Um Petkovic de outros tempos

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Independetemente da conquista do título, o Flamengo já conseguiu uma arrancada histórica no Campeonato Brasileiro de 2009. O time lidera o 2º turno e já alcançou a vice-liderança da competição. Tudo isso teve uma contribuição importante de Adriano, mas também de Dejan Petkovic. O meia sérvio de 37 anos contribuiu diretamente com essa boa campanha e ainda conseguiu um feito individual histórico: tornou-se o terceiro estrangeiro com mais gols na história do Rubro-Negro.

Ao anotar seu 48º tento pelo time, Pet superou Sidney Pullen, o inglês que começou a romper as barreiras de um estrangeiro no futebol brasileiro. Ele chegou a jogar pela Seleção Brasileira no começo do século XX, sendo um dos poucos gringos que já vestiram a amarelinha, e ainda conquistou inesquecíveis títulos no time carioca.

Tudo isso faz parte de uma história que começou com Hugh Pullen, o pai de Sidney, que foi transferido pela empresa em que trabalhava. Ele foi forçado a vir ao Brasil e trouxe a família junto com ele, quando o futebol por aqui ainda era totalmente amador, é claro, mas já estava presente no cotidiano dos brasileiros.

Com isso, Sidney, um jovem de apenas 17 anos, não demorou a entrar no clima do país e começar a sua carreira como jogador de futebol. Seu primeiro clube foi o Paysandu e um título não demorou a vir: foi campeão estadual já em 1912. O talento dele chamou a atenção do Flamengo, ele mudou de time, mas um obstáculo não demorou a surgir em seu caminho.

Sidney Pullen
Sidney Pullen


Era a época da I Guerra Mundial. A Tríplice Entente já enfrentava a Tríplice Aliança quando Sindney entendeu que, por dever cívico, deveria participar do conflito e enfrentar os Impérios Alemão, Austro-Húngaro e Turco-Otomano. Ele foi para as batalhas na Europa, defendeu a Inglaterra, sobreviveu e voltou para então encarar outras batalhas, dessa vez com a camisa rubro-negra.

No Flamengo, viveu histórias de consagração e glória, como quando foi campeão estadual cinco vezes. Ao todo ele colecionou 116 jogos, chegou a ser capitão do time, atuou em diversas posições e ostenta um currículo poderoso. Tudo isso conquistado com a sua habilidosa perna esquerda ao longo de mais de quase dez anos.

Flamengo
Da esquerda à direita, em pé, Sidney Pullen é o penúltimo jogador do Flamengo

Sidney também viveu momentos curiosos no time. Em 1916, a fase do Fluminense não era boa e um Fla-Flu poderia definir o rebaixamento do tricolor. O placar estava 3 a 2 para o Rubro-Negro, o que decretaria a queda do Flu. Só que um pênalti foi marcado a favor do Flamengo. Primeiramente Riemer desperdiçou a cobrança, mas outra irregularidade foi marcada dentro da área logo depois. Pullen foi o batedor dessa vez, errou e o juiz mandou voltar o chute. E a cena foi semelhante: o goleiro Marcos de Mendonça agarrou a bola em outra tentativa do inglês.

Mesmo a ótima atuação do arqueiro não impediu que a torcida tricolor se revoltasse com a situação. Aconteceu uma invasão de campo, a confusão foi enorme e a partida foi anulada pela Justiça. Na partida extra, sem enfrentar Sidney Pullen em campo, o time das Laranjeiras conseguiu mudar o placar, venceu por 3 a 1 e se livrou do rebaixamento no campeonato estadual.

Com tantas histórias e taças acumuladas no Rio de Janeiro, foi a vez de Sidney também conquistar seu espaço na Seleção Brasileira. Jogando no meio-campo, mais recuado que o normal, ele participou de apenas cinco jogos, mas foi o suficiente para acumular outra história curiosa: no I Campeonato Sul-Americano, que aconteceu em 1916, em Buenos Aires, a partida entre Argentina e Chile quase não foi realizada por causa da ausência de um árbitro. Até que Pullen foi aceito como juiz do jogo, a bola rolou normalmente e o placar ainda terminou 6 a 1 para a seleção local.

Sidney jogou futebol até 1925 e não abandonou os esportes durante a aposentadoria. Era comum vê-lo no Fluminense, principalmente nas quadras de tênis, onde costumava aproveitar seu tempo livre até a década de 50, quando faleceu. Ele deixou uma história de gols e dedicação a uma nova pátria. Mas, acima de tudo isso, abriu as portas para que outros estrangeiros brilhassem no Flamengo. Petkovic e os rubro-negros devem agradecer.

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