Terry, o encrenqueiro da Inglaterra

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John Terry é um zagueiro que alia diversas qualidades. Rápido, forte, inteligente e até com algum refinamento, não demorou para que o jogador se transformasse no capitão da seleção inglesa. No entanto, mesmo com tantos predicados, Terry tem uma carreira marcada pela polêmica e pelos acontecimentos extracampo, que vão desde o pênalti perdido em uma final de Liga dos Campeões da Europa e se estendem até mesmo ao envolvimento de seu pai com o tráfico de drogas.

John Terry, Chelsea
John Terry, ainda jovem, já no Chelsea

Terry começou a carreira no West Ham, mas foi para o Chelsea ainda durante as categorias de base. Profissionalmente, ele estreou em 1998, passando por empréstimo pelo Nottingham Forest em 2000. Desde então, construiu uma carreira sólida, recusando uma oferta do Huddersfield (então na segunda divisão) e retornando a Chelsea no ano seguinte. A partir daí, assumiu a braçadeira de capitão do time, conquistou três vezes o título do Campeonato Inglês e se envolveu em várias confusões, dentro e fora de campo.

O começo de carreira de Terry, por sinal, já o mostrava como um nome próspero para o noticiário. Quando recebeu a oferta de 750 mil libras pelo quarto zagueiro em 2000, o Chelsea não hesitou em aceitar, e o negócio só não saiu porque Terry bateu o pé.

Na ocasião, Terry era jogador da seleção sub-21 de seu país, o que não impediu que ele se envolvesse em dois problemas nos anos seguintes que poderiam complicar – e muito – sua carreira. Em setembro de 2001, menos de duas semanas após os ataques terroristas em Nova York, Terry e alguns companheiros de Chelsea (entre eles, Frank Lampard e Eidur Gudjohnsen) provocaram turistas americanos no Aeroporto de Heathrow, em Londres. Bêbados, os jogadores xingaram os visitantes, dançaram e tiraram a roupa no local. Resultado: uma multa de 130 mil libras imposta por sua equipe.

Terry em 2002: visitas ao tribunal eram constantes
Terry em 2002: visitas ao tribunal eram constantes

No ano seguinte, o jogador protagonizou uma briga de bar em Londres, ao lado de Jody Morris (então jogador do Chelsea) e Des Byrne (ex-atleta do Wimbledon). Passou a noite na delegacia e foi acusado de agressão – acabou inocentado, mas ganhou uma suspensão temporária das seleções inglesas, profissional e sub-21.

No entanto, as características técnicas de Terry foram dando a ele espaço no Chelsea, com técnicos como Claudio Ranieri e José Mourinho, e na seleção inglesa, na qual estreou em 2003 pela equipe principal. Em 2005, quando ele já compunha a zaga do time londrino com Ricardo Carvalho, viu o setor se tornar o mais sólido da Europa. E como Stamford Bridge era o destino de investimentos milionário do magnata russo Roman Abramovich, Terry e seus companheiros (alguns deles contratados com tais investimentos) passaram a se destacar também pelos bons resultados.

Em 2006, o camisa 26 parecia viver uma fase de calmaria, que se converteu em momento inusitados. Contra o Reading, em partida pela temporada 2006/2007 do Campeonato Inglês, o zagueiro teve a incumbência de assumir o gol da equipe, uma vez que Petr Cech e Carlo Cudicini haviam se machucado em campo. A experiência durou pouco mais de um minuto, e o único feito de Terry na posição foi cobrar uma falta sofrida pelo Chelsea no setor defensivo.

Mas a temporada também teve reveses para o já astro da equipe. Em novembro, diante do Tottenham, foi expulso pela primeira vez em sua carreira profissional. No mês seguinte, reclamando de dores nas costas, precisou sofrer uma cirurgia para a remoção de uma vértebra, que o tirou de campo até fevereiro. No mesmo mês, torceu seu tornozelo na partida diante do Porto pela Liga dos Campeões da Uefa, o que quase o tirou da final Copa da Liga Inglesa. Retornou, e conseguiu disputar o jogo em 25 de fevereiro. Resultado? Uma dividida com Abou Diaby fez com que ele ficasse desacordado em campo e fosse removido para um hospital.

Mas mesmo em meio a tantos problemas físicos, Terry conseguiu novas encrencas fora de campo – ou quase. Em março, após vitória por 3 a 0 sobre Andorra, o zagueiro proibiu que seus jogadores trocassem camisas com os adversários. Assim, tomou de Oscar Sonejee, zagueiro andorrano, a camisa que havia sido dada por Jermain Defoe. “Foi um lance muito feio”, contou Sonejee na época ao jornal The Sun. “Fiquei chocado, foi algo humilhante. Nenhum time jamais tinha recusado a honra de trocar camisas conosco”, completou.

john_terry_slip_signO castigo veio na temporada seguinte, justamente em um dos momentos mais importantes da história do Chelsea. Diante do Manchester United, o clube londrino disputava a final da Liga dos Campeões da Europa. E após um empate por 1 a 1 no tempo normal, os rivais ingleses levaram a disputa para os pênaltis. Terry era o responsável pela quinta cobrança dos Blues, mas escorregou e mandou para fora a bola que daria o título europeu ao clube. No fim, o Manchester venceu por 6 a 5, e o zagueiro chorou copiosamente no gramado do Estádio Luzhniki, em Moscou. Virou piada na internet.

O episódio fez com que o jogador divulgasse uma carta aberta à torcida no site do Chelsea. “Muitas pessoas me disseram que eu não tinha que dizer nada sobre o assunto, mas eu sinto que tenho. Este sou eu. Tenho revivido aquele momento desde que ele aconteceu. Tenho dormido poucas horas e acordo sempre esperando que aquele momento fosse só um pesadelo. Tive surpreendentemente apoio dos torcedores, jogadores e ex-jogadores, familiares e amigos e tenho que agradecer a cada um por isso. Mas sou um grande homem e me responsabilizo por nós não termos vencido”, disse. “Sou e sempre serei Chelsea, custe o que custar. Darei meu melhor dentro e fora do campo para ganhar esse troféu como jogador e um dia como técnico. E tenho certeza que nós venceremos”, completou o zagueiro – surpreendente, torcedor do Manchester United durante sua juventude, segundo revelou ao The Guardian.

Posteriormente, os incidentes mostraram que John não era o único a ter problemas na família Terry. Em março de 2009, Sue Terry, mãe do jogador, e Sue Poole, sua sogra, foram flagradas furtando de uma loja de departamentos e de um supermercado. Mais tarde, em novembro, Ted Terry, pai do zagueiro, foi filmado pelo jornal News of the World vendendo cocaína.

Pensa que acabou? Em dezembro, repórteres disfarçados (do mesmo jornal) conseguiram convencer John Terry a “vender” visitas a Stamford Bridge – o que é proibido pelo Chelsea – por cerca de 10 mil libras. Por cerca de duas horas, Terry ciceroneou os dois jornalistas, que filmaram jogadores descansando e treinando.

E quando tudo já parecia ter acontecido em sua vida, eis que John Terry aprontou mais uma. Em janeiro de 2010, o zagueiro fez sua mais recente aparição nas capas dos tablóides britânicos, que divulgaram o romance entre o jogador (casado) e a modelo francesa Vanessa Perroncel, ex-namorada do zagueiro Wayne Bridge. Ex-companheiro de Terry no Chelsea, Bridge se recusou a cumprimentar o rival na partida de seu novo clube, o Manchester City, e o Chelsea.

Em fevereiro, as farras de Terry custaram a ele a braçadeira de capitão da seleção inglesa – na África do Sul, o time de Fabio Capello seria capitaneado por Rio Ferdinand. Bridge pediu dispensa do grupo, que terá problemas na Copa do Mundo – além de contar com o zagueiro-encrenca, os ingleses embarcam sem astros como David Beckham e Michael Owen, lesionados. E John Terry, ironicamente, era uma das peças-chave do forte time de Capello.

***

bigPhoto_0Mas Terry também tem bons momentos para comemorar como jogador. Além dos 11 títulos pelo Chelsea, o jogador ainda tem no currículo suas chuteiras, doadas em março para Manoel Ribeiro. Massagista do time, o brasileiro recebeu os calçados autografados e colocou-os em leilão para ajudar a custear o tratamento de sua sobrinha com câncer. O lance final foi de R$ 5 mil.

Querido em seu país, o camisa 6 da Seleção Inglesa ainda é tema de jogos online. E a despeito dos problemas recentes envolvendo sua vida conjugal, Terry demonstra publicamente apego à família. Em 2006, quando recebeu da esposa Toni a notícia de que estava grávida de gêmeos, comemorou o gol que marcou contra a Hungria (o segundo em amistoso vencido por 3 a 1) imitação o embalo de um bebê. Três anos depois, foi eleito “Pai do Ano” em uma pesquisa realizada por uma marca de condimentos do Reino Unido.

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