Vital Battaglia lança livro e recorda grandes coberturas; leia trecho

Copa de 1982 na Espanha. Vital e Telê Santana
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São diversas histórias vividas dentro de mais cinco décadas de cobertura esportiva. Vital Battaglia é considerado um dos maiores profissionais deste segmento. Vencedor de inúmeros prêmios, o jornalista participou da fundação veículos díspares como o Jornal da Tarde e o Notícias Populares. Foi comentarista de rádio, televisão e assessorou Paulo Roberto Falcão quando este foi técnico da Seleção Brasileira. Parte importante dessas vivências nos bastidores do meio esportivo estão reunidas em Ah! Atestado de Óbito do Jornal da Tarde e outras histórias do jornalismo, publicado pela Detalhe Editorial em 2012.

Aos 72 anos, Battaglia recebeu a reportagem de Última Divisão em sua casa no bairro do Morumbi, em São Paulo.

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Capa do livro do jornalista Vital Battaglia
Capa do livro do jornalista Vital Battaglia

Última Divisão: Como surgiu a ideia do senhor fazer esse livro?

Vital Battaglia: É a história do Jornal da Tarde. Nesse veículo, nós tínhamos um companheiro fantástico chamado Marcos Faerman. Ele chegou a cobrir inclusive a parte alternativa. Nós éramos quatro repórteres especiais do Jornal da Tarde: Marcos, Fernando Portela, eu e o Valter Sanches. Nós trabalhávamos muito juntos em reportagens especiais. A pedido do Marcos eu fui selecionando algumas reportagens que eu tinha feito, a história de algumas matérias. Infelizmente, o Marcos morreu. Mesmo assim, eu peguei e acabei publicando o livro no dia em que fecharam o Jornal da Tarde. A capa da última edição me trouxe grande indignação. A manchete do jornal foi: “Obrigado São Paulo”. Deveria ser: “Desculpe São Paulo. Tudo que eu fiz de mal pra você fechando esse jornal”. As histórias estavam todas no computador. Nisso, eu chamei um amigo pra fazer uma revisão e em dois meses nós publicamos o livro.

UD: O livro não é organizado nas ordem dos acontecimentos da carreira do senhor.

VB: É uma desordem. Esse é um livro mais pra quem gosta do jornalismo, pra quem faz jornalismo.Vai ajudar as pessoas entenderem como começaram algumas reportagens. Coisas que aconteciam de última hora podem gerar matérias magníficas. Um exemplo é que num dia em que nada estava programado o Ruy Mesquita me pediu pra ir fazer uma matéria com o Carlos Lacerda (ex-governador do Rio de Janeiro). Eu encontrei com ele no hotel Jaraguá e acabei pegando uma carona com o Lacerda até Petrópolis. Esse era o Jornal da Tarde. Era um veículo inventivo, criativo. Ali era uma escola de jornalismo. A verdade é que o JT representou um movimento literário dentro do jornalismo brasileiro.

Anos 1960. Vital Battaglia é o jornalista á direita do Rei Pelé
Anos 1960. Vital Battaglia é o jornalista á direita do Rei Pelé

UD: Uma das coberturas mais famosas do senhor no JT foi o casamento do Pelé. Como foi isso?

VB: Foi em 1966. O Pelé não casou na igreja porque ele já tinha aquele problema. Sabiam que a mulher podia aparecer com a filha. Se fosse em igreja, lugar público ela ia entrar com a criança e ia dar o maior rebu da história. Nós sabíamos que o Pelé estava na casa da Rose (primeira esposa do Rei) no Macuco (bairro de Santos). Nisso, eu e outros companheiros do Jornal da Tarde ficamos na porta. Até uma hora em que o Negão não aguentou mais. Ele chegou e falou com a gente: “Pô, vocês vão me deixar em paz?”. Eu falei: “Pelé, eu preciso cinco minutos de você. Pra Rose sair aí, a gente fazer uma foto de vocês e vamos embora. Agora, se você der um soco na minha cara eu vou desmaiar, vai ter que chamar ambulância, bombeiro. Vai ser pior”. Nisso, acabamos conseguindo fazer a matéria que ficou muito famosa. Ganhou prêmio inclusive.

UD: O senhor foi assessor de imprensa da Seleção Brasileira entre 1990 e 1991. Como foi essa experiência?

VB: Quem me convidou pra desempenhar essa função foi o próprio Falcão (então técnico da Seleção). Eu estava desempregado e precisava de trabalho. Na realidade, foi uma tentativa nossa de resolver a inimizade crônica entre os jornalistas e a Seleção. Acredito que eu tenha feito um bom trabalho. 

Copa de 1982 na Espanha. Vital e Telê Santana
Copa de 1982 na Espanha. Vital e Telê Santana

UD: De certa forma, pode-se dizer que essa experiência acabou prejudicando o senhor no meio?

VB: Sem dúvida. A gente não faz amigos nesse meio. Teve uma pessoa do meio que me ajudou muito e paramos de nos falar desde que eu tive essa experiência profissional na CBF.

UD: O senhor trabalhou com jornalistas de várias gerações. Na sua opinião, quem são os melhores profissionais na imprensa escrita?

VB: Muito difícil você destacar assim. Cada pessoa tem uma característica própria. Uma pessoa que falam muito pouco e eu acho fantástico é o Marco Antônio Rodrigues que está na Globo. Acredito que ele tenha uma visão para analisar coisas do futebol que a gente fica bobo de ver. O João Saldanha era uma figura maravilhosa, um contador de histórias fantástico. O De Vaney (Adriano Neiva da Motta e Silva, jornalista carioca radicado em Santos) pelo critério em pegar as coisas. Uma pessoa que me ajudou muito foi o Álvaro Paes Leme, pai do Alvinho. Ele foi meu editor no Última Hora, foi um chefe fantástico. Ele dava liberdade pra você trabalhar. Foi o camarada que me obrigou a estudar futebol e os outros esportes. Ele falou: “Você quer comentar boxe? Vai fazer curso de jurado. Quer comentar basquete? Vai fazer curso de juiz de basquete. Quer comentar futebol? Vai fazer curso de árbitro de futebol”. Graças a ele que eu fiz tudo isso pra poder falar um pouco de coisas que uma coisa é dentro de campo.

UD: E de rádio?

VB: Eu trabalhei com muita gente boa. Mas nunca vi nada parecido com o Osmar Santos. Ele parecia que tinha entrado num transe e conseguia passar isso pro grande público. Era algo incrível.

UD: Dessa geração atual de jornalistas, quem o senhor admira?

VB: Isso é uma coisa que eu não comento. Agora, o que eu condeno é a ordem, o comando desse jornalismo feito na atualidade. Eu não vejo mais reportagens, aquelas matérias de fôlego. Mas eu respeito o PVC (o comentarista Paulo Vinícius Coelho). Acho ele fantástico, um profissional brilhante.

UD: O que o senhor espera com esse livro?

VB: Nada. Eu quero mandar uma mensagem. Quem captar eu agradeço de todo coração. É o que eu posso e tenho pra dar.



EXCLUSIVO >> Trecho do livro Ah! Atestado de Óbito do Jornal da Tarde e outras histórias do jornalismo, de Vital Battaglia, publicado pela Detalhe Editora (2012).

Carteado  

Athiê Joge Coury foi goleiro do Santos, depois corretor de café na Rua XV, presidente do clube e deputado federal. Athiê era o Santos. Usava os jogadores para fazer sua campanha política e não conseguia assistir aos grandes clássicos da tribuna. Ficava no vestiário. Sofria de dessaranjos intestinais e tinha que ter um banheiro por perto.

Quando os militares assumiram o poder, Athiê soube pelas suas fontes em Brasília que o jogo seria liberado em nosso país. E, mais do que depressa, tratou de negociar a compra do Parque Balneário, da família Fracarolli, que não estava bem das pernas.

O Parque Balneário Hotel continuava suntuoso, como marca do que o jogo chegou a representar. E, com a proibição dos cassinos, a queda de faturamento foi uma consequência natural. Assim como aconteceu com o da Urca e com outras cidades que viviam basicamente do jogo.

Seria uma grande aventura, um clube de futebol bancando o jogo, mas se queriam manter Pelé e companhia era preciso buscar outras fontes de rendas. Naquele tempo, clubes espanhóis e italianos já haviam acenado com a fantástica soma de um milhão de dólares pelo passe de Pelé.

A realidade é que o tempo foi passando e nada do Congresso (ou o que restava dele) aprovar a volta do jogo. E, assim sendo, o Santos começou a atrasar as prestações da compra do Parque Balneário.

A família Fracarolli tinha dívidas com um banco em outras atividades e, através de um dos dirigentes do Santos, Carlos Caldeira Filho, o banco aceitou saldar a dívida dos Fracarolli pelas dívidas do Parque Balneário.

A garantia que Carlos Caldeira Filho pediu para o seu clube, o grande Santos, foi registrado em cartório.

Era o passe de Pelé

Esse foi um dos motivos por que a Lei Pelé extinguiu o direito que os clubes tinham sobre os passes dos jogadores.

Como diria Pelé:

– Entendeu?

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