Pela mãe, por Nossa Senhora Aparecida

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Jorge da Conceição Gomes ficou conhecido no Londrina Esporte Clube por uma particularidade: após a final da Taça de Prata do Campeonato Brasileiro de 1980, o goleiro levou a camisa do jogo contra o CSA, de Alagoas, no Estádio do Café, em Londrina, para a sala dos milagres do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo.

Tudo começou no decorrer do torneio, na Rua Javari, em São Paulo. Em um duelo contra o Juventus da Mooca paulistana, o Tubarão paranaense foi derrotado. No dia seguinte, Jorge viu no jornal uma foto que lhe chamou atenção.

Era sua mãe, torcendo por ele nas arquibancadas.

Crente na fé, ele prometeu a si mesmo que a camisa que usava seria doada por uma causa especial se o LEC fosse campeão.

O tempo passou

Dito e feito.

Na final, o Londrina venceu os alagoanos: 4 x 0. Foi consagrado vencedor da antiga segundona do campeonato nacional.

“Eu tinha uma camisa bordô e tinha feito uma promessa. Se campeão, levaria para Aparecida do Norte. Virou que quando estávamos ganhando, 2 x 0, já tirei a camisa. Botei uma camisa amarela e preta, no vestiário, e deixei a outra escondida. Eu sabia que quando acabasse o jogo eu não teria condição de levá-la para Nossa Senhora. Eu guardei a camisa na bolsa, aí fiquei preocupado para depois que acabasse o jogo. Na correria, o povo rasgou (a camisa amarelo e preta). Rasgaram camisa, só não rasgaram meu calção. Levaram até minha luva. Falei, ó: Deixa meu calção, senão fico pelado aqui. Então levei a bordô pra Aparecida do Norte. Ficou na sala dos milagres”, conta Jorge, que completa sobre o jogo na Javari, no decorrer do campeonato.

“Veio a benção da mãe. Fomos abençoados em sermos campeões brasileiros da Taça de Prata. Abriu meus caminhos para que fossem conquistados os meus objetivos.”

Quem?

Nascido 28 de maio de 1954, em Nova Lima (MG) Jorge foi parte da geração de jogadores com cabelo afro na série Ping Pong Cards. Uma geração que hoje é chamada de “cult” no futebol. Anos depos do nascimento, morava em São Paulo, no bairro do Jabaquara.

Começou a jogar bola na Portuguesa paulista. Também atuava no futebol de salão do São Paulo. Até que a sorte surgiu em Minas Gerais.

“Foi em jogos contra Uberaba, Palmeiras e São Paulo. Eu me saí bem lá e o Uberaba Esporte me contratou”, conta. “Do Uberaba eu vim fazer uma avaliação no Londrina.”

Foi o início do sonho do garoto Jorge, que recebeu a primeira oportunidade na Lusa. “Fui fazer um teste na Portuguesa. Fiz um treinamento razoável. No segundo treino marcado, eu fiz um treino muito bom. Pediram documento para que fizesse identidade para disputar o Campeonato Paulista. Pra gente a alegria era tanta de fazer um teste, passar na Portuguesa. E também já tinha convite pra fazer no Corinthians, mas eu não fui no Corinthians. Fui na Portuguesa, tive a felicidade de jogar na Portuguesa. Foi em 70, mais ou menos. 72, 73 mais ou menos.”

No Londrina, Jorge ficou famoso pelo apelido de “Rei do Treino”. Era incansável nesse aspecto e passou por situação que podem ser trágicas ou engraçadas.

“Estava no hotel fazendo um abdominal. A camareira abriu aporta e pegou eu no ‘hof hof’ (meio que gemendo). Aí a camareira disse: ‘gemido esquisito’. E eu fazendo abdominal, que eu gostava de treinar. Treinava no hotel, treinava no quarto. Eu queria era vencer, posso dizer que venci”, conta o ex-goleiro do Londrina, sobre o dia em que pensaram que ele estava fazendo situações obscenas.

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