Seis discussões muito chatas sobre o Mundial de Clubes

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Quanto mais fanático um torcedor de futebol, mais parcial ele será em seus argumentos durante uma discussão. Pode parecer uma hipótese meio cruel, mas você já deve ter passado por uma experiência meio difícil ao comemorar uma vitória de seu time – afinal, em alguma ocasião da história, o seu time já venceu uma partida com uma arbitragem duvidosa, ou foi campeão graças ao investimento de um mecenas no elenco, ou com uma combinação questionável de resultados, ou…

É chato quando isso acontece? Bastante, em especial quando acontece a favor de um rival, ou contra o seu time. E quanto mais importante a competição, mais teorias da conspiração irão surgir – ao menos, na teoria. Algumas, com o passar do tempo, passarão a ganhar tons de verdade universal, do tipo que ninguém para pra pensar por um momento. E independente do time para o qual você torça, você sabe: já aconteceu com o seu time, e contra o seu time.

Seguindo esta lógica teórica, o Mundial de Clubes é o apogeu anual do surgimento de teorias que não se explicam, e que apenas existem para que um rival possa destratar os feitos do rival. Ao longo dos anos, torcedores se engalfinharam em discussões das mais infrutíferas sobre o assunto, com o único propósito de aporrinhar o rival.

Para tentar jogar alguma luz sobre este assunto, o Última Divisão reuniu algumas das frases feitas que são ditas a cada Mundial – ou cada vez que a competição é debatida. Não são verdades absolutas (até porque o texto é bastante opinativo), mas são argumentos que merecem ser lembrados a cada vez que um dos fatos a seguir é mencionado. Você concorda?

1. Para conquistar o mundo, é preciso atravessá-lo

Você já deve ter ouvido isso, em especial quando algum corintiano menciona o Mundial de Clubes de 2000. “Como é possível conquistar um torneio assim, jogando em casa?”, pergunta um. Mas sim, geograficamente falando, é tão possível que deixa sem sentido questionar a participação corintiana no (primeiro) Mundial de 2000.

Desde que começou a organizar o Mundial de Clubes, em 2000, a Fifa só não convidou um campeão nacional do país-sede em duas ocasiões, 2005 e 2006, meramente por critérios próprios na montagem da tabela. Desde 2007, para ajudar a atrair o público do país-sede, convida o campeão nacional vigente para a disputa.

Antes disso, o Corinthians – campeão brasileiro em 1998 e 1999 -foi chamado pelo primeiro título, assim como o Vasco foi chamado – por ter conquistado a Libertadores de 1998. Da mesma forma, o La Coruña iria ao Mundial de 2001 da Fifa (o que foi cancelado) como campeão espanhol da temporada 1999/2000, e o Palmeiras iria como campeão da Libertadores 1999.

Kashiwa Reysol, em 2011: ser campeão no Japão significaria atravessar 73,9 km do mundo, segundo o Google Maps

2. Não dá para conquistar o mundo sem conquistar o continente

Na teoria, o Mundial Interclubes pré-2005 reuniu sempre o campeão sul-americano e o campeão europeu. Na prática, em algumas ocasiões, um dos competidores do título mundial não era, necessariamente o campeão continental. Na década de 70, aliás, era uma prática bastante recorrente.

Em 1971, o Ajax foi campeão europeu, mas recusou o convite para o Mundial por conta da violência dos estádios sul-americanos – o Panathinaikos, vice-campeão, enfrentou o Nacional (URU) e perdeu por 3 a 2 no placar agregado. Dois anos depois, com o tricampeonato europeu, o Ajax novamente disse não ao convite: a Juventus recebeu o Independiente no Estádio Olímpico de Roma e perdeu por 1 a 0 em jogo único, também dando adeus ao título mundial.

Aconteceu de novo em 1974, mas com o Bayern de Munique. Desta vez, quem foi para o Mundial foi o Atlético de Madrid, que venceu o Independiente por 2 a 1 no placar agregado e conquistou o Mundial Interclubes – pela primeira vez, um time chegava ao feito sem conquistar seu continente. Em 1977, o Borussia Monchengladbach, que perdeu o título europeu para o Liverpool, perdeu o Mundial para o Boca Juniors.

Por fim, em 1979, o Malmo (SUE) representou a Europa no Mundial (vencido pelo Olímpia por 3 a 1 no agregado) depois de ter perdido o título europeu. Aliás, o próprio título mundial de 1993 do São Paulo não foi conquistado sobre o campeão europeu – o Milan perdeu a final para o Olympique de Marselha, cujo título mais tarde foi cancelado por conta de um escândalo de acerto de resultados.

A foto não mente.

3. Campeão sem a chancela da Fifa?

Entre 1960 e 1979, o Mundial Interclubes foi uma competição organizada pela Uefa e pela Conmebol, principais entidades continentais ligadas à Fifa. Hoje com clubes bastante representativos, Concacaf (América do Norte e Caribe), AFC (Ásia), CAF (África) e OFC (Oceania) estavam tecnicamente bem abaixo de sul-americanos e europeus, e provavelmente não despertavam o interesse nos organizadores.

De qualquer forma, os Mundiais entre 1960 e 2004 reuniram os principais clubes do futebol mundial durante quatro décadas, com o aval da Fifa. A entidade demorou a dar a devida importância para a competição, o que só seria reconhecido anos mais tarde, já no século XXI. Tanto que no dia 27 de outubro de 2017, a Fifa anunciou que reconheceu todos os títulos da Copas Intercontinentais como mundiais.

Exemplo simples de situação parecida: a Série A-3 do Campeonato Paulista não é organizada pela Fifa, mas pela Federação Paulista de Futebol. Mesmo assim, com a FPF ligada à Confederação Brasileira de Futebol, que é ligada à Conmebol e à Fifa – e, justamente por serem entidades filiadas à Fifa, conferem a suas competições caráter oficial.

Independente de Limeira, campeão da Segunda Divisão do Campeonato Paulista. Na foto, todo mundo, menos Joseph Blatter.

4. Não teria que ter representantes de todos os continentes?

Não, porque o futebol na Antártica é muito fraco. E piadas cretinas à parte, porque as associações continentais de outros continentes estavam em patamares inferiores aos de Uefa e Conmebol – a Concacaf, por exemplo, nem sequer conseguiu realizar uma final continental em 1984.

Diante da evolução dos demais continentes, a Fifa sabidamente democratizou o Mundial, e convidou clubes de Ásia, África, Oceania e América do Norte/Caribe para o torneio. Mesmo assim, a Concacaf tem mostrado pouco até aqui, a Oceania enviou quase sempre times semi-amadores e a África só conseguiu aparecer com destaque pela primeira vez em 2010, com o surpreendente Mazembe. Foi um passo dado no momento certo, mas que provavelmente faria pouco sentido na década de 80. Atualmente, evolução mesmo, só na Ásia.

Hoje, faz sentido ter clubes de todos os continentes. Mas até pouco tempo atrás, o estágio de cada continente ainda era muito diferente um do outro. Quer um exemplo? “Nós enfrentamos jogadores que eram profissionais, que eram melhores do que nós. Mas queríamos mais, e fomos campeões”, explica Errol Lovell, goleiro campeão da Copa dos Campeões da Concacaf em 1985 com o Defence Force, de Trinidad e Tobago. Ou seja: a América do Sul já exportava craques para a Europa, e o Caribe ainda nem profissionalizava jogadores.

Defence Force, de 1985: seria legal ver no Mundial, mas iria tirar o título da Juventus?

5. Os europeus não ligam para o Mundial de Clubes

O título de 2010 não salvou o emprego de Rafa Benítez na Inter de Milão. E é claro que o Liga dos Campeões ainda é o título mais importante do ano para os times da Europa. Mesmo assim, conquistar um título importante em apenas duas partidas em campo neutro pode ser vantajoso para clubes europeus – que ainda asseguram um prêmio em dinheiro e visibilidade intercontinental, sempre bem-vindos.

É claro que os representantes da Uefa no Mundial de Clubes disputam o torneio com um viés diferentes dos outros representantes, especialmente da Conmebol. Mas, para os europeus, é sempre importante coroar campanhas vitoriosas com o máximo possível de títulos. A importância do Mundial para os europeus está próxima de uma Supercopa Europeia – e, o que poderia parecer demérito por aqui, é bastante considerado por lá.

“A vitória no Mundial de Clubes da Fifa encerra da melhor maneira possível uma temporada maravilhosa para nós e para nossos fãs. Pela primeira vez na história do futebol italiano, conquistamos e festejamos cinco troféus em poucos meses”, comemorou Massimo Moratti, presidente da Inter de Milão, em dezembro de 2010.

Parece um discurso político, e é. Mas a política também é importante para os clubes europeus. Além disso, valorizar todos os títulos conquistados ajuda a engrandecer a imagem do clube. Em 2009, o Barcelona levou o Campeonato Espanhol, a Copa do Rei, a Liga dos Campeões da Europa, a Supercopa da Uefa (contra o campeão da Liga Europa) e o Mundial de Clubes. Seriam cinco títulos, mas a conta inclui a Supercopa da Espanha, entre os campeões do Campeonato Espanhol e da Copa do Rei – no fim, a disputa foi com o Athletic Bilbao, vice-campeão. Alguém duvida que o Barcelona festejou cada um dos títulos. por menores que pudessem parecer?

Tristeza, por favor vá embora…

6. Os mexicanos são a terceira força

Perceba que o conceito diz respeito aos clubes mexicanos – e nem mesmo engloba qualquer outro representante da Concacaf que participe do Mundial. Detalhe: desde que a Fifa passou a organizar o torneio, em 2000, apenas dois times do México subiram ao (virtual) pódio final – o Necaxa em 2000 e o Monterrey em 2012.

Esse resultado é inferior ao dos times japoneses, que terminaram em terceiro em três ocasiões (Urawa Red Diamonds em 2006, Gamba Osaka em 2008 e Sanfrecce Hiroshima em 2015). E, diferente do México, o Japão ainda tem um vice-campeonato em 2016, com o Kashima Antlers enfrentando o Real Madrid na final.

Isso, aliás, não é exclusividade dos nipônicos. Em 2010, o Mazembe venceu o Internacional na semifinal e foi à final. Nas quartas, o representante africano venceu o Pachuca. E, em 2013, o Raja Casablanca bateu o Atlético-MG na semifinal e o mexicano Monterrey nas quartas. 

Isso sem falar na zebraça que ocorreu em 2014, quando o Auckland City, da Nova Zelândia, alcançou as semifinais e só foi batido pelo San Lorenzo na prorrogação. E na disputa de terceiro lugar, os neozelandeses levaram a melhor sobre o Cruz Azul nos pênaltis.

América-MEX 1 x 2 Al-Ahly: impressionante…

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