Villa Nova, o primeiro campeão brasileiro da Série B, entre a vida e a morte

Reprodução/Facebook Villa Nova AC
1.717

Por Nathan Sacchetto Madureira

Os anos recentes do Villa Nova Atlético Clube, clube de Nova Lima (MG), vêm sendo traiçoeiro em várias esferas da instituição e de uma forma bastante frustrante aos seus torcedores, simpatizantes e parcela da população de sua cidade.

Publicidade

Recentemente rebaixado para o Módulo II do Campeonato Mineiro, o clube vem beirando o precipício. Sem qualquer centavo em sua conta e com uma série de pendências, como dívidas trabalhistas, um dos clubes mais tradicionais de Minas e do Brasil corre sérios riscos de fechar as portas no ano de 2021.

 

A consequência das más gestões

Um dos principais fatores para a brusca queda do Leão do Bonfim foi como as gestões recentes deixaram feridas árduas para o clube, algo refletido nos resultados em campo. A diretoria e seus mandatários acumularam uma série de dívidas na Justiça do Trabalho com seus atletas, comissões técnicas e os funcionários da instituição, além de se envolver em muitas polêmicas no STJD.

Desde 2015, o Villa Nova sofre com más campanhas. Além do rebaixamento no Mineiro, a (falta de) ação de seus executivos já levou a equipe a parar no STJD em dois cenários: por escalação irregular, que culminou na perda de pontos na Série D de 2014; e outro quase resultou em um rebaixamento nos tribunais pelo Estadual.

Os prejuízos com as más gestões já vêm desde antes da virada da década de 2010. O clube já teve patrimônios, como um clube social na cidade e que acabou sendo tomado por conta dos débitos do clube, além de troféus penhorados. Tudo isso no período que o clube iria celebrar seu centenário.

 

A iminente queda no Estadual

Entre 2017 e 2020, a instituição foi gerida pelo advogado Dr. Márcio Botelho, indicado e apoiado pela prefeitura de Nova Lima que resultou em sua reeleição para o biênio 2019/2020. Este período da diretoria  foi justamente o mesmo no qual viveu seus piores anos até o recente descenso.

Os executivos se envolveram em uma série de episódios onde enfrentaram a Federação Mineira de Futebol sobre questões como mando de campo, “tapetão” e regulamento.

Em 2018, a mesma diretoria protagonizou uma “rebelião” no formato de disputa do Campeonato Mineiro de 2018 e 2019, em que pedia o retorno de 8 classificados entre 12 clubes para uma fase mata-mata (quartas, semi e final). Houve uma forte união das equipes do interior, que aprovaram a mudança em arbitral e, mesmo nestas edições com a ideia vigente, a equipe quase caiu e não se classificou para as quartas de final. O regulamento foi alterado em 2020 e voltou ao formato de 4 classificados.

Vale ressaltar que em 2019, o rebaixamento quase veio com a denúncia de escalação de jogador irregular apresentada pelo Guarani de Divinópolis. A equipe foi condenada em 1ª Instância pelo TJD/MG com a perda de pontos, mas foi absolvida pelo STJD no Rio de Janeiro por conta do período que a contestação foi feita.

Depois de tantas batalhas sofridas, viria o “juízo final”: o ano de 2020 foi a pior campanha da história do Leão em sua história, com somente 1 vitória em 11 rodadas do Campeonato Mineiro. Assim, a equipe caiu para o Módulo II (a segunda divisão estadual), sendo o segundo rebaixamento da sua história (já havia caído em 1994 e retornou sendo campeão da segunda divisão em 1995).

A queda veio na última rodada contra o Coimbra de Contagem: somente a vitória salvava os alvirrubros, que acabaram perdendo por 2×1 mesmo com uma vasta reformulação de elenco e comissão técnica por conta da pandemia.

“A pior campanha em 112 anos de história jogou o Villa Nova no Módulo II do Campeonato Mineiro. Não vamos nos esquecer dos culpados.”

– Wagner Augusto, Historiador e Atual Presidente do Conselho do Villa Nova, em texto para o Futebol Interior

Antes do descenso, o Leão aceitou uma vaga para voltar a disputar a Série D do Brasileiro após quatro anos fora do cenário nacional. A vaga veio após a desistência da Patrocinense, que passava por dificuldades financeiras. Isso logo após a prefeitura negar recursos visto o cenário de campanha eleitoral que aconteceria na cidade de Patrocínio.

A disputa resultou em mais um agravamento das finanças do Villa Nova, com investimentos em jogadores como Maicon (ex-seleção brasileira), além da troca da comissão técnica que culminou na vinda do ex-lateral e meia Mancini como treinador e o ex-lateral Ceará como Diretor de Futebol. Resultado: a equipe fez uma das piores campanhas da quarta divisão nacional.

118953328 2919540061483585 8007122850381253795 o
Maicon, ex-seleção brasileira, jogou no Villa em 2020 (Reprodução/Facebook Villa Nova AC)

 

O Cenário para 2021: Dias contados!?

A questão financeira do Villa Nova nos últimos tempos só sobreviveu por conta da subvenção que é concedida pela Prefeitura Municipal de Nova Lima, esse auxílio anual foi aprovado por lei no início da década e vem tendo aumentos progressivos ao decorrer do tempo. A verba é aprovada juntamente com a Lei Orçamentária Anual do Município antes de cada virada do ano e estava previsto um orçamento de 2,5 milhões para 2021.

Entretanto, para a surpresa de muitos, o prefeito de Nova Lima, João Marcelo (Cidadania), ex-presidente do Conselho Deliberativo, anunciou que não tem condições plenas de repassar a verba aprovada ao Leão do Bonfim. O mesmo alegou em nota alguns fatores legais que impedem o recebimento da principal fonte de sustento e sobrevivência da instituição:

1. O Villa Nova não apresenta as certidões necessárias para receber os recursos;
2. Há pendências de prestação de contas dos anos anteriores;
3. Haveria desvio de finalidade no repasse da subvenção, visto que parte relevante dos recursos seria retida pela justiça para o pagamento de dívidas do clube;
4. Há inquérito civil público em curso no Ministério Público para averiguar a legalidade dos repasses feitos nessas circunstâncias.

– Trecho da Nota Oficial da Prefeitura de Nova Lima/MG

Os motivos apresentados já existiam nos repasses dos anos anteriores, e mesmo assim eram sancionados e concedidos pelas antigas gestões, mesmo sem as certidões. Além disso, segundo a mesa-diretora do conselho deliberativo, uma das prestações de contas que não foram apresentadas foi justamente durante o mandato do atual prefeito na presidência do órgão.

Com o corte feito pelo poder municipal, os mandatários do clube da Terra do Ouro alegaram em notas oficiais que o Villa Nova caminha a passos largos para o encerramento de suas atividades, visto a dificuldade de arrumar investidores à altura do valor que era destinado pelo município, além do vasto acúmulo de dívidas com ex-atletas do time, ex-treinadores e funcionários que estão há bastante tempo de serviço na instituição.

“Com imenso pesar e dor no coração, pode-se dizer que o nosso maior amor está com os dias contados”

– Bruno Sarti, presidente atual do Villa Nova, em nota oficial da diretoria

 

A Tradição alvirrubra sujeita a ficar somente na memória!?

O Villa Nova é um dos clubes mais tradicionais de Minas Gerais. Fundado em 1908 por operários ingleses de uma mina, é o segundo clube mais antigo do estado e o primeiro a entrar nos gramados. É o maior campeão mineiro entre as equipes do interior, com 5 conquistas, sendo um tetracampeonato seguido entre 1932 e 1935 e o título de 1951 — em uma edição que ficou conhecida como “Supercampeonato“. Fora isso, ainda conta com 2 conquistas da extinta Taça Minas Gerais, em 1977 e 2006 (ano da última taça da equipe).

A maior conquista da história do Villa foi em 1971, ano de realização do primeiro Campeonato Brasileiro da Série B. A equipe composta por jogadores como Piorra, Zé Borges, Paulinho Cai-Cai e Eduardo Perrella passou por cima de Central do Rio, Ponte Preta e Clube do Remo para conquistar o troféu de maior expressão da história do clube do Bonfim em duelos de peso, sendo assim o primeiro clube a conquistar o Campeonato Brasileiro da Segunda Divisão. Somente Villa Nova e Uberlândia levantaram a Série B no interior mineiro.

A equipe foi, junto ao Cruzeiro, um dos protagonistas da final do Campeonato Mineiro 1997, três anos após o primeiro rebaixamento do Estadual. Uma finalíssima marcada por ser o maior recorde de público da história do Estádio Mineirão. Com 132.834 presentes na partida de volta, o Leão saiu com o vice-campeonato após derrota de 1 a 0 para o clube celeste, mas na memória dos Villa-novenses está viva a memória pelo clima e encanto no clube naquela campanha.

Diante de tudo isso, toda essa história de tradição corre o risco de ficar somente na memória dos torcedores e fãs do futebol. Em 2021 era esperada uma severa reconstrução e pode acabar com o enterro de toda uma história interrupta de 112 anos.

O Villa Nova terá quatro meses até o começo do Campeonato Mineiro Módulo II para decidir seu futuro. Até lá, o Leão de grandes gerações, de Pirulito, Piorra, Milton Tanque, Canhoto, Escurinho, Mancini e Fábio Jr. está em busca de um milagre e um respiro para mostrar se irá entrar realmente em campo outra vez para escrever mais um capítulo de sua tradição. Só o tempo dirá o que será deste tempo de tanto sofrimento.

Comentários