Roupa de ir à missa

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Acompanhar o Alianza Lima no último trimestre do ano pode ser uma experiência curiosa. O time é um dos melhores do futebol peruano, e costuma chegar aos últimos meses do ano brigando por vaga nas finais do campeonato local – é época da disputa da Liguilla. Em campo, porém, o Alianza exibe mais do que futebol; em outubro, é hora de mudar as tradicionais cores do uniforme – sai o azul-marinho, entra o morado.

Fundado em 1901, o Alianza usa uniformes azuis e brancos desde seus primeiros anos, graças à origem italiana de um de seus fundadores. Mas desde 1955, segundo consta, a tradição deu espaço à fé, que tomou conta de dirigentes, jogadores e torcedores, e que transforma o clube em um caso quase único no futebol mundial.

Tudo começou em 25 de setembro de 1955. Pelo Campeonato Peruano, o Alianza Lima disputaria uma partida fora de casa diante do Deportivo Municipal – que igualmente veste uniformes em azul-marinho e branco. Como dita a regra, os aliancistas utilizariam indumentária reserva. Porém, a fabricante responsável pelas camisas não conseguiu fazer a entrega a tempo. O que fazer?

O dilema só foi resolvido por José Carrión, roupeiro da equipe conhecido como Chino Pepe. Devoto do Senhor dos Milagres, Carrión providenciou pessoalmente uniformes na cor púrpura – a mesma que remete à devoção da imagem em questão. Assim, confeccionou camisas e meias em púrpura, com calções brancos.

Foi com este uniforme que o Alianza entrou em campo para enfrentar o Deportivo Municipal. Então dirigente do clube de La Victoria, Alfonso de Souza Ferreyra estava presente às tribunas do estádio, e chegou a gritar a Chino Pepe que ele estava demitido por atentar contra a história do clube. Em campo, os limenhos venceram por 1 a 0. Mais calmo, Don Alfonso pediu então para que a cor fosse adaptada ao uniforme do clube.


Azul-marinho e morado: nenhum dos dois uniformes é reserva

Na partida seguinte, em 2 de outubro, o Alianza empatou com o Ciclista Lima, já utilizando o uniforme novo: camisas listradas em púrpura e branco. Resultado ruim? Talvez. Mas o título nacional daquele ano fez com que a tradição criada por José Carrión se perpetuasse. E desde então, o time de Lima muda de cores em todo mês de outubro, deixando de ser blanquiazul para ser blanquimorado.

Señor de los Milagros

Senhor dos Milagres é o santo padroeiro da cidade de Lima e de boa parte dos peruanos. Também conhecido como Cristo Moreno e Cristo de Pachacamilla, é tido como um protetor dos negros e humildes do Peru. Em sua homenagem, os devotos realizam algumas das principais celebrações religiosas da América Latina.

Em 1661, segundo a tradição, um escravo negro pintou uma imagem de Jesus Cristo nas paredes de uma casa no bairro de Pachacamilla, em Lima. Mesmo construída de material pobre e localizada próxima a um córrego, a parede resistiu ao tempo, a um terremoto e a um maremoto – a capela que protegia a imagem não teve a mesma sorte.

Hoje em dia, a imagem do Cristo Moreno é festejada no Peru e por comunidades peruanas fora do país – no Brasil, a principal celebração acontece em Belo Horizonte. Em procissões, o Senhor dos Milagre é ornamentado na cor púrpura, graças à iniciativa da Madre Antônia Lúcia do Espírito Santo.

Fotos e informações: Wikipedia, Sentimiento Blanquiazul, Pablo Aro GeraldesPeruanos en USA e Corazón Azul.

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