Um jogo (irregular) e um gol: um jornalista brasileiro na 9ª divisão da Áustria

(Imagem: Schwoaze/Pixabay)
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Luis Fernando Ramos, o Ico, é jornalista dos bons e mora em Viena (Áustria). A pedido do Última Divisão, topou publicar por aqui este relato. O jogo rolou em junho de 2000.

Quem nunca sonhou em marcar um gol como jogador de futebol numa liga oficial? Ontem*, mexendo em caixas antigas, lembrei do dia em que pude realizar este sonho. Tudo começou com um convite do incrível Martin Lang, que joga tão bem quanto é um grande ser humano.

Acho que sua motivação residia apenas no fato de eu ser brasileiro, como se ganhássemos uma habilidade especial ao nascer. Mal sabia ele que meu currículo se resumia a escassas peladas de futebol society e muito bate-bola em fundo de prédio.

Em todo caso, fui lá representar o glorioso FC Direkt 89149 na terceira classe do futebol regional de Viena. Para entender: Na Áustria, depois da primeira e da segunda divisões nacionais, têm as ligas regionais, depois as ligas municipais. Daí vem a primeira classe A, a B, a segunda classe A, a B, e só então vem a terceira classe. Tipo a nona divisão.

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Mas ainda assim era preciso um registro na federação. Martin me tranquilizou: “Fica tranquilo, você será o nosso chileno”. Nos cafundós do ludopédio na terra de Mozart, nosso time tinha uma carteirinha de um antigo jogador à disposição. Tudo o que eu tinha que fazer era acenar ao juiz quando ele lesse o nome “Angel Rodrigo Sarmiento” antes do jogo. O dito-cujo era ainda cinco anos mais velho do que eu. Sim, além de não jogar nada, eu era gato.

A partida foi um tanto unilateral – nosso time era muito superior e logo fomos acumulando gols. Eu, sem muita habilidade e nenhum fôlego, saí logo do ataque e fiquei preso de volante no meio-campo. Pelo menos roubar algumas bolas eu conseguia.

O placar era tão elástico que me lancei à frente num contra-ataque nosso. Nosso goleador tinha a bola e bateu forte ao gol, o guarda-metas rebateu e a bola sobrou para mim embaixo das traves. Só empurrei para as redes. Dos dez gols do jogo, deve ter sido o mais fácil. Certamente não foi o mais bonito. Tomei até uma rasteira do zagueirão acima do peso que chegou alguns segundos atrasado.

Não liguei. Levantei, sacodi a poeira e voltei para o meio do campo festejado pelos colegas. Na semana seguinte, comprei orgulhoso o semanário esportivo de Viena que trazia todos os resultados do final de semana. Estava lá o meu nome. Quer dizer, o do Sarmiento. Um gol. Só faltavam mais 999.

Foi um grande momento.

Imagem: Acervo pessoal

* O texto é de 9 de abril de 2020

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