Picerni relembra Palmeiras 2003: “reformulação deu certo”

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Agonia, ódio, dor. A torcida do Palmeiras tem se acostumado com esses sentimentos. Em 2013, a agremiação de Parque Antártica irá disputar o Campeonato Brasileiro da Série B pela segunda vez. Será que o alviverde conseguirá repetir a campanha de dez anos antes? Gilson Kleina e seus atletas terão essa responsabilidade.

Um dos últimos trabalhos de destaque de Jair Picerni foi o Red Bull Brasil de Campinas

Em 2003, o acesso e título ficaram com o jovem grupo comandado pelo técnico Jair Picerni. O goleiro Marcos e o atacante Vágner Love foram alguns dos ídolos da conquista. Aos 68 anos, o veterano treinador ainda não acredita que a agremiação tenha sido rebaixada pela segunda vez. “Não sei como conseguem rebaixar um time grande como o Palmeiras duas vezes”, afirma indignado.

Atualmente, o técnico mora em Vinhedo, interior de São Paulo. Sua última chance profissional aconteceu este ano no União São João na Série A2 do Campeonato Paulista. Homem com vivência no futebol tanto como jogador quanto como técnico, Picerni conversou com Última Divisão por telefone.

Última Divisão: O senhor assumiu o Palmeiras em dezembro de 2002. Um mês depois, teve as eleições do clube e o Mustafá Contursi foi reeleito. Como foi o relacionamento do senhor com ele?

Jair Picerni: Sempre tive bons relacionamentos com todos os presidentes com quem trabalhei. Com o Mustafá não foi diferente. Ele foi um dos melhores com quem trabalhei. Até pela situação que o Palmeiras se encontrava, ele teve um controle emocional legal. Isso nos deu tranquilidade pra fazer o trabalho. Ele troca ideias com o treinador conforme a necessidade, mas nunca interferiu no meu trabalho. Acho que naquele ano ele teve contato com os atletas umas duas, três vezes no máximo. Uma vez foi pra cumprimentar o pessoal na pré-temporada. Depois, ele foi umas duas vezes antes do campeonato pra comentar quais seriam as premiações com o título.

UD: Como foi realizada a montagem daquele elenco?

JP: Eu assumi em dezembro e nós demos continuidade com o mesmo grupo que terminou 2002. Tinha uma equipe boa, não sei como aquele grupo caiu de divisão. Aquele time tinha Zinho, Dodô, Leandro Amaral. Poxa, o Zinho tinha sido campeão do mundo com a Seleção Brasileira. Dodô tecnicamente era um dos melhores atacantes do país. Fizemos relatórios e eu falava direto com o Mustafá (Contursi). Foi uma reformulação total em que a base eram os juniores. O Palmeiras tinha seis ou sete jogadores que eram titulares das seleções de base. Acabamos subindo nove atletas do departamento amador. Pegamos alguns do São Caetano, também trouxemos jovens como o Lúcio do Sport. Também tínhamos a disposição o Marcos que era um dos melhores goleiros do país, o próprio Magrão que já tinha trabalhado comigo no São Caetano. Tinha essa base e fizemos uma pré-temporada com o objetivo de subir. Na Copa do Brasil, eu comecei a fazer uma reformulação total.

UD: Nessa competição, o time acabou sendo eliminado pelo Vitória.

JP: Sim, naquele jogo em que até o Marcos acabou furando. Aí nós fizemos o jogo de volta em Salvador e ganhamos com a base dos garotos. A partir daquele jogo de volta, o Palmeiras entrou numa nova fase. Na Série B teve algumas oscilações, mas a maioria dos resultados vieram e conseguimos subir decidindo fora de casa.

UD: Como foi lançar jovens atletas como Correa, Diego Souza e Vágner Love?

JP: Os garotos foram um espetáculo. Vágner, Edmílson, Alceu, o próprio Lúcio era um jogador muito jovem. Teve o Alessandro lateral que estava encostado no Flamengo e veio. Ele jogou uns seis, sete jogos e acabou sendo negociado. Acabou dando uma liga muito boa porque muitos daqueles atletas conseguiram ir pra fora e vingaram. A maioria conseguiu ir pro Exterior e deram continuidade em suas carreiras. O próprio Muñoz era um atacante que entrava em momentos de dificuldade e fazia a parte dele. Aquele grupo era muito jovem, acredito que a média de idade era de 23 anos. Os mais experientes eram os goleiros: o Marcos e o Sérgio. O Diego Cavalieri que está no Fluminense era o nosso terceiro goleiro.

UD: Na época em que você se tornou técnico do Palmeiras, o goleiro Marcos estava sendo negociado com o Arsenal. Na sua avaliação, a participação dele foi positiva naquele grupo?

JP: O Marcos foi pra Inglaterra, fez os exames. Mas eu não sei o que aconteceu. Estava tudo acertado. Pra mim acabou sendo melhor ter a disposição um goleiro como ele. Atuar na Inglaterra poderia ter sido um complemento pra carreira dele. Dizem que ele é maluco, mas ele vestiu a camisa naquela segunda divisão. Isso acabou acontecendo também com a torcida que acabou comparecendo aos jogos mesmo sendo no sábado ás dez horas da noite. Não sei como foram achar esse horário.

UD: Qual foi o momento de maior dificuldade na conquista daquele título de 2003?

JP: Foi a reapresentação. Os torcedores não digeriram bem a queda, como não vão digerir bem essa. Fui analisando e vendo as melhores soluções pra montar aquele grupo. O Campeonato Paulista acabou servindo como testes e percebi que era melhor não ter um ídolo como o Zinho no grupo. O Mustafá (Contursi) queria manter ele, por ter aquele nome dentro do clube. Mas uma mudança de atitude era necessária, eu precisei implantar um sistema diferente. Não era condição técnica. Eu queria um futebol mais rápido, pegador, jogado com ousadia. O futebol da molecada acabou encantando. Tanto que a maioria saiu do país e conseguiu seus objetivos. O próprio Mustafá acabou auxiliando, premiando bem os garotos, dando inclusive imóveis como luva para alguns.

UD: Quais foram os times mais difíceis naquela Série B?

JP: Nós pegamos alguns pepinos como Botafogo, Sport, Santa Cruz. O próprio Marília encheu o saco até o final. Nós jogamos umas quatro vezes contra o Marília e era um time chato. Tinha aquele atacante baixinho, o Basílio que sempre jogava com muita velocidade. Ele saia correndo e muitas vezes nunca parava. Teve uma vez inclusive que ele bateu na minha canela. Aquela Série B foi uma pauleira danada, muito disputada. O nosso grupo praticava um futebol técnico com nível de Série A. Os próprios jornalistas de fora de São Paulo comentavam isso. Teve aquele jogo em Garanhus contra o Sport e eles tinham torcida favorável. Uma coisa que me impressionou foi a torcida do Palmeiras. O clube tem torcedores em todos os lugares.

UD: Como foi o relacionamento do senhor com a torcida do clube?

JP: Muito bom. A torcida foi show. Quando acabou o ano em 2003, eu viajei com a família pra um hotel em Águas de São Pedro (interior de São Paulo). Não sei como alguns palmeirenses descobriram que eu estava hospedado lá e vieram falar comigo que a Mancha queria me homenagear: “Vão dar um troféu pra você”. Foi muito legal.

UD: Conquistar aquele título foi algo marcante na carreira do senhor?

JP: É um título que não comentam muito. Mas eu fiz uma grande reformulação naquele grupo. Trabalhamos os juniores num time que tradicionalmente não costuma trabalhar com a base. Eu poderia ter tido títulos maiores na minha carreira senão fizesse minhas equipes jogarem de maneira ousada. O Tite tem seus méritos e foi campeão mundial jogando de outra maneira. Mais força, marcação. Não é que eu esteja certo ou ele errado, cada um tem seu estilo. De repente, eu poderia ter conquistado uma medalha de ouro com a Seleção Brasileira. Olimpíadas, Liberadores, Brasileiro. O São Caetano poderia ter jogado o Mundial naquele ano contra o Real Madrid. De repente, o Serginho (ex-zagueiro do São Caetano que faleceu de ataque cardíaco aos 30 anos, em 2004) poderia ter acertado uma falta e a gente ganhava o título no Japão. Mas eu sei que tenho uma história dentro do futebol.

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