Parece campeonato interclasses: uma tarde na Liga dos Campeões da Oceania

0 243

download (4)A Oceania está para o futebol como o Brasil está para o rúgbi (ou, pensando bem, até um pouco abaixo). Como esperar outro cenário de um continente composto por nações minúsculas e tão isolado do resto do mundo? Não é absurdo comparar a Liga dos Campeões da Oceania a um torneio interclasses, como a Olitec, o campeonato interno do Colégio Cetec, na zona sul de São Paulo, onde o meu time (1° colegial A, depois 2° A e 3° A) sempre perdia para a Sala B nas finais, por mais que evoluíssemos ano a ano e tenhamos chegado tão perto de mudar a escrita naquela decisão de 2005.

Na Oceania, o Auckland City é o 3°B. Levanta o troféu a cinco edições seguidas, embora certas vezes precise de pênaltis ou gols no final para confirmar a supremacia. Impossível ser mais parecido com o 3°B – quem acompanhou a final da Olitec 2005 sabe do que falo.

Lembrar que esse mesmo Auckland City, em 2014, foi terceiro do Mundial de Clubes e quase enfrentou o Real Madrid equivale a imaginar o melhor time do meu pequeno colégio medindo forças com o campeão brasileiro. É surreal. A realidade do futebol da Oceania não corresponde ao tamanho desse feito.

A fase final da Liga dos Campeões de 2016 reúne 12 times (dois de Nova Zelândia, Fiji, Nova Caledônia e Papua-Nova Guiné; e um de Vanuatu, Ilhas Salomão, Samoa e Taiti). Eles se enfrentam no QBE Stadium, em um subúrbio 40 minutos distante do centro de Auckland, buscando a taça que levará o melhor deles  ao Japão no final do ano.

large-original-39365

Uma Liga dos Campeões alternativa
O novo formato (que concentra todos os jogos em uma mesma sede) economiza calendário e viagens, mas dá um ar ainda mais amador ao campeonato. Para atrair público, os organizadores abrem mão de cobrar por ingressos. Não há nenhuma bilheteria aberta próxima aos portões, apenas um pedido por moedas para ajudar as vítimas do ciclone que destruiu as Ilhas Fiji.

Mesmo a custo zero, poucos em Auckland se interessam pelo maior torneio futebolístico do continente. Cheguei ao estádio meia hora antes do início e fui o segundo torcedor a entrar. Ao me recepcionar, uma falante guarda admitiu o tédio: “nos últimos dias (as duas primeiras rodadas da fase final) não passaram nem cem pessoas por aqui”.

Apesar da chuva, a rodada dupla deste domingo naturalmente atrairia público maior, afinal finalmente o Auckland City estrearia. Para minha surpresa, no entanto, de aproximadamente 300 pessoas mas arquibancadas, talvez metade estivesse lá para para apoiar o Solomon Warriors, adversário da equipe da casa.

Um torcedor com a bandeira das Ilhas Salomão foi o terceiro a chegar, acompanhado de seis amigos. Era Steneth Kaniki (foto no topo do post), estudante de direito que alugou uma van para sair de Hamilton, a uma hora e meia de estrada, e motivar seus compatriotas.

Kainiki, como típico salomônico, ama futebol e mostra que nesta parte do mundo a mística brasileira segue preservada: “você é brasileiro? Eu conheci um professor de futsal brasileiro nas Ilhas Salomão, vocês são os melhores. Quando perderam de 7 a 1 foi um dos dias mais tristes para mim, mas não vou deixar de torcer por vocês! As cores das nossas bandeiras são as mesmas”.

Torcida organizada do Auckland City (com sua nova bandeira) aguarda a abertura do portão ao lado dos fãs do Solomon Warriors
Torcida organizada do Auckland City (com sua nova bandeira) aguarda a abertura do portão ao lado dos fãs do Solomon Warriors

Enquanto ele estendia a bandeira das Ilhas Salomão, de cores tão familiares, chegava ao estádio um torcedor do Auckland City, também com sua flâmula. Era John Palethorpe, o líder da ” torcida organizada” do clube neozelandês, que me deu carona há alguns meses, quando estive em meu primeiro jogo na Nova Zelândia.

Palethorpe me reconheceu e mostrou, orgulhoso, seu novo apetrecho: uma bandeira do Auckland City, que sua mãe mandara fazer na Escócia. “Não existe para vender essa bandeira, foi o melhor presente de todos”, comentou, com brilho nos olhos. Na hora, fui tomado pela inveja – nunca tive uma bandeira do meu time no campeonato interclasses.

Afugentei um time da Papua-Nova Guiné?
Maldade à parte, naquele instante o que senti foi orgulho de estar ali. Em que outro estádio do mundo eu encontraria histórias mais puras de amor ao futebol? Mandar fazer a bandeira do próprio time ou alugar uma van para assistir a um jogo. Na Oceania, onde o esporte engatinha, esses gestos ganham ainda maior dimensão.

Outros grupos de pessoas chegavam, muitos claramente compostos por familiares dos jogadores do Auckland City. Um pouco antes do apito inicial, cerca de quinze atletas do Lae City Dwellers, time da Papua-Nova Guiné que jogaria mais tarde, sentaram próximos a mim. Tentei conversar com três deles, mas, tímidos e pouco acostumados a uma abordagem “jorrnalística”, me pediram que aguardasse a chegada do técnico para fazer perguntas.

Equipe de Papua-Nova Guiné fugiu da entrevista?
Equipe de Papua-Nova Guiné fugiu da entrevista?

Concordei e fui ao banheiro. Quando voltei, todos tinham ido embora. Será que a minha tentativa de entrevista foi responsável por afugentar um time de futebol? Não tive como descobrir o motivo da saída, mas que foi estranho (sentarem como se fossem assistir ao jogo e cinco minutos depois sumirem), isso foi.

Confuso, vi minhas tentativas de pinçar personagens falharem uma segunda vez. Ao encontrar um senhor com a camisa do Tefana, do Taiti, tentei puxar assunto sobre o inacreditável gol contra do goleiro Roche, grande cena do torneio até aqui. Mas ele respondeu em uma língua que soou como dialeto polinésio, restando a opção de rirmos juntos da nossa impossibilidade de comunicação.

Os favoritos e os duelos que gostaríamos de ver
O jogo começou e sentei perto da “torcida organizada” do Auckland City, seis amigos que faziam sua voz ecoar em todo o estádio. Apesar de numerosos, os torcedores do Solomon Warriors se manifestaram apenas nos raros ataques do time. A posse de bola foi toda neozelandesa, mas sem nenhuma grande chance, justificando o 0 a 0 do primeiro tempo.

Para analisar a partida, ninguém melhor que Edward Lyons, o fanático torcedor do Auckland City que também entrevistei no meu primeiro artigo sobre o time. Ele segue a equipe até em partidas fora de casa e mostrou confiança de que estará no Mundial de Clubes deste ano. “Vamos ganhar e estaremos outra vez no Japão. Minha mulher já está até aprendendo japonês”, brinca.

Lyons é uma enciclopédia do futebol da Oceania. Apontou o destaque de cada equipe e disse torcer por dois duelos (improváveis) na segunda fase: Suva x Nadi, o clássico de Fiji que opõe a cidade grande contra a praia (uma rivalidade bastante forte no país, segundo consta) e Auckland City x Kiwi FC, de Samoa, promovendo um histórico duelo entre o meia Clayton Lewis e o seu pai, Barry Lewis.

Para ele, o título deve ficar novamente na Nova Zelândia, entre Auckland City ou Team Wellington, o novo campeão nacional. Porém, Hekari (Papua-Nova Guiné) e Amicale (Vanuatu) podem surpreender, especialmente o segundo, que montou um time recheado de estrangeiros de países importantes, como italianos, argentinos, ingleses e… um brasileiro, o zagueiro Diego Galvão.

Sem dúvidas, o clube vanuatense é a grande ameaça para o City no Grupo C da competição. Isso explica a vibração de Lyons no segundo tempo, quando, sem muito esforço, a equipe de Auckland conseguiu encaixar seu jogo e fez 4 a 0 no Solomon Warriors, garantindo um bom saldo de gols.

Reencontrei o fanático Edward Lyons (na foto, agitando a bandeira feita pela mãe de John Palethorpe)
Reencontrei o fanático Edward Lyons (na foto, agitando a bandeira feita pela mãe de John Palethorpe)

Um brinde à vitória
Minha ideia original era também acompanhar Amicale x Lae City Dwellers, porém, o carisma dos fãs do Auckland City acabou mudando meus rumos. A “torcida organizada” me convidou para beber uma cerveja no intervalo antes do segundo jogo, apenas um brinde à vitória.

Fui mais inocente que um zagueiro das Ilhas Salomão! Perdi o jogo (vencido por 3 a 0 pelo Amicale, com dois gols de Dickson, refugo do City), mas o bar valeu muito a pena.

download (5)Analisamos a fundo a partida e o consenso foi que o time neozelandês deveria ter jogado com mais vontade. O momento do futebol brasileiro, o talento de Romário, o boicote dos países africanos contra a Nova Zelândia nos Jogos Olímpicos de 1976, o documentário 82 and All That… Todos esses temas passaram pela nossa mesa, inclusive algumas piadas sobre o “bambi” no distintivo do AS Magenta, de Nova Caledônia, um dos mais exóticos times do torneio.

Com ingressos caros, violência entre torcidas, atletas popstars, pay-per-view e outros fatores, todos ainda bem distantes da Oceania, nem sempre o futebol pode nos proporcionar tardes tão singelas como a que desfrutei em Auckland neste domingo.

Guardarei esses momentos para sempre com carinho, bem ao lado das melhores lembranças da minha época de interclasses.

Você pode gostar também
Comentários
Carregando...