação. Por ter a melhor campanha, levou o troféu para Ribeirão Preto.

Nesse mesmo ano o então técnico da seleção brasileira, Claudio Coutinho, surpreendeu a todos e convocou o jovem atacante de 20 anos do Botafogo, no que seria o primeiro atleta de um clube do interior a vestir a camisa canarinha. Contudo, foi justamente esse o inicio da fatalidade citada anteriormente por Fazolin.

A primeira convocação veio para disputar uma partida contra a Inglaterra no Maracanã que terminou sem gols. Após isso, veio uma nova convocação para enfrentar a Seleção Paulista. O jogo terminou em empate em 1 a 1, sendo dele a assistência para o gol brasileiro.

E foi justamente nos exames de rotina desse jogo que o então médico da seleção brasileira, Lídio Toledo acabou descobrindo uma grave doença no jogador, a leucemia.

Depois de sessões de quimioterapia Zé Mario até voltou a treinar, visivelmente mais magro e careca devido ao tratamento na doença, chegou-se a dizer que ele estaria melhorando. Entretanto, logo depois viria o mais duro golpe de todos.

Apenas um ano depois da convocação para a seleção e do diagnóstico da doença, com apenas 21 anos, o ponta-direita Zé Mário perdeu a batalha contra a leucemia. Não fosse a doença, certamente poderia ter disputado a Copa do Mundo daquele ano, na Argentina.

Em sua despedida, uma legião de torcedores tricolores foram dar o último adeus ao jovem e promissor atleta.

Zé Mario sempre será lembrado por todos (e não só pelo botafoguenses) por ter aberto as portas para os jogadores do interior do Brasil mostraram que também poderiam defender a seleção nacional.

Exatacante Arlindo 790x505 02062018105836
Arlindo Fazolin, ex-jogador do Botafogo-SP (Matheus Urenha/A Cidade)