Quase americanos

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Aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro. No portão de desembarque internacional, os olhares atentos não desgrudam da porta automática que separa o free shop do saguão. Alguns esperam conhecidos, talvez amigos, talvez parentes, mas há quem esteja ali torcendo para que meros desconhecidos reconheçam seus nomes em placas e se apresentem.

No canto, um pequeno grupo aguarda a chegada de dois jovens que conheciam apenas por vídeo. O mais alto é atlético, tem o rosto quadrado e o cabelo loiro. Já o mais baixo é magro, tem rosto de traços finos e cabelo negro cortado à la banda de rock colorido. De tão diferentes que são, poderiam facilmente se passar por personagens de sitcons, aquelas séries de comédias de situação americanas. Mas não, decidiram apostar na dura carreira de jogador de futebol.

O mais alto é Lucas Sliuzas Geremias, 23, atacante formado no Rosario Central e com passagens pelo desconhecido Jorge Griffa e pelo Albinegros de Orizaba, da divisão de acesso do México. O mais baixo é Pablo Daniel Espinoza, 25, meia que surgiu no modesto Tigres e rodou pelos pequenos Almagro e Atlanta. Carreiras parecidas, sonhos idênticos: vingar no próspero futebol brasileiro.

Sorridentes, argentinos chegam e já vestem os bonés

Foi com esse desejo, aliás, que os dois surgiram pelo portão de desembarque do Galeão. Alguns passos depois da porta automática, avistaram o grupo liderado por Ricardo “Pança” e José Carlos Villardi – o primeiro, aliás, vestido de vermelho da cabeça aos pés – e foram ao encontro deles. Logo cada um recebeu um boné vermelho e um firme aperto de mão dos torcedores, sinal de confiança para uma parceria que iniciava ali e (quem dera!) terminaria em vitórias e títulos.

Mas o aperto de mão, os bonés e as fotos tiradas por alguns fãs interessados em um registro para a posteridade não eram por acaso. Aquela recepção era um passo importante de um plano ousado arquitetado integralmente pelos torcedores: o de contratar reforços internacionais para honrar as cores do América do Rio – pelo menos mais do que vinham fazendo os made in Brazil.

Sliuzas (E) e Espinosa (C) cumprimentam Ricardo “Pança” (D)

Tudo começou alguns meses antes do desembarque. Um grupo que se auto-intitula “Os Gatos Pingados” e usa a internet para discutir e torcer pelo América teve a ideia de procurar um empresário brasileiro (conhecido de um deles) para sondar as possibilidades de o time contratar jogadores com a conhecida garra latina. Ao mesmo tempo, fizeram contato com o presidente americano Ulisses Salgado para que os argentinos pudessem ser testados durante um mês. Se fossem aprovados, assinariam contrato e seriam os grandes reforços para o Campeonato Carioca. Pelo menos era o desejo d’Os Gatos e dos argentinos.

As negociações duraram meses, mas lá estavam os argentinos. Sliuzas e Espinoza ficaram instalados em uma pousada de quartos simples em São João de Meriti, tudo pago pela “vaquinha” realizada entre os torcedores, Gatos Pingados ou não. E como a diária do hotel incluía apenas o café da manhã, as outras refeições também tinham que ser pagas pelo grupo. Era a arquibancada investindo na bola.

No gramado, os dois argentinos tentavam retribuir o esforço dos torcedores com todo o suor que podiam. Treinavam firme com o elenco americano, só à espera da palavra final da diretoria do clube. Só que o tempo foi passando, passando e nada. Sliuzas fez gols, Espinoza deu passes – e até ganhou um apelido, Conquinha, referência ao também argentino Darío Conca, craque do Brasileirão 2010 – mas nada de a diretoria do América se pronunciar.

A poucos dias do fim do período de testes, porém, Villardi recebeu uma notícia que não esperava ouvir. O empresário dos argentinos já tinha na manga outras propostas do futebol brasileiro e, achando que nada ia acontecer no América, tinha acertado testes para os dois. Era o sinal de que o projeto Los Hermanos tinha acabado antes mesmo de começar.

Foto: Arthur Garcia
Depois do América-RJ, Sliuzas tentou a sorte no Serrano-BA

Honrando os compromissos firmados, Villardi acompanhou os dois até o aeroporto, um de cada vez e cada um para um destino diferente. Primeiro foi Espinoza, que seguiu para o interior de São Paulo para acertar com o Linense, da primeira divisão estadual. Depois foi Sliuzas, que seguiu para a Bahia onde tinha proposta do Serrano, também da elite local. Deixaram o Rio tristes pela boa recepção e esforço não ter sido reconhecido e nem dado lucros.

Hoje, Lucas Sliuzas e Pablo Espinoza seguem tentando vingar a carreira no Brasil. Por problemas no visto de trabalho, nenhum dos dois conseguiu fazer sua estreia pelas equipes que os contrataram. Sliuzas, inclusive, já está treinando em outra equipe, no alagoano ASA de Arapiraca, ainda à espera do direito de trabalhar. Já Espinoza segue nos planos do Linense, mas não pode atuar sem registro na CBF.

O América dos Gatos Pingados, por sua vez, segue seu martírio no Campeonato Carioca. Dias depois de dispensar os argentinos, sofreu uma goleada histórica para o Vasco da Gama (9 a 0), até ali um dos piores times do torneio. Dispensou quase um time inteiro de jogadores, contratou outros tantos. Mas acabou o primeiro turno do Estadual na última colocação, com apenas uma vitória em sete jogos disputados. Hoje, luta para não repetir o mesmo desempenho no segundo turno e voltar à segunda divisão.

A única certeza que todos tiram deste amor não consumado entre dois argentinos e uma torcida é que daquela chama acesa no desembarque, ficam as fotos e as lembranças.

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