Os três pênaltis que salvaram o goleiro Montanha

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Quem acompanha os jogos do Linense no estádio Gilbertão já está acostumado com um show do intervalo diferente. É nessa hora que o goleiro Montanha faz seu Desafio dos 3 Pênaltis: se ele defender as três cobranças, o cobrador deve doar uma cesta básica a uma entidade beneficente. Porém, se os chutes entrarem, é Montanha quem tem que fazer a doação.

Uma boa ação que é simples, engenhosa e que deu muito certo. Tão certo que diversos famosos já participaram do desafio ou já gravaram vídeo apoiando a causa. Uma ideia que, segundo Thiago Coutinho, seu nome de batismo, nasceu do nada.

“Eu e um colega meu fazíamos vídeos de chute a gol, com ele chutando a bola em mim. Mas isso era só por diversão mesmo, depois a gente separa uma defesa minha ou um chute bonito para postar no Facebook”, conta Montanha.

“A gente fazia isso em um campo municipal aqui em Cafelândia (SP), então tive uma ideia: chamar as pessoas que frequentavam o campo para bater três pênaltis em mim. Fiz isso com umas 15 pessoas. Até que o prefeito da cidade na época, se chamava Luiz Otávio, participou do desafio e depois disso a mania estourou.”

Montanha calcula que cerca de 300 participaram só nos primeiros meses do desafio, de outubro a dezembro de 2016, incluindo Zelão (zegueiro ex-Corinthians) e Fausto (atacante histórico do Linense). Mas a coisa ganhou novas proporções quando a Caravana do Globo Esporte SP foi a Lins em 2017 e ele desafiou Caio Ribeiro e Ivan Moré para alguns chutes no meio da rua. A partir dali, o projeto do Desafio dos 3 pênaltis só cresceu.

A depressão

Todo o projeto foi tão despretensioso que Montanha conta que jamais na vida pensou em ser goleiro, muito menos em pegar pênaltis de gente que nunca viu na vida. “Na verdade, na minha infância eu lutava judô”, confessa. “Parei na faixa marrom, inclusive. Futebol só pela TV e de brincadeira com os amigos”.

Porém, não é exagero dizer que o futebol salvou sua vida. Desde 2013, Montanha sofre de depressão. A doença ainda não foi superada, mas o projeto o ajudou a voltar a ter sonhos e objetivos na vida.

“Eu costumo dizer que a minha vida tem duas fases: antes do Desafio dos 3 Pênaltis e depois”, conta. “Antes, não tinha inspiração para nada, não tinha vontade de viver. Chegava dias que eu parecia um zumbi mesmo, só tomando antidepressivo. Ficava o dia bobão, dopadão mesmo”

“Hoje eu sei lidar com ela, mas naquela época, não. Eu me entreguei à depressão. O Desafio dos 3 Pênaltis literalmente salvou a minha vida. Me deu motivos de viver, de criar sonhos, expectativas. Hoje, se eu acabasse com o desafio e parasse de fazer, jamais pensaria em fazer uma loucura como pensava várias vezes antes”.

“Se você me pergunta: a depressão ainda afeta sua vida? Não vou dizer que não afeta. Tem dia que acordo triste, que fico chateado, mas hoje não penso mais em fazer loucura. Não vou dizer que não tenho características de um depressivo, tem coisas que me abatem fácil. Mas já faz uns dois anos que não tomo remédio.”

Sonhos, Peter Cech e Arena Corinthians

Em 2017, quando o Desafio ainda estava no começo, um jornalista da TV TEM (afiliada da Rede Globo no interior de São Paulo) perguntou qual era o objetivo do projeto. Montanha não tinha uma resposta para essa pergunta, tudo aquilo era uma diversão para ele. Então ele teve que inventar algo na hora e saiu: “Quero chegar no Rogério Ceni”.

“Sou nascido em Lins, então acompanho o time desde criança, mas meu clube de coração é o Corinthians. Até poderia falar que meu sonho era chegar no Cássio. Mas Cássio batendo o pênalti, ele nunca chutou uma bola. Por isso, o lance do Rogério Ceni foi uma ‘criação’”, diz.

Esse sonho-que-não-é-bem-um-sonho foi realizado em 2018, quando o Fortaleza foi enfrentar a Ponte Preta em Campinas (SP) pela Série B. Ele falou com o presidente do Fortaleza pedindo um vídeo e a coisa escalou de tal forma que ele acabou indo ao CT do São Paulo, onde o time estava concentrado, e conseguiu enfim fazer o Desafio dos 3 Pênaltis com Rogério Ceni. “Inclusive o presidente chutou também”, conta.

Mas perguntado quem é seu grande ídolo do esporte, Montanha não titubeia: é Peter Cech, o hoje aposentado arqueiro tcheco que ficou famoso por vestir um capacete de rúgbi após tomar uma joelhada na cabeça que quase o matou durante um jogo do Chelsea. Em homenagem a ele, Montanha também usa uma proteção semelhante de Cech, embora não precise.

A idolatria pelo ex-goleiro é tão grande que Montanha foi parar em um livro sobre o Peter Cech. Em 2018, ele entrou em contato com a esposa do ex-goleiro, que depois enviou um vídeo de apoio ao projeto. Ciente disso, uma editora que estava montando uma obra em homenagem a Cech o convidou para dar um depoimento.

“Na minha infância, quando eu brincava no gol, sempre me inspirava no Cech. Quando os caras chutavam e eu defendia, gritava “Cech no gol!”

Montanha deixou um recado no livro dedicado a Peter Cech (Arquivo Pessoal)

Fora o sonho de se encontrar com seu ídolo da vida, Montanha tem outra meta na vida: fazer o Desafio dos 3 Pênaltis na Arena Corinthians.

“É um objetivo que criei este ano e que quero realizar ainda este ano. O que eu faço aqui em Lins, quero fazer em um jogo na Arena Corinthians com a torcida.”

Como participar do desafio?

Isso é bastante simples, conta Montanha. Ele está praticamente todo dia no campo municipal de Cafelândia. Outra opção é ir a um jogo do Linense no Gilbertão e pedir para participar do desafio dentro do campo. Ou então, é possível encontrar em contato por meio de seu Instagram.