Patrick Roland John, a pior pessoa possível que poderia virar (e virou) dirigente no futebol

Imagem: Reprodução, via WINN FM
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Pense no pior dirigente esportivo que você conhece ou conheceu. Naquele que não teria a menor condição de organizar nem mesmo um par ou ímpar contra o espelho.

Pensou?

É aquele presidente de clube, né? Não? Então é aquele lá que era da CBF, certo? Ou aquele da Fifa? Só pode ser aquele da Fifa!

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Houve gente pior, acredite. Muito pior.

Patrick Roland John foi eleito presidente da Associação de Futebol de Dominica (DFA) em 1992, ficando no cargo até 2006. Derrotado em eleições da entidade, foi novamente eleito em 2008. Mais tarde, em 2012, acabou expulso por envolvimento no escândalo de corrupção da União Caribenha de Futebol (CFU), denunciado por um esquema de compra de votos a favor de Mohammed bin Hammam em eleição à presidência da Fifa um ano antes.

Ao longo de todo este período à frente da DFA, é bom que se diga, Patrick John conseguiu um grande feito: afiliar o país caribenho à Fifa, em 1994. E só. A seleção masculina local jamais passou perto de disputar uma Copa do Mundo e nem disputou uma Copa Ouro. Entre 1994 e 2021, conseguiu só disputar duas vezes a Copa do Caribe – e não venceu nenhum jogo.

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Mas não é apenas isso que fez de Patrick Roland John o mais inapto dos dirigentes esportivos. O que fez de John um dirigente esportivo ruim é o fato de ele ter sido uma liderança ruim em todos os segmentos nos quais se envolveu durante mais de 80 anos de vida. Não por incompetência, registre-se. Poucas pessoas seriam tão contraindicadas a um cargo como ele em qualquer entidade que reunisse mais de uma pessoa.

Legalização de assassinatos

Patrick Roland John nasceu em 7 de janeiro de 1938 na cidade de Roseau, capital de Dominica. Jogador de futebol na juventude, galgou degraus rapidamente fora do esporte. Na política, foi eleito prefeito de Roseau em 1965, aos 27 anos. Cinco anos depois, entrou para o Legislativo local pelo partido trabalhista local, base de apoio do premiê Edward Oliver LeBlanc.

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Imagem: Reprodução

Embora fosse bastante popular entre os eleitores, o socialista LeBlanc surpreendeu ao renunciar ao cargo em 1974, aposentando-se da política. Patrick Roland John, que já havia chefiado diversos ministérios a essa altura, assumiu o cargo.

John foi o premiê de Dominica de 28 de julho de 1974 a 2 de novembro de 1978. A partir da independência do país ao Reino Unido, em 3 de outubro de 1978, passou a ser o novo primeiro-ministro (conforme nova Constituição) até 21 de junho de 1979.

Durante o período à frente do país insular, Patrick Roland John se mostrou um líder extremamente impopular. Já em 1974, aprovou uma legislação contra “sociedades proibidas e infiéis”. O principal alvo: o movimento Rastafári, de vertente socialista e contrária ao catolicismo, que vinha se popularizando entre jovens de baixa renda desde o início da década.

A lei permitia a prisão sem mandado de pessoas com dreadlocks no cabelo, sem fianças e com manutenção em cárcere por até 48 horas sem acusação. Ruim? Pois é pior: a legislação ainda proibia processos e acusações contra qualquer pessoa que agredisse e/ou matasse – é isso que você leu – uma pessoa com dreadlocks dentro de casa. Em resumo, legalizava o assassinato de adversários.

Patrick Roland  John deixou o cargo após inúmeros protestos, mas a lei só caiu em 1980, quando Eugenia Charles era a primeira-ministra. Mas calma, a história de John não acabou – e piora.

Golpe de Estado com a Ku Klux Klan

Fora do gabinete de primeiro-ministro e sem vaga no Legislativo, Patrick Roland John poderia ter se afastado da política. Mas tentou voltar ao poder em 1981 da pior maneira possível.

Em 27 de abril de 1981, nove pessoas foram presas em Nova Orleans (EUA) com armas de grosso calibre e uma bandeira nazista, acusados de planejarem um golpe em Dominica. Era a chamada Operação Red Dog, orquestrada por integrantes da Ku Klux Klan para tentar recolocar Patrick John no poder. Os planos, segundo os envolvidos, já eram traçados desde 1979.

Inicialmente, John seria colocado como primeiro-ministro como um testa de ferro dos supremacistas brancos, que esperavam instalar cassinos, bordéis e bares em Dominica. Em caso de sucesso, o grupo cogitava posteriormente invadir Granada e tentar iniciativas semelhantes.

O plano não deu certo porque um dos organizadores tentou alugar um barco nos Estados Unidos para o golpe – e, no aluguel, anunciou que a embarcação seria usada para tentar tomar o poder de um país no Caribe. Obviamente, a trama foi denunciada às autoridades norte-americanas.

Enquanto isso, em Dominica, um militar – apoiador de Patrick Roland John – que havia sido preso pediu a um carcereiro para passar um bilhete a outro detento. O agente que recebeu a nota fez o óbvio, abrindo-a para ler. O papel continha detalhes do plano do golpe de Estado, que também foi denunciado.

Patrick Rolland John estava entre os presos pela tentativa de golpe de Estado. Ele chegou a ser inocentado em um primeiro julgamento, mas acabou submetido a um novo julgamento após apelação. Em 23 de julho de 1985, John foi condenado a 12 anos de prisão.

Posteriormente, o ex-primeiro-ministro acabou perdoado por Eugenia Charles (que ocupou o cargo entre 1980 e 1995). Assim, John deixou a prisão em 29 de maio de 1990.

Ah, sim: o futebol

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Imagem: Caribbean Elections

Passado tudo isso, Patrick Roland John decidiu se afastar da vida pública, certo? Errado: virou dirigente esportivo, possivelmente levado pela citada ligação com o futebol na juventude.

Como dito, o período de quase três décadas de John à frente da DFA não foi de bons resultados em campo. Pelo contrário: o nome dele ficou mais marcado pelo envolvimento no escândalo da eleição presidencial da Fifa em 2011.

Em maio de 2011, a Associação de Futebol das Bahamas denunciou um esquema de compra de votos para a eleição da Fifa que colocaria Mohammed bin Hammam na disputa com Joseph Blatter. Bin Hammam acabou oficialmente denunciado junto ao comitê de ética da entidade e abdicou da candidatura.

Diversos integrantes da União de Futebol do Caribe receberam ofertas de propinas para votar a favor do então candidato qatari. Dezenas de dirigentes de diferentes países foram receberam punições, que foram de advertências ao banimento do futebol.

Patrick John foi um dos penalizados, banido do futebol por dois anos e recebendo uma multa de 3 mil francos suíços – pouco mais de R$ 16,9 mil em valores de setembro de 2021.

Em novembro daquele mesmo ano, John tentou apelar da pena, dizendo-se surpreso com o gancho e criticando “considerações irrelevantes” que a Fifa levou em conta para puni-lo.

“Nos últimos 30 anos, eu fui condenado, embora tenha sido subsequentemente perdoado pela Presidência da Comunidade de Dominica, e servi apenas quatro anos de uma sentença de 12 anos”, alegou. “Decidi recorrer a respeito desta questão e, para tal, minha defesa deu início ao processo.”

O recurso fracassou. Para piorar, uma votação em 2012 decidiu banir Patrick Rolland John também da presidência da DFA – seu mandato iria até 2015. Foram 24 votos a favor da decisão, contra apenas sete em defesa do dirigente.

Patrick Roland John morreu 6 de julho de 2021. Ele estava internado no Dominica China Friendship Hospital e tinha 84 anos. Seu filho, Renick John, descreveu o pai como “um dominicano patriota” e um “esportista por excelência”. Hoje, a sede da DFA leva o nome de Patrick John Football House.

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