Os transparentes e desajeitados do futebol

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Não chega a ser novidade ver um jogador de futebol se arriscando diante dos microfones e cantando grandes sucessos da música brasileira. O caso do volante Richarlyson, que virou hit no YouTube, foi só o mais recente entre tantos outros boleiros que já fizeram sucesso em outros palcos.

No vídeo em questão, o volante do São Paulo canta o sucesso “Eu nunca estive tão apaixonado”, do sempre romântico Fábio Jr, ao lado da cantora Shirley Carvalho, que participou da segunda edição do programa “Ídolos”, versão tupiniquim do sucesso “American Idol”, dos Estados Unidos. E Richarlyson não se intimida diante da cantora, versando a plenos pulmões o refrão da música.

Com isso, ele se junta a um seleto grupo de craques-vozeirões, que inclui feras do nível do Rei Pelé, de Júnior (ex-lateral do Flamengo e da seleção), e a dupla de argentinos Carlos Tevez e Sérgio “Kun” Agüero, adeptos da cumbia villera, ritmo mais comum nas periferias de Buenos Aires.

Confira abaixo alguns casos interessantes de boleiros latino-americanos que se arriscaram na música. Se também citássemos os europeus, a lista não teria fim.

Pelé

O Rei do futebol é um artista multifacetado. Desde o ritmo funkeado de “ABC, ABC, toda criança tem que ler e escrever” até o recente fado (sim, fado) “Teresa”, Pelé não cansa de surpreender nossos ouvidos. Se você já ouviu Romário dizendo que Pelé calado é um poeta, é porque ainda não ouviu esses sucessos. Você irá contestar – ou aceitar plenamente – a opinião do Baixinho. Desde os anos 60 ele já vem flertando com a música. Tudo começou em um dueto com nada menos do que Elis Regina. O EP “Tabelinha” continha as canções “Perdão não tem” e “Vexamão”, bem interpretadas por ele e Elis.

O Rei ainda manteve relação estreita com Wilson Simonal, com quem gravou um comercial para a Shell, gigante do petróleo na época. Nos tempos de Cosmos, fez parceria com o astro Sérgio Mendes (aquele do “Mas que nada”). De volta ao Brasil, fez campanhas para o governo federal, como a supracitada “ABC”, incentivando as crianças a irem para a escola.

Com Jair Rodrigues, Pelé teve parcerias nos anos 70 e também em 2009, quando cantou no Auditório do Ibirapuera em comemoração ao aniversário de 70 anos de Jair.

Júnior

O craque fez das suas antes da Copa de 82 – aquela na qual a seleção de Telê encantou, mas não levou a taça. Não bastasse ser o intérprete do sucesso “Povo feliz”, que embalou todos os jogos do Brasil naquela Copa, Júnior ainda lançou um LP com o mesmo nome da música, que ainda continha outra faixa: “Pagode da Seleção”, homenagem a todos os craques daquele elenco. Para quem não reconheceu o nome “Povo Feliz”, é aquela do refrão “Voa, canarinho, voa”… Inesquecível! A confirmação do sucesso veio nas vendas: 626 mil cópias em apenas 20 dias de lançamento.

Ronaldo & Os Impedidos

O goleirão do Corinthians nos anos 90, sempre polêmico, era um dos poucos jogadores de futebol da época a se dizer roqueiro, em meio a tantos adeptos do samba, pagode e axé. Para confirmar essa veia, ele levou um projeto paralelo a sério: a banda Ronaldo e Os Impedidos. Em 1996, o grupo lançou CD, emplacou música nas rádios e gravou até um clipe, da faixa “O nome dela”. O disco tinha até covers de Elvis Presley (“Little Sister”) e Creedence Clearwater Revival (“Proud Mary”). A aventura, porém, não passou do primeiro disco. Faltou tempo para o goleiro trabalhar melhor seu lado musical. “Fazendo música, jogando bola!”

Ney Franco

O técnico do Coritiba é sucesso garantido entre os boleiros. Experiente no ramo musical, Ney já lançou um disco e não pretende parar por aí. O trabalho de estreia do cantor é mais voltado para a questão social. “O que queremos nós, os brasileiros?” faz questão de problematizar a violência e a corrupção que assolam o Brasil. Por meio de doces versos como “Não podemos ser mané” e “Tava na beira do caos, numa piração total”, ele passa sua mensagem. Além das composições próprias, Ney Franco ainda tem uma carta na manga: uma interpretação de “Knockin on Heaven’s Door”.

Romário e Edmundo

“Lê lê lê lê ô, lê lê lê lê á, com bad boy no seu time, já pode comemorar”. É, em 1995 a torcida do Flamengo não comemorou, mas ao menos pôde se divertir com o rap de uma das duplas mais polêmicas do futebol brasileiro. Naquele ano, os dois craques de pavio curto eram melhores amigos e chegaram juntos ao time rubro-negro. Embalados pelo título de “Ataque dos Sonhos” – composto pelos dois e mais a revelação Sávio -, Romário e Edmundo cantaram o refrão no dia da apresentação e gravaram para a coletânea Rap Brasil, que reunia os melhores funkeiros do Rio de Janeiro nos anos 90. Algumas brigas e cabelos brancos depois, a dupla se encontra em paz atualmente. Valeu?

Carlos Tevez

Nem o sotaque enrolado impediu Carlitos de se aventurar na, digamos, MPA (Música Popular Argentina). Mas o mecenas da banda Piola Vago pode tudo no grupo, que tem com um dos integrantes seu irmão Diego Tevez. Em uma canção chamada “A Carlitos Tevez”, o atacante do Manchester City solta a voz, mesmo que ininteligível em alguns momentos, e nos brinda com a história resumida de sua vida até se tornar craque de futebol. Tudo isso em um ritmo tipicamente latino. Em vídeos espalhados pela internet, o craque aparece com a camisa do Boca Juniors dando sua contribuição em shows da banda.

Sérgio “Kun” Agüero

Assim como Tevez, Agüero ganhou uma música em sua homenagem (cumbia, claro). O grupo Los Leales, tradicionalíssimo e com mais de 20 anos de estrada, gravou a canção “Kun Agüero” e contou com a participação do próprio na gravação do clipe. Entre todos os sons, este, na opinião do autor, é o que mais colabora musicalmente para o cancioneiro mundial. Coincidentemente, o vocalista da banda se chama Marcelo Agüero, mas não tem parentesco com o craque do Atlético de Madrid. ¡Vamos Kun Aguero!

O elenco do Palmeiras em 2007

Encabeçados pelo chileno Valdivia, os jogadores do Verdão homenagearam o clube ao gravar o hino alviverde para um CD especial, que fazia parte de um kit para colecionadores. Além de El Mago, estiveram presentes nas gravações o goleiro e ídolo Marcos, o atacante Edmundo (olha ele de novo!) e o meio-campista Caio, vendido naquele mesmo ano para o futebol alemão.

Sócrates e Casagrande

Aqui, uma história mais parecida com a de Richarlyson. Os craques corintianos sequer gravaram uma música, mas merecem menção pelo fato de terem soltado a voz nos comícios da campanha das Diretas Já, entre 1983 e 84. Em plena Democracia Corinthiana, a dupla, ao lado do lateral Wladimir, esteve sempre ao lado de nomes como Rita Lee e Gilberto Gil, dois dos muitos adeptos da campanha.

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E aí? Qual o melhor? Qual o pior? E o mais engraçado? Não deixe de opinar nos comentários abaixo. Ah! Também vale citar outros boleiros cantores, claro!

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