Um falso craque chamado Saadi

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O que você faria se fosse filho de um ditador africano, tivesse muito dinheiro e não precisasse se preocupar em arranjar um emprego durante toda sua vida? Talvez fizesse o que fez Al-Saadi Qhadafi, que investiu na carreira de jogador de futebol e chegou a atuar na primeira divisão italiana.

Al-Saadi Qhadafi é o terceiro filho de Muammar Qhadafi, ditador que comandou a Líbia de 1979 até 2011, quando foi morto. Desde muito jovem, Saadi demonstrava que sua intenção era deixar de lado os negócios do pai para se dedicar aos gramados. Para tal, ainda jovem, contratou o ex-velocista canadense Ben Johnson para ser seu preparador físico particular.

Os poucos dados biográficos dele disponíveis dão conta de que Saadi estreou no futebol em 2000, aos 27 anos, pelo Al-Ahly de Trípoli (então campeão nacional). Já no ano seguinte, porém, “assinou” pelo Al Ittihad (do qual era presidente e capitão), onde ficou um ano antes de retornar ao Al-Ahly. Neste período, encerrado em 2003, comandou o comitê olímpico local, a Federação Líbia de Futebol e capitaneou a seleção de seu país, eliminada na campanha por uma vaga à Copa do Mundo de 2002.

O nome de Qhadafi só apareceu na imprensa esportiva mundial em 2003, quando seu nome foi especulado no modesto Birkirkara FC. O clube de Malta, que também havia sido campeão nacional, iria disputar a Uefa Champions League da temporada 2003/2004, e o nome do líbio foi dado como certo pelo time maltês. Por motivos desconhecidos, porém, o negócio não saiu.

Quando a notícia parecia encerrada, eis que aparece um novo personagem na história: Luciano Gaucci, o exótico presidente do Perugia. Especialista em atrair a atenção da imprensa para seu clube, Gaucci decidiu contratar Saadi, pagando o valor “simbólico” de 300 mil euros por um acordo de duas temporadas. Em sua apresentação, em 29 de julho daquele ano, o líbio teve a esperada recepção de um astro, incluindo aí o aluguel de um castelo do século XIII e a contratação de fãs para o evento.

No Perugia, a despeito dos guarda-costas que o acompanhavam aos treinamentos e da Lamborghini que utilizava para ir ao clube, Saadi pouco brilhou. Durante a pré-temporada do time, o camisa 19 chegou a marcar dois gols na vitória por 12 a 0 sobre o Bassano Virtus, um clube semiamador da região do Vêneto que atuou com ordens para respeitar o convidado. Passada sua “estreia”, o jogador chegou a participar de treinos e a ser relacionado algumas vezes, mas não entrou mais em campo. Pior: foi pego em um exame antidoping no dia 5 de outubro daquele ano, flagrado com a substância nandrolona.

Del Piero marcando Saadi (Reuters)

O Perugia até acreditou na versão de que Saadi Qhadafi realizava um tratamento médico na Alemanha, com um remédio para dor nas costas que deixou rastros de norandrosterona (um derivado da nandrolona) em seu sangue. O retorno aconteceu ainda naquela temporada, quando atuou alguns minutos em sua única partida – curiosamente, frente à Juventus, da qual já era acionista desde 2003. Não evitou (e nem poderia) que o Perugia fosse para o playoff de rebaixamento, no qual perdeu a vaga na Serie A para a Fiorentina.

Na temporada seguinte, pela Serie B, Saadi nem sequer atuou, mas não deixou de aparecer no noticiário. Em março de 2005, poucos meses antes do fim de seu contrato, o camisa 19 foi visto em um encontro com a atriz Nicole Kidman. O flerte não deu certo, e o líbio de fato deixou o clube os Griffoni pouco tempo depois.

Para a temporada 2005/2006, Saadi usou sua influência para conseguir uma vaga na Udinese. De quebra, no clube de Údine, o agora camisa 11 atuou nos minutos finais da última partida da temporada – uma derrota fora de casa por 2 a 1 para o Treviso. Passado seu novo fracasso, o meia-atacante que queria ser Ronaldo (segundo suas palavras) ficou mais uma vez sem clube.

Seis meses depois, já no decorrer da temporada 2006/2007, o filho de Muammar Qhadafi conseguiu seu último emprego no calcio – agora, na Sampdoria. Mais uma vez não jogou, e encerrou sua carreira como jogador em junho de 2007.

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