Bangu campeão do mundo e outros casos de mundiais “alternativos”

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Você sabe dizer quantos títulos mundiais tem o São Paulo? E o Corinthians? E o Bangu? Mas, calma, não responda ainda.

Já falamos aqui no Última Divisão sobre discussões chatas acerca do Mundial de Clubes e sobre como o Wolverhampton malandramente conseguiu se autointitular o primeiro clube campeão do mundo.

O fato é que ainda há muita polêmica com relação aos títulos mundiais de clubes, e a Fifa tem culpa no cartório. A ideia de fazer um torneio de clubes nos moldes do Campeonato de seleções era um sonho antigo, mas que sempre esbarrou em uma série de questões de logísticas e de calendário.

Do tipo, sem os campeonatos nacionais estarem ainda consolidados, como definir os times que participariam do torneio? E quanto às competições continentais? E como proceder com clubes de fora das Américas e da Europa, onde o futebol ainda engatinhava?

A discussão foi brevemente resolvida em 1950, ano da Copa no Brasil. O intuito era de aproveitar o retorno do campeonato mundial de seleções para fazer um torneio com os clubes campeões de cada país que participasse da Copa. E dessa ideia nasceu a Copa Rio Internacional que todos nós conhecemos e que sagrou o Palmeiras como campeão em 1951.

Depois dessa experiência houve outras tentativas de reunir os melhores times do mundo em um mesmo torneio. Tirando a Copa Intercontinental, todas falharam miseravelmente, incluindo a própria Copa Rio. Mas ao menos tivemos alguns casos alternativos pelo caminho.

Rumo a Caracas

No mesmo ano da Copa Rio 1952, a Venezuela organizou o Troféu Marcos Pérez Jiménez, também conhecida pelo singelo nome de Pequena Taça do Mundo de Clubes. Convidado para disputar o certame brasileiro, o Real Madrid deu preferência ao torneio de Caracas.

Diferentemente da Copa Rio 1951, em que havia um critério para a definição dos clubes participantes (que não foi seguido à risca, mas ao menos foi tentado), a Pequena Taça do Mundo contava apenas com times convidados, considerados os melhores de cada continente. A única condição é que o time deveria estar entre os quatro primeiros de suas respectivas ligas.

Disputado em pontos corridos, a edição de 1952 contou com o vencedor Real Madrid, o Botafogo, o Millonarios (COL) e o La Salle (VEN).

Em 1953, nenhum time brasileiro participou, mas tivemos River Plate, Rapid Viena (AUS), Espanyol (ESP) e Millonarios (o time do ballet azul, que tinha Di Stéfano em grande fase, e que só podia ter terminado campeão). Na edição seguinte, Corinthians superou Roma, Barcelona e uma seleção de Caracas; e, em 1955, São Paulo levou a melhor sobre Valencia, Benfica e La Salle.

Recorte do jornal O Esporte (Crédito: saopaulofc.net)

Apesar do domínio europeu nos anos posteriores (só quebrado pela vitória do São Paulo em 1963), o torneio logo perdeu força com a criação da Liga dos Campeões da Europa em 1955, que virou prioridade para os times de lá.

E o nascimento da Copa Libertadores e da Copa Intercontinental em 1960 foram a pá de cal definitiva na Pequena Taça do Mundo, embora o fator violência também tenha contribuído. Em 1963, Di Stéfano, já no Real Madrid, chegou a ser sequestrado por guerrilheiros em Caracas.

Sem o mesmo vigor dos primeiros anos, a edição de 1975 foi a derradeira e viu a vitória da Alemanha Oriental (?) sobre o Boavista (POR), Rosario Central (ARG) e Real Zaragoza (ESP).

Uma curiosidade alternativa: a inspiração para a Pequena Taça do Mundo de Clubes não foi a Copa Rio, mas o Torneio Internacional de Caracas de 1950. Foi uma maneira que a federação local achou para colocar a Venezuela no mapa do futebol mundial.

E o campeão do torneio foi o Clube do Remo, o único time brasileiro (e internacional) da competição, com 4 vitórias e 1 derrota.

O sonho americano

Em 1960, uma nova proposta de reunir vários clubes do planeta aconteceu em terras norte-americanas. O mentor da ideia foi um empresário chamado William D. Cox que queria apostar no potencial do futebol na terra do Tio Sam.

Usando a estrutura do American Soccer League, ele conseguiu reunir 11 clubes estrangeiros mais o New York Americans para um torneio de verão em Nova York e Nova Jersey. O nome não era dos mais criativos: International Soccer League.

Diferente de muitos outros torneios internacionais daquela época, esse teve a benção da Fifa. A entidade máxima do futebol queria de todas as maneiras sabotar a recém-criada Copa Intercontinental, organizada pela Conmebol e UEFA e vista como um obstáculo no sonho de montar um mundial de clubes para chamar de seu. O homem por trás dessa jogada era Stanley Rous, então vice-presidente da entidade e um dos cabeças da Copa Rio.

A fórmula de disputa consistia em dois grupos de seis times jogando entre si. Os melhores de cada grupo iriam para a grande final. Em um lado estava Kilmarnock (ESC), Burnley (ING), Nice (FRA), NY Americans, Bayern de Munique (ALE) e Glenavon (IRL); e do outro Bangu, Estrela Vermelha (IUG), Sampdoria (ITA), Sporting (POR), Norrkoping (SUE) e Rapid Viena (AUS).

Crédito: FutRio

Kilmarnock e Bangu fizeram praticamente a mesma campanha, com 4 vitórias e um empate, e avançaram de fase. Os dois times compartilhavam uma história semelhante: Bangu foi convidado por ter sido vice-campeão carioca de 1959 (o campeão Fluminense preferiu disputar o Torneio Rio-São Paulo). E Kilmarnock foi vice do último Campeonato Escocês. Ambos estavam com sede de título.

No confronto, Bangu bateu o Kilmarnock por 2 a 0, com gols do atacante Valter. O prêmio de melhor jogador do torneio, batizado de Eisenhower Trophy, foi para o jovem divino Ademir da Guia.

O sucesso da primeira edição fez com que a International Soccer League durasse até 1965. Em 1961, tivemos Dukla Prague, da Tchecolosváquia, se sagrando campeão em cima do Everton, e Valter eleito o melhor jogador da competição.

Na temporada seguinte, o representante brasileiro foi o América-RJ, que bateu o Belenenses de Portugal na grande final. Em 1963, West Ham venceu o Gornik Zabrze (POL), com o zagueirão Bobby Moore ganhando o prêmio de destaque da competição. O Sport Recife foi o time convidado dessa edição.

Em 1964, o Bahia decepcionou e não conseguiu uma vitória sequer. O título ficou com o Zaglebie Sosnowiec, da Polônia, após vencer o Werder Bremen (ALE).

E na última edição do torneio, que já estava esvaziada e contava com apenas 9 participantes, a Portuguesa de Desportos deixou a vaga para a final escapar por pouco, terminando com 8 pontos contra 9 do New York Americans. Mas o fator casa não ajudou os nova-iorquinos e o Polonia Bytom levantou o caneco.

A falta de interesse do público e os prejuízos na organização do evento botaram um fim na International Soccer League. Só que, em 1966, um grupo de empresários tentou uma nova cartada no sonho de popularizar o soccer na terra do football.

A United Soccer Association (ou USA) era uma liga que unia os donos das franquias de esportes norte-americanos com clubes de futebol estrangeiros, que seriam “emprestados” para a competição.

Convidado para participar, o time do Bangu virou o Houston Stars, cujo dono também era proprietário do time de beisebol Houston Astros (já contamos a história desse torneio improvável).

A final ocorreu em 14 de julho de 1967 entre Los Angeles Wolves e Washington Whips, que em um campeonato normal seria o Wolverhampton Wanderers (ING) contra o Aberdeen (ESC).

O público de 17.842 no Los Angeles Memorial Coliseum presenciou uma chuva de gols: 6 a 5 para o time de LA, sendo que o jogo terminou 4 a 4 no tempo normal. Não haveria pênaltis, então, após a prorrogação terminar em 5 a 5, os times jogaram um novo tempo com morte súbita. E logo no início, o lateral escocês Ally Shewan teve a infelicidade de marcar um gol contra.

No final daquele ano, porém, a United Soccer Association se uniria à North American Professional Soccer League (NPSL) de William Cox e juntos formariam a North American Soccer League (NASL). Seria nessa liga que Pelé, Carlos Alberto Torres, Beckenbauer, Johan Cruyff e outros craques viriam a jogar nos anos 70.

O resto do mundo contra-ataca

Os times da Concacaf sempre foram doidos para participar de um torneio mundial de clubes, mas nem a Conmebol nem a Uefa estavam dispostos a abrir espaço a eles. Uma solução encontrada foi a criação da Copa Interamericana em 1969, colocando frente a frente o campeão da Libertadores contra o campeão da Copa dos Campeões da Concacaf. Quem vencesse, em jogos de ida e volta, iria para a Copa Intercontinental enfrentar o campeão europeu.

Só que a tremenda má-vontade da Conmebol e dos times sul-americanos botaram tudo a perder. A segunda edição aconteceu só em 1972, com os times campeões de 1971. Em 1977 e 1979, a competição não foi sequer realizada.

Nas primeiras disputas, os campeões da Libertadores sempre levaram a melhor. Isso mudou em 1978, quando o América do México se sagrou campeão sobre o Boca Jrs. Mas a Conmebol deu um toco y me voy na Concacaf e o Boca foi mantido na disputa da Copa Intercontinental.

No fim das contas, a competição de 1978 acabou nem acontecendo. O Liverpool alegou problemas de agenda, assim como o vice Club Brugge (BEL) e ficou por isso mesmo.

Em 1981, foi a vez do Nacional do Uruguai sucumbir diante de um Pumas dirigido por Bora Milutinovic, e novamente os mexicanos foram barrados de disputar a Copa Intercontinental (que na época já tinha virado Copa Toyota).

Com isso, a Copa Interamericana ficou quatro anos sem ser disputada, retornando em 1986, e perdeu qualquer caráter competitivo, com diversos campeões da Libertadores se recusando a participar, como o São Paulo em 1993. A última edição aconteceu em 1998, com a inesperada derrota do Vasco sobre o DC United, que contava com os bolivianos Jaime Moreno e Marco Etcheverry, além de Bruce Arena na equipe técnica.

O fato é que se nem os norte-americanos conseguiam fazer a roda girar, para os asiáticos e africanos isso era um sonho impossível. Apesar de desde os anos 60 a Fifa tenha prometido organizar um Mundial de Clubes, a ideia só sairia do papel em 2000. Por isso, as confederações locais AFC e a CAF resolveram montar seu próprio torneio intercontinental.

A Copa Afro-Asiática nasceu em 1986 nos moldes da Copa Toyota, com um jogo apenas. Em 1988, eles mudaram a regra para jogos de ida e volta.

Com diversos percalços pelo caminho – como, por exemplo, a não realização da edição de 1999 entre ASEC Mimosas da Costa do Marfim e o Júbilo Iwata do Japão – a competição terminou da pior maneira possível.

Em julho de 2000, na eleição do país-sede da Copa de 2006, os países asiáticos apoiaram a candidatura da Alemanha em detrimento da África do Sul. Os europeus acabaram levando a contenda por apenas um voto de diferença.

Os africanos consideraram a atitude uma traição e isso causou um racha entre as duas confederações. Não apenas a Copa Afro-Asiática foi encerrada como a briga colocou em hiato a Copa das Nações Afro-Asiáticas, disputada entre seleções dos dois continentes.

Quando a Fifa finalmente decidiu que a Copa de 2010 seria na África, os ânimos se apaziguaram. A Copa das Nações Afro-Asiáticos deu um leve respiro em 2007, mas encerrou suas atividades logo depois. Já a Copa Afro-Asiática nunca mais deu as caras após o Mundial de 2005 (e nem precisava mais, essa é a verdade).

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