Zé Carlos, camisa 13: Matonense, Copa de 98 e política no MT

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O lateral direito Zé Carlos disputou apenas um jogo pela Seleção Brasileira, mas jamais vai ser esquecido. Pudera: o jogo em questão foi um tenso Brasil 1 x 1 Holanda, pelas semifinais da Copa do Mundo de 1998. Opção tardia do técnico Mario Jorge Lobo Zagallo para aquele Mundial, o camisa 13 entrou para o folclore do futebol – não só pelo que fez em campo, como este jogo, mas pelo que fez também fora dele.

Nascido em 14 de novembro de 1968, em Presidente Bernardes (SP), José Carlos de Almeida começou sua carreira profissional no São José, em 1990. Nos anos seguintes, atuou ainda por Nacional, São Caetano, Portuguesa, União São João e Juventude. No entanto, após deixar o clube gaúcho no final de 1996, Zé Carlos se deparou com um cenário comum para atletas que defendem equipes menores: o desemprego.

No começo de 1997, foi contratado pela Matonense para disputar a Série A2 do Campeonato Paulista, e acabou colhendo frutos com o título do clube de Matão no torneio. Assim, no meio do ano, a revelação da lateral direita da Matonense foi contratado para reforçar o São Paulo. Aos poucos, foi conquistando espaço, até se firmar como titular no time que conquistou o Campeonato Paulista de 1998 sobre o Corinthians.

Da esqueda para a direita, a Matonense de 1997 tinha Du Peixe, Leonardo, Gilson, Marcos Bolacha, Zé Carlos, Claudio, Cerezzo, Paulo Sergio, Glelber, Juliano, Marcio, Wilson e Guaxe (em pé); Camilo, Adriano, Nelsinho, Marcelinho, Táxi, Fabricio, Silvinho, Beto Médici, Milton e Doutor Scarpellini (agachados) (Crédito: Matonense/Site oficial)

“Quando cheguei ao São Paulo, tinha jogado só em times pequenos, fora a Portuguesa (1994). De repente, cheguei de um time de segunda divisão, comecei a jogar e não saí mais. Sabia que ali eu era meio ‘será?’, que tinha aquela dúvida. Mas tinha alguém que me via com bons olhos, que foi o (técnico) Darío Pereyra, que me colocou pra jogar. Ele não teve dúvida, me falou : ‘faz o que você tem feito nos treinos’. Deu carta branca para jogar”, contou Zé Carlos, em entrevista por telefone ao blog.

No clube do Morumbi, Zé Carlos se tornou também um jogador estimado, daqueles bons de ambiente. Para fazer graça entre os companheiros, costumava imitar animais. Embora querido pelo time e em boa fase, Zé Carlos não era bem quisto pela torcida – segundo a lenda, houve um torcedor que ouviu suas imitações de bichos em um treino e gritou: “agora imita um lateral”. Neste cenário, uma chance para a Seleção Brasileira era pequena, embora existisse.

Foi aí que o destino deu uma força. Na convocação para a Copa de 1998, Zagallo havia chamado Cafu para ser titular da lateral direita, com Flávio Conceição “improvisado” como reserva. Como o reserva se machucou, o cotado Zé Carlos ganhou a chance de ouro. Fez as malas e embarcou para a França, para servir como reserva de Cafu. Questionado? Que nada! Zé Carlos foi confiante para o Mundial.

“A maioria dos que falam nunca deram um chute na bola. Muitas vezes vejo isso como falta de respeito. Quando estamos ali, quem nos escolhe são pessoas capacitadas para isso. É uma conversa, um grupo que escolhe. Quem escolhe está no ramo há muitos anos. Nunca me preocupei com isso”, completou.

O camisa 13 – justamente o número de sorte do técnico Zagallo – seria um reserva de luxo, se Cafu não tivesse sido advertido com cartões amarelos nas oitavas de final (vitória sobre o Chile) e nas quartas de final (vitória sobre a Dinamarca). Suspenso, o camisa 2 promoveu a estreia de Zé Carlos, que estreou pela Seleção Brasileira em uma semifinal de Copa do Mundo – pouco mais de um ano após conquistar o título da Série A2 do Campeonato Paulista pela Matonense.

É bem verdade que o lateral sofreu um bocado. Incumbido de marcar Boudewijn Zenden, que avançava pela ponta esquerda da Holanda, Zé Carlos ficou nas saudades em pelos menos dois lances do primeiro tempo, e que por pouco não se converteram em gols do time de Guus Hiddink. Após o intervalo, o Brasil abriu o placar logo no primeiro minuto do segundo tempo, em bola alçada por Rivaldo pela esquerda – Ronaldo invadiu a área e tocou na saída de Edwin van der Sar.

No segundo tempo, insistindo pelo outro lado, a Holanda cansou de criar chances para Patrick Kluivert. O camisa 9 parou em Taffarel na maioria delas, mas empatou o jogo de cabeça aos 42min. Na prorrogação, a Seleção pressionou até não poder mais, mas não saiu do empate. A classificação para a final contra a França só veio nos pênaltis, graças às defesas de Taffarel nas cobranças de Phillip Cocu e Ronald de Boer.

Zé Carlos estreou e se despediu da Seleção Brasileira no empate contra o Holanda pelas semifinais da Copa do Mundo de 1998 (Crédito: Ben Radford/Allsport/Getty Images)

Talvez Zé Carlos não soubesse ou imaginasse, mas aquele jogo no Estádio Velodrome, em Marselha, no dia 7 de julho de 1998, foi seu último pela Seleção Brasileira. Cinco dias depois, com Cafu de volta à lateral, o Brasil foi batido pela França e voltou para casa uma derrota amarga. Zé Carlos nunca mais foi convocado.

A derrota, segundo o ex-lateral, nada teve a ver com o mal-estar sentido por Ronaldo e testemunhado por ele. “O Brasil não foi bem no jogo (contra a França), não estava em um momento bom”, afirmou. “Sempre vou dizer isso: (a derrota) não foi por causa disso (problema de Ronaldo). A adrenalina estava a milhão. O Brasil não estava em uma tarde feliz, jogou mal.”

Em 1999, Zé Carlos foi emprestado para o Grêmio, conquistando o Campeonato Gaúcho e a Copa Sul. De volta ao São Paulo em 2000, passou ainda por Ponte Preta e Joinville, conquistando seu último título profissional – o Campeonato Catarinense de 2001. Em 2005, pelo Noroeste, aposentou-se da carreira profissional.

O que não quer dizer que Zé Carlos tenha parado. Nos anos seguintes, ainda com fôlego de sobra, passou a atuar em times de várzea. Fora dos gramados, investiu em um projeto social na cidade de Osasco (SP). No início de 2012, mudou-se para Presidente Prudente (SP), onde tentou emplacar também uma escolinha de futebol. Um ano depois, assumiu o cargo de secretário de esportes da cidade de Nova Mutum (MT), que ocupa até hoje.

Hoje, o secretário de esportes de Nova Mutum, José Carlos de Almeida, mantém a tranquilidade e a fala mansa dos tempos de jogador. “O bom é que, onde eu estou aqui, tive a felicidade de haver pessoas sérias na política. Hoje, politicamente, o Brasil está em uma situação difícil. Joguei em 12, 13 clubes, e nunca tive problema nenhum. Tracei para mim um propósito e não abro mão do meu caráter. Não abro mão, vem de família. Quando você entra no meio politico, é aquela incógnita. Tive a felicidade de ter o prefeito Adriano (Pivetta, PDT), sério, de caráter”, analisou.

Em bate-papo por telefone com o blog, Zé Carlos contou o que fez, além de sucesso. Falou sobre jogadores questionados, o mal-estar de Ronaldo, Seleção Brasileira, São Paulo, Matonense, futebol do Mato Grosso, Copa do Mundo… E muito mais. Confira:

Última Divisão – Quando saiu a convocação de 1998, você vivia uma boa fase no São Paulo, e até era cotado para a Seleção. Mesmo assim, a imagem que se tem hoje é que você era um cara questionado. Você se sentiu questionado na Seleção?

Zé Carlos – Não. Foi mais imprensa. Eu nunca tinha jogado, nunca tinha ido. (Mas) os caras confiavam em mim, no meu trabalho.

Última Divisão – Em 2014, o zagueiro Henrique é um homem de confiança do Felipão, embora seja questionado por uma parcela dos comentaristas e dos torcedores. Como você avalia a situação dele na convocação?

Zé Carlos – A gente que está nessa profissão de jogador, de cantor, ou de qualquer profissão que se expõe um pouco… O jogador se expõe muito. Tem 50 mil te vendo, 60 mil te vendo. Às vezes aplaude, às vezes vaia. Tem que ter personalidade. Quando você escolhe algo para fazer, se fizer o certo, não tem que se preocupar com o que vão dizer. Se você for ficar preocupado com o que vão falar… A maioria dos que falam nunca deram um chute na bola. Muitas vezes vejo isso como falta de respeito. Quando estamos ali, quem nos escolhe são pessoas capacitadas para isso. É uma conversa, um grupo que escolhe. Quem escolhe está no ramo há muitos anos. Nunca me preocupei com isso. Quando cheguei ao São Paulo, tinha jogado só em times pequenos, fora a Portuguesa (1994). De repente, cheguei de um time de segunda divisão, comecei a jogar e não saí mais. Sabia que ali eu era meio “será?”, que tinha aquela dúvida. Mas tinha alguém que me via com bons olhos, que foi o (técnico) Darío Pereyra, que me colocou pra jogar. Ele não teve dúvida, me falou : “faz o que você tem feito nos treinos”. Deu carta branca para jogar.

Última Divisão – Passada a Copa de 1998, muita gente te pergunta a respeito? Sobre a sua participação, sobre os bastidores da final…?

Zé Carlos – Sim. A pergunta que eu mais respondi foi da Copa – se houve arranjo (de resultado na derrota para a França), se o Ronaldo passou mal…

Última Divisão – E o Ronaldo passou mal?

Zé Carlos – Passou. Foi a historia que eu sempre falei. Umas quatro horas antes do jogo (final). Depois fomos tomar um café – mas antes do café, na preparação, ele teve esse problema. Eu e o César Sampaio fomos os primeiros a entrar no quarto – estávamos no quarto vizinho, à direita. O doutor chegou e ele foi para o hospital. Logo em seguida, teve a preleção. Ele chegou (ao estádio) já no aquecimento, já tínhamos ate assinado a súmula com o Edmundo de titular. Eu me lembro como se fosse hoje, ele falando: “não deu nada nos exames”. Não deu nada nos exames, ele tinha que jogar mesmo. Aí como aconteceu isso (a derrota), o Brasil favorito, depois do jogo contra o Holanda, com o Taffarel muito bem… O Brasil não foi bem no jogo (contra a França), não estava em um momento bom. Sempre vou dizer isso: (a derrota) não foi por causa disso (problema de Ronaldo). A adrenalina estava a milhão. O Brasil não estava em uma tarde feliz, jogou mal.

Última Divisão – Depois da Copa do Mundo, a presença na Seleção te deixou mais visado no retorno ao Brasil? Você se sentiu mais cobrado?

Zé Carlos – É normal, quando você é convocado, você ser mais cobrado, porque você tem algo a oferecer. Você não tem como ser cobrado se não tem nada a oferecer. Às vezes, até um treinador, quando ganha um título e vai para outro clube. Isso é normal, nós sabemos disso. Tem que se dedicar cada vez mais, se empenhar.

Última Divisão – Depois daquela Copa do Mundo, você chegou a ter proposta do exterior para deixar o São Paulo?

Zé Carlos – Eu tive uma que eu soube depois de dois meses, que era ir para o Japão. Mas não chegou até mim. Foi um comentário dentro do São Paulo. Acabei não indo. Depois, no outro ano, me transferi para o Grêmio.

Última Divisão – Antes de chegar ao São Paulo, você atuava pela Matonense. O clube passou por maus bocados nos últimos anos, mas subiu para a Série A2 neste ano. Você tem acompanhado o time? Tem alguma relação por lá ainda hoje?

Zé Carlos – Não tenho. Uns tempos atrás, há uns três anos, fui cogitado com o Palhinha para ser treinador lá. Mas acompanho. A gente lamenta. Quando atuava lá, a Matonense subiu três anos consecutivos (1995, 1996 e 1997, chegando à Série A1 do Campeonato Paulista em 1998). Hoje, não há mais o patrocínio. Tudo aquilo conquistado vai tudo por água abaixo. O futebol brasileiro é assim. É uma inconsequência.

Crédito: Pref. de Nova Mutum

Terra – Você chegou a tocar projetos sociais após a carreira, e hoje ocupa o cargo de secretário de esportes em Nova Mutum (MT). Como tem sido essa nova etapa?

Zé Carlos – É legal. O bom é que, onde eu estou aqui, tive a felicidade de haver pessoas sérias na política. Hoje, politicamente, o Brasil está em uma situação difícil. Joguei em 12, 13 clubes, e nunca tive problema nenhum. Tracei para mim um propósito e não abro mão do meu caráter. Não abro mão, vem de família. Quando você entra no meio politico, é aquela incógnita. Tive a felicidade de ter o prefeito Adriano (Pivetta, PDT), sério, de caráter. Quando você tem pessoas assim… Fico muito feliz com esse mandato.

Última Divisão – Nova Mutum está próxima de Cuiabá, a 250 km. Como a cidade se beneficia dos jogos da Copa do Mundo na capital?

Zé Carlos – O futebol aqui (no Mato Grosso) está mais distante da realidade. Está aquém de São Paulo, do Rio, de Goiás. É claro que é uma oportunidade a Copa do Mundo aqui, para o povo se mexer. O futebol aqui é mais competitivo a nível local. Eu vejo que há uma dificuldade, um nível técnico baixo. Você vê que Lucas do Rio Verde já está lá na frente. Mas é pouco ainda pela dimensão do estado do Mato Grosso, um estado gigante na produção de soja. O futebol é minha área, mas em outras área, (o Mato Grosso) é um colosso.

Última Divisão – Você citou Lucas do Rio Verde, e, em 2014, o Mato Grosso vive um bom momento no futebol nacional – o Luverdense briga pelo G-4 na Série B, enquanto o Cuiabá é um dos primeiros colocados no seu grupo da Série C. Como você tem visto este momento? A que você credita essa situação?

Zé Carlos – Acho que é um momento de equilíbrio. O Brasil é um destaque na Copa do Mundo pelo fator casa. Mas o jogador brasileiro tem que mudar sua conduta – não tem mais como falar que não marca. Todos têm que fazer sua função. Antes, o Brasil jogava com uma seleção pequena e o resultado estava escrito. Ganhava de três, quatro, cinco (gols). Hoje, tem dificuldade. Não tem mais espaço para se jogar futebol. O futebol no mundo está se igualando muito – isso na parte tática, que o jogador tem que cumprir, porque na parte técnica, ele tem sobrando. Quando acontece isso, acontece que nem a final (da Copa das Confederações de 2013) contra a Espanha.

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