Quando um tiro não mata um sonho: o recomeço de Salvador Cabañas no futebol

0 91

Publicidade

Cidade do México, 25 de janeiro de 2010. Já era quase dia quando os frequentadores e funcionários da boate Bar Bar foram surpreendidos com o som de um disparo de arma de fogo vindo de dentro de um dos banheiros. Minutos depois do ocorrido (o suficiente para que autor e cúmplice do crime deixassem a casa), a vítima foi socorrida e reconhecida: era Salvador Cabañas, atacante paraguaio do América local, que estava no bar acompanhado de sua mulher, María Alonso Mena.

Um funcionário responsável pela limpeza do local ouvido dias depois do crime relatou que a briga teria começado por motivos futebolísticos. Segundo ele, Cabañas teria sido questionado a respeito de gols perdidos pelo América. “Quem é você para me dizer isso?”, teria respondido o jogador, antes de ser ameaçado com uma arma pelo agressor. Cabañas teria então desafiado o interlocutor, que nāo hesitou em atirar. Um tiro que mudaria para sempre a sua história.

Naquele momento, Salvador Cabañas era o maior ídolo do América do México e destaque da seleção paraguaia que disputaria a Copa do Mundo alguns meses depois, na África do Sul. Aos 29 anos, já acumulava duas artilharias da Copa Libertadores, em 2007 e 2008, além de ter sido o carrasco de Flamengo e Seleção Brasileira. Vivia o seu auge, ainda que tivesse perdido um pênalti importante dias antes pelo Campeonato Mexicano, fato que chegou a ser cogitado como o estopim do crime.

O motivo da briga, aliás, foi esclarecido à polícia pelo próprio jogador, meses depois, quando já estava recuperado. Ele confirma que a discussão sobre futebol aconteceu, mas crê que os motivos eram outros. “Lembro-me muito bem o que aconteceu naquela noite. Foram determinados a me matar. Para mim, o ataque ocorreu para que eu não pudesse jogar a Copa do Mundo da África do Sul”, contou Cabañas em entrevista ao canal argentino TyC.

Premeditado ou não, o fato é que o tiro interrompeu bruscamente a carreira de Cabañas. Depois de 23 dias na UTI, onde soube que a bala  teria que seguir em sua cabeça porque retirá-la ofereceria risco de morte, o jogador ficou mais alguns meses internados no México antes de se mudar para a Argentina, onde seguiu em tratamento. Só alguns meses depois é que recebeu alta e voltou ao Paraguai para continuar a recuperação perto da família.

No começo de 2011, um ano depois da briga, a polícia prendeu o principal suspeito: José Jorge Balderas Garza, o “JJ”. Conhecido traficante local, com passagem pela polícia por porte de arma, formação de quadrilha e tráfico de drogas, “JJ” foi capturado pela polícia mexicana quando cometia outro crime, fraude eleitoral, motivo que o levou a ser condenado a três anos de prisão. Não há relatos de que o crime cometido contra Cabañas já tenha sido julgado pela justiça mexicana.

O retorno – Dois anos e quase três meses. Foi o tempo que levou Cabañas para reencontrar o futebol, sua grande paixão. Inicialmente, os médicos haviam chegado a conclusão de que ele nunca mais poderia voltar aos gramados, mas sua plena evolução conseguiu reverter este diagnóstico. Assim, sua primeira partida oficial após o tiro* aconteceu em abril de 2012, quando vestiu a camisa do 12 de Octubre, clube que o revelou. Foram apenas 41 minutos em campo e nenhum gol marcado. Mesmo assim, o atacante comemorou como ninguém a vitória por 2-0.

Pela terceira divisão paraguaia, Cabañas disputou 14 partidas (12 como titular) e ajudou o 12 de Octubre a conquistar o acesso. Mesmo assim não teve seu contrato renovado e seguiu para o General Caballero, de Zeballos Cué, bairro da capital Assunção, onde jogou a segunda divisão na temporada 2013. Atualmente, mora na casa dos pais, que têm uma padaria em um bairro pobre de Itaugua, região metropolitana da capital paraguaia. Alguns imóveis o ajudam a complementar a renda, como contou em entrevista ao jornal mineiro Hoje em Dia

Nesta semana, uma notícia divulgada pela imprensa mexicana dá conta que Cabañas pode voltar ao futebol do país onde foi baleado para defender o modesto Murcielagos FC, atualmente na segunda divisão. O próprio jogador confirma o interesse, mas não o acerto. Por enquanto, sua única certeza é que está vivo e saudável para poder fazer o que ama. Só assim, acredita ele, alcançará o que parece ser seu maior sonho como jogador: defender novamente o Paraguai. “Tudo o que eu mais quero é voltar a vestir a camisa da seleção paraguaia, mas também já estou planejando a minha aposentadoria. Já joguei muito, fiz muitas coisas pelo futebol e conquistei muitas coisas. Agora estou focado no meu clube, mas sonho muito com a seleção”.

* Cabañas teve uma breve participação em um amistoso entre América e Paraguai em agosto de 2011, mas a reportagem desconsiderou por esta não ser uma partida oficial.

VEJA: Gol olímpico marcado por Cabañas em amistoso de 2013.

Você pode gostar também
Comentários
Carregando...