Sentirei saudades, Pirassununguense

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O despertador tocava às 9h. Levantava. Corria para colocar uma bermuda e camiseta, enganar o estômago com três bolachas e não atrasar para botar os pés na rua. Nunca funcionava. Na prática, perdia a hora, e o ciclo ocorria no ritmo mais frenético, desesperado, bagunçado possível.

A caminhada solitária demorava uns 40 minutos. Às vezes mais, às vezes menos. Neste meio tempo, enfrentava sempre o mesmo dilema: o que estou fazendo aqui? Não sei. Não dava mais tempo para voltar atrás. Aos passos apressados, continuava.

Cheguei.

“Olá, tudo bem?”. “Que calor, não?”. “Ganha hoje?”. Os mesmos bordões estavam sempre na ponta da língua quando esbarrava algum conhecido na porta. Isso, e os minutos intermináveis (uns dois, três) na fila do ingresso, impediam o tão esperado reencontro.

Um, dois, três degraus acima e lá estava. O meu lugar. No cimento verde, tórrido, ardendo, mas intacto, ansioso pela minha presença. Olho para o lado, para o outro, e tiro os meus óculos da caixinha. De cegueta passo ao HD.

Pronto.

Com leve atraso, estou no estádio Belarmino Del Nero, às 10h e pouco, sozinho, assistindo um jogo de quarta divisão numa manhã ensolarada de domingo. Em Pirassununga, vendo o Pirassununguense, ou, como chamamos, o CAP.

Não importa o momento do time, e muito menos o adversário. Gosto de futebol, simples assim. “Futebol”, digo. Aspas? Pois bem. Assistimos, geralmente, tudo, mas tudo mesmo que não envolva o principal esporte do planeta. Apenas um bando de rapazes se traulitando com uma bola, confusos, mais desesperados (despreparados, também) quanto o meu atraso matinal.

Levava essa vidinha calmamente. Até o inglês Nick Hornby, em seu livro “Febre de Bola”, abrir os meus olhos e levantar o conflito da minha caminhada: estou indo buscar certo entretenimento, porém fico nervoso, xingo pessoas desconhecidas, saio revoltado, e preciso abrir a carteira para isso? É… Sigo exatamente este script. Jogo atrás de jogo. Por que continuo frequentando o estádio? Ainda não achei uma resposta lógica.

Nesta segunda (02), uma triste notícia: o CAP não entrará em campo neste ano. Motivo? Falta de recursos. Entre outras linhas, o clube tá devendo na praça. Difícil. Os 107 anos e status de segunda equipe mais velha do estado, não foram capazes de salvar o Gigante do Vale – como é conhecido. Especula-se que, em 2016, ele voltará. Contarei nos dedos os dias para o retorno, mesmo ciente (e gostando) do sofrimento e frustração habitual.

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