Um abraço, Rivaldo: a abalada relação de Mogi Mirim com seu camisa 10

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Falar da passagem brilhante de Rivaldo por Barcelona, Palmeiras e Seleção Brasileira é muito fácil – há textos e textos por aí que você pode ler para entender como ele foi genial. Mas e para falar da importância do meia para o Mogi Mirim? Como explicar da influência do meia no time paulista, tanto na década de 90 quanto nos últimos anos?

Pedi então para que Danilo Vital explicasse a nós – vocês e eu. Conheci Danilo quando nós dois ainda estávamos na faculdade, e nunca escondi minha admiração a ele como colega de jornalismo e como amigo. Por isso, não tive dúvidas: na hora em que Rivaldo anunciou sua aposentadoria neste sábado, aos 41 anos, pedi para Danilo explicar o tamanho de tal fato em Mogi Mirim. Afinal, além de talentoso, Danilo nasceu e cresceu em Mogi Mirim, e começou a ir aos estádios justamente quando Rivaldo – então recém-chegado do Santa Cruz – começava a se destacar no futebol paulista.

Leia abaixo:

O Mogi Mirim de 1993, chamado de “Carrossel Caipira”; Rivaldo é o quinto em pé, da esquerda para a direita (Crédito: Rivaldo/site oficial)

Um abraço, Rivaldo: a abalada relação de Mogi Mirim com seu camisa 10

Por DANILO VITAL
No Twitter: @danilovital

Eu tinha quatro anos de idade no primeiro semestre de 1993 e começava a frequentar o estádio com meu pai. Na época, o Estádio Romildão, em Mogi Mirim, se chamava Estádio Wilson Fernandes de Barros, nome do presidente do clube que havia trazido do nordeste, por conta de sua política de contratações, atletas talentosos que criariam o Carrossel Caipira no Campeonato Paulista. Rivaldo, que se aposentou no sábado, aos 41 anos, era o principal nome.

As idas aos jogos do Mogi estão entre as primeiras lembranças que tenho, o que na minha cabeça era basicamente sentar, comer o amendoim e esperar pacientemente o gol para correr arquibancada acima e esmurrar as placas de aço que circundam o estádio. Esse era o grande lance. E, caramba, quantas placas eu devo ter esmurrado com os gols do Rivaldo…

O meia foi o primeiro ídolo que tive no esporte, e pelas décadas seguintes, enquanto Rivaldo brilhava pelo mundo, o mogimiriano em geral nutria um orgulho especial pelo fato da história desse grande jogador ter começado ali, no interior de São Paulo. Para o resto das pessoas, aposentou-se um craque. Mas a relação do mogimiriano com Rivaldo vai além disso. É diferente. É exigente. É quase sentimental, e isso talvez explique a situação conturbada em que se encontra atualmente.

Rivaldo em grande medida salvou o Mogi Mirim quando assumiu o comando do clube em 2008. No mesmo ano, havia morrido Wilson Fernandes de Barros, e o futuro era bem incerto. Na época, o meia jogava no Bunyodkor, do Uzbequistão, então seu empresário Wilson Bonetti ficou interinamente no cargo. No final de 2010, anunciou o retorno: jogaria pelo clube depois de 18 anos. Finalmente!

Rivaldo vendeu carnê de ingressos para os jogos do Campeonato Paulista de 2011 com seu rosto estampado e a mensagem “eu voltei, agora é a sua vez”. Mas, de repente, decidiu jogar pelo São Paulo, onde foi reserva. E depois foi para a Angola defender o Kabuscorp. E depois foi rebaixado no Paulista de 2013 com o São Caetano – a primeira queda da carreira. E só então, em 2014, voltou a jogar no Mogi Mirim.

Grécia, Uzbequistão, Angola, São Paulo, São Caetano… Demorou até que Rivaldo voltasse ao Mogi Mirim (Crédito: Futura Press)

Outros dois episódios ajudaram a azedar relação de Rivaldo com o torcedor. Primeiro, a troca do nome do estádio para Romildo Vitor Ferreira, pai do jogador. Depois, algo extracampo. Rivaldo investiu na construção de duas torres residenciais no centro da cidade, e obteve permissão da Prefeitura para isso, apesar de ferir o plano diretor do município. A obra fica ao lado da Igreja Nossa Senhora do Carmo, construída por escravos há quase 200 anos e tombada como patrimônio histórico. Após chuvas, a igreja praticamente rachou. Um educandário que atendia 120 crianças, ao lado, também foi interditado.

Choveram críticas sobre o meia, e uma passeata chegou a ser organizada. Envolveram até o fato de ele ser evangélico. Em entrevistas, o jogador nunca escondeu a chateação com o fato. O que ele gostaria que todos entendessem – algo totalmente justo – é que Rivaldo colocou Mogi Mirim no mapa. Hoje a cidade é conhecida porque surgiu ali um pentacampeão mundial, eleito o melhor jogador do mundo em 1999. E ele gosta da cidade. Sua família sempre morou ali.

Então, aos 41 anos de idade, Rivaldo anuncia a aposentadoria dias depois de disparar críticas contra a torcida e sua presença ínfima nos jogos. Atuou pouco, recorrendo a métodos como infiltração no joelho para aguentar. Não marcou gols. E tem sido xingado pelos que ainda vão ao Romildão, por conta do desempenho pífio no Paulistão – especialmente se comparado com o Mogi semifinalista de 2013, aquele que levou o jogo contra o Santos de Neymar para a disputa de pênaltis enquanto ele, Rivaldo, penava no São Caetano.

Bem, que o término dessa carreira vitoriosa sirva para apaziguar os ânimos onde tudo começou, e que o mogimiriano reforce seus laços com Rivaldo. Que guardemos na memória todas as vezes em que esmurramos as placas do estádio por causa do nosso camisa 10. Enquanto isso, todos vão rever que o meia saiu de Mogi Mirim para o mundo. E vai aparecer, entre os gols mais bonitos, aquele em que ele encobre o goleiro ao chutar do meio-campo, em uma partida contra o Noroeste em 1993.

Naquela época, um Rivaldo que começava a se destacar foi ao Banco Banespa e acabou atendido pela minha mãe. Ela explicou que eu gostava muito de ir ao estádio para vê-lo jogar e pediu um autógrafo. Gentilmente, ele escreveu “ao Danilo, um abraço do amigo Rivaldo”. Agora, sinto-me na obrigação de retribuir. Um abraço, Rivaldo!

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