Os Guaranis e outras tribos do futebol

Mário Quadros
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Por Carlos Meijueiro

Os dois primeiros clubes fundados no Brasil são do ano de 1900: o S.C. Rio Grande (RS) e a A.A. Ponte Preta de Campinas (SP).

Assistindo à aula do Simas sobre futebol, samba e umbanda, em determinado momento, o professor pronunciou as palavras caboclo e bugre, se referindo ao nome que deram aos índios não-catequizados, sinônimo também de selvagem, guerreiro, etc.

Ao escutar tais palavras, me lembrei do Guarani de Campinas, sua cor verde e seu apelido de bugre, tendo como mascote o índio, e me perguntei se existiria alguma relação entre o time e a tribo. Simas rebateu de primeira contando que o clube é fundado por descendentes de italianos e alemães, e o nome Guarani não é em homenagem à tribo, e sim à ópera de Carlos Gomes, nascido em Campinas, por isso a homenagem ao maestro.

Essa jogada me despertou a curiosidade sobre o Guaraní do Paraguai e também sobre a existência de outros times Guaranis nascidos em territórios por onde a tribo Guarani passou caminhando nas terras que hoje são da Bolívia, Paraguai e Brasil.

O famoso Guarani de Campinas é fundado em 1911 e não é o primeiro time Guarani do Brasil. Em 1907 foram fundados dois Guaranys: em Belém do Pará e em Bagé no Rio Grande do Sul. Ainda no RS, em 1909, surge o Guarany de Rosário do Sul, e em 1912 e 1913 aparecem os Guaranys de Alegrete e de Cruz Alta. Em 1911 e 1912 foram fundados os times Tupynambás e Tupi, ambos de Juiz de Fora (MG). Em 1917, novamente no Rio Grande do Sul, surge o Guarany de Cachoeira do Sul.

Em 1920, nasce na Bahia o Guarany de Salvador. Em 1928, em Santa Catarina, surge o Guarani de Palhoças e o Guarani de Blumenau. Em 1929, no Rio Grande do Sul, o Guarani de Venâncio Aires. Em 1930, em Minas Gerais, o Guarani de Divinópolis. Em 1938, aparecem o Guarany de Sobral (CE), o Guarani Saltense (SP) e o Tupy de Vila Velha (ES).

Em 1940, nasce o Guarany de Porto da Folha em Sergipe. No mesmo ano, no Rio Grande do Sul, aparece o Guarani de Garibaldi, e, em 1946, o Guarani de Camaquã. Em 1941, surge o Guarani de Juazeiro no Ceará. Em São Paulo, no ano de 1948, nasce o Guarani de Adamantina.

Na década de 50 e 60 não temos o surgimento de nenhum clube com o nome da tribo Guarani, apenas o surgimento do Tupy de Jussara em Goiás. Existe um Guarani de São Sebastião do Passé na Bahia, mas não encontrei a data de fundação. Em 1971 aparece o Guarani de Pouso Alegre, em Minas Gerais. São pelo menos 20 times com o mesmo nome da tribo.

 

Herança latino-americana

Antes dos guaranis do Brasil, surgiu entre 1903 e 1905, em Assunção no Paraguai, o Club Guaraní. As histórias de fundação do clube são bastante curiosas: conta-se que jovens foram pedir uma bola emprestada no Club Olimpia para jogar uma pelada. Como não tiveram a bola emprestada, decidiram roubá-la, fazendo com que os dirigentes do Olimpia acionassem a policia paraguaia.

A garotada correu em busca de proteção para a casa daquele que seria o futuro primeiro presidente do Guaraní, que recebeu esse nome como forma de homenagear os povos originários das terras do Paraguai. Os apelidos do time são “O Aborígene”, “O Cacique” ou “O Lendário”.

No Chile, em 1925, é fundado na cidade de Santiago o Colo-Colo, cujo nome é uma homenagem ao cacique Colo-Colo, herói indígena do povo Mapuche conhecido por sua grande sabedoria e por sua luta na resistência contra a colonização dos espanhóis no século XVI. O apelido do time é Cacique e o mascote é o Índio.

Em 1932, na Argentina, surgiu o Guaraní Antonio Franco, que também homenageia os povos originários de Misiones. Boa parte dos jogadores de descendência indígena que se destacaram no futebol argentino, tiveram os apelidos de Índio ou Negro.

 

Time índigena

O que a maioria dos times guaranis do Brasil tem em comum é a origem elitista, o índio como mascote e o bugre ou cacique como apelido. O Bugre cearense ou Cacique do Vale, o Guarany de Sobral joga no estádio do Junco ou Juncão e também homenageia a ópera Guarani de Carlos Gomes, baseada no livro do cearense José de Alencar.

Em homenagem ao escritor, dizem que foi assim que surgiu o Guarani de Salvador. O Guarani de Cruz Alta é apelidado de Jequitiba da Serra e manda os jogos no Taba Índia. O Guarani de Porto da Folha é o Galo do Sertão. O Guarani de Camaquã é o bugre camaquense. O Guarani de Palhoça é uma homenagem aos indígenas da região.

Dando um drible ou uma banda nas origens elitistas dos clubes Guaranis do Brasil, observamos o surgimento de times de futebol entre tribos indígenas.

Já em 1928 existem registros de fundação de times de futebol nas etnias Kaingang e Terena. Em 1929, na ilha do Bananal, surgiu o Esporte Clube Índio Carajá. Na década de 40, indígenas do posto Cacique Doble, participavam do time Kaingang Futebol Clube. Em 2009 surgiu o primeiro time indígena do mundo, o Gavião Kyikateje, liderado pelo cacique Zeca Gavião da tribo Kyikateje.

Time este que chamou atenção no cenário mundial, com jogadores de cocar antes das partidas e com pinturas tribais dentro de campo, jogando bom futebol e marcando gols. O lendário artilheiro Aru Sompré era uma celebridade do futebol indígena brasileiro, e assim como o atacante Dener, partiu desse mundo num trágico acidente de carro.

Tamanho era a popularidade do atacante que na internet é possível encontrar material sobre ele, inclusive o ritual de despedida do jogador realizado com familiares e amigos na tribo em que nasceu e viveu. Aru estava em campo com o Gavião de Kyikateje em 2014, quando o time estreou na elite do futebol paraense contra o Paysandu, na Curuzu. O Gavião perdeu para o Papão de 2 a 1, e foi do atacante Aru o gol de honra da tribo Kyikateje, com o corpo pintado de “preto de guerra” e “vermelho de força e vontade”, como ele mesmo explicou.

 

Seleção brasileira dos indígenas

Na década de 90, um parente de Garrincha, Jaime Barbosa da Rocha, liderança da etnia Fulni-ô, começou a negociar com os governantes brasileiros a possibilidade da criação de uma seleção brasileira de futebol indígena. Ideia essa que seguiu em negociação até a segunda década do século 21, em 2012-2013, quando o atleta Thiago Kaiapó, então jogador do Vasco, retomou as negociações da criação de uma seleção brasileira de futebol indígena como possibilidade de participar daquela que seria a primeira Copa América de futebol indígena.

O projeto era que o torneio acontecesse no Brasil as vésperas da Copa do Mundo de 2014, mas o governo brasileiro não apoiou nem a ideia de sediar a primeira Copa América de futebol indígena e muito menos ajudou a construir a seleção brasileira de futebol indígena que disputaria a competição em 2015 no Chile. Os países que participaram com seleções indígenas foram Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai, Bolívia, Peru, México e Equador. O Brasil não participou da competição.

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Escudo Seleção Índigena de Futebol do Brasil (Divulgação/Funai)

Os prováveis titulares da nossa seleção brasileira seriam: Kubirawé arjá (goleiro), A`Slano Xavante e Marquinho Terea (zagueiros), Kaiwá Waiwai (lateral direto), Joãozinho Terea (lateral esquerdo), Canarim Javaé (cabeça de área), capitão Tiago Karajá (meia esquerda), Bebeto Kuikuro (meia direita), Rarapan Kuikuro (ponta direita),Bepkum Kaiapó e Denildon Bororo (centroavante). O técnico seria o servidor da Funai, Carlos Aberto Dias, e o coordenador técnico seria Mateus Terena.

Talvez o vexame histórico pelo qual nosso futebol passou em 2014 tenha sido um recado por conta de mais esse vacilo histórico dos nossos governantes com os povos originários do que chamam de Brasil.

Infelizmente, a edição da Copa América de futebol indígena só aconteceu essa única vez em 2015, e pelo visto no único país disposto a investir no projeto, tendo em vista que o Chile desde 2012 organiza uma agenda esportiva intensa junto as comunidades indígenas.

Entre os anos de 2012 e 2015 aconteceu o Campeonato Nacional de Futebol dos Povos Originários do Chile, sagrando-se campeões em 2012 o povo Rapa Nui da Ilha da Páscoa. Em 2013, o título ficou com o povo Huilliche da ilha Chiloé, e, em 2015, a seleção do povo Mapuche ganhou do Aimará, e se consagrou o último campeão do torneio, que desde então não teve nova edição.

O capitão da seleção indígena chilena, German Castro Levio, disse o seguinte quando perguntado sobre a importância de ser capitão desse time: “Orgulho. Esta seleção é formada por quatro povos originários. Já fui capitão da seleção Mapuche, em que somos a maioria. Fizemos uma reunião e me escolheram de novo e é um orgulho representar o Chile e nós estamos nos esforçando em dobro para que as coisas saiam da melhor forma.”

 

Após o tombo, a retomada

No Brasil, no ano de 2019, ocorreram novas investidas lideradas por José Geraldo Tremembé e Vilson Francisco Terena, na tentativa de consolidar a SIFBA (Seleção Indigena de Futebol do Brasil) junto à FUNAI. “Objetivo da seleção é a busca de autonomia própria, no campo da política esportivo indígena (…) a favor dos atletas indígenas das seleções de futebol masculina e feminina”.

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Dirigentes da seleção brasileira indígena em encontro na Funai (Divulgação/Funai)

“Organização do primeiro torneio internacional de seleções indígenas, que provavelmente será realizado em São Gabriel da Cachoeira-AM nos meses de outubro ou novembro deste ano. Os protagonistas serão os povos indígenas”, salienta o presidente da SIFBA. Para o torneiro serão convidadas seleções indígenas da Colômbia, Venezuela e Peru.

“Outros eventos serão realizados conjuntamente pela seleção masculina indígena e a seleção feminina indígena, pela qual existem pessoas responsáveis: as indígenas Marinildes Pires Kariri-Xocó e Ayri Gavião, que irão coordenar a formalização e a convocação da seleção indígena feminina”, destaca.

“A gente reconhece que o futebol é um esporte universal. Chega até nos indígenas semi-isolados, e principalmente os indígenas que estão integrados com a sociedade envolvente. Em cada aldeia existe um time indígena, mesmo jogando com a maior dificuldade, sem chuteiras”, afirma Vilson Terena.

A iniciativa de se constituir uma seleção com integrantes indígenas partiu de representantes dos povos Terena, Tukano, Tremenbé, Xerente, Kariri-Xocó, Mainaku e Gavião. Fundada em 26 de outubro de 2018 na Reserva Indígena Kariri-Xocó, Distrito Federal, a Seleção Indígena obteve o registro oficial do 1º Ofício de Registro Civil no dia 14 de dezembro do mesmo ano.

“Nos próximos dias, vamos formalizar os clubes da comunidade Tucana nos cartórios de registro. E a Seleção Indígena vai apoiar esse procedimento em todos os lugares do Brasil onde houver interesse por parte das etnias. Já temos este compromisso lá no Amazonas, e faremos também no Maranhão, na Ilha do Bananal (Tocantins), Mato Grosso do Sul e Rondônia”, revela Geraldo Tremembé.

“Nós vamos trazer também nossas culturas. Em São Gabriel da Cachoeira são 23 povos, então se fala 23 línguas apesar das fronteiras impostas entre venezuelanos, brasileiros, colombianos. Mas existe uma cadeia cultural de nossa parte porque nós falamos nossas línguas e temos nossos cunhados, e isso simboliza a união de nossas famílias, a integração latino-americana”.

“A Seleção Indígena vai levar através do esporte. Você vê no nosso escudo aquele desenho de cocar: é um uso tradicional dos povos originários. Essa árvore: nós estamos levando uma mensagem de preservação de biodiversidade. A água: a água é vida. Esse marrom é o fortalecimento das Terras Indígenas. Essa é a mensagem que nós estamos levando: o fortalecimento dos Povos Indígenas”, finaliza.”

 

Indígenas no futebol

A nível profissional não foram poucos os jogadores de descendência indígena que fizeram sucesso. Alguns deles como Marcelo Salas, Ivan Zamorano, Marco Etcheverry, Alexis Sanchez, Carlos Valderrama, Paolo Guerreiro, entre outros, não escondem suas origens indígenas.

O zagueiro Elias Figueroa tem papel fundamental no desenvolvimento do futebol indígena no Chile. O lateral Emanuel Beausejour, filho de pai haitiano e mãe Mapuche, foi o primeiro jogador negro na história a vestir a camisa da seleção do Chile num Mundial.

Beausejour luta pela causa dos povos originários e contra o racismo, em certa ocasião foi visto participando de uma manifestação contra a polícia e o governo chileno em decorrência do assassinato de Camilo Catrillanca, liderança do povo Mapuche, morto covardemente por um policial com um tiro nas costas. Em 2018 o jogador afirmou a um canal de televisão que “Ser Mapuche e negro é um orgulho”.

No Brasil temos o volante Paulinho , que jogou no Corinthians, no Barcelona e disputou as Copas de 2014 e 2018. Descendente do povo Xucuru habitante do estado de Pernambuco, já teve apelidos como “Índio Velho” e “Boliviano”.

Isso sem falar no craque Mané Garrincha que, como Simas sempre destaca, é descendente do povo Fulni-ô, e seu avô nasceu e viveu na tribo, que habita o litoral de Pernambuco.

Além deles, podemos destacar a atuação do ex-zagueiro Índio, filho do cacique Zezinho, muito conhecido pelas conquistas com o Corinthians. Nato da tribo Xucuru-Cariri, localizada na pequena cidade de Palmeira dos Índios, a 136 quilômetros da capital Maceió (AL), Iracanã (nome indígena que significa um pássaro e um peixe típico daquela região) começou nas categorias de base do Vitória, da Bahia, aos 17 anos. Se destacou na Dallas Cup – tradicional torneio realizado todo o ano nos Estados Unidos, desde 1980, e disputado por equipes de base de vários países – para voltar do Texas como jogador do Corinthians.

“Um primo meu me levou para fazer um teste no Vitória. Eram 500 garotos e eu passei. Jogava descalço, não tinha nem chuteira, estavam todos calçados e eu descalço. Nessa época jogava de volante. Passei no teste e fiquei por lá. Então, o lateral do time, na época, se machucou, e fui deslocado para a lateral-direita. Fomos disputar um torneio nos Estados Unidos e fomos campeões em cima do Corinthians. De lá mesmo, voltei para o Brasil com a delegação do Corinthians, onde assinei o contrato”, conta.

“Ainda no Vitória, Índio confessa que quando o coração apertou, por conta da distância da família, não pensou duas vezes e retornou para a tribo:

“É verdade. Antes mesmo do torneio dos Estados Unidos. Mas os dirigentes do clube foram lá me buscar, conversaram com o meu pai, perguntaram se eu não queria voltar, prometeram que pagariam um salário legal. Então, eu voltei”, relembra com bom-humor.

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José Sátiro, o Índio, ex-lateral do Corinthians (Reprodução/Twitter)

Depois de aposentado, Índio foi técnico do Gavião Kyiakateje em 2018 e hoje está a frente da proposta de organização do segundo time indígena de futebol para chegar à elite do brasileiro. Em 2020, com ajudas de nomes como Casagrande e Vampeta, está buscando recursos para poder selecionar jogadores de diferentes povos indígenas do estado de Minas Gerais.

Detalhe curioso: não é novidade é que existiram muitos jogadores com apelido de Índio no futebol brasileiro, como é o caso do zagueiro que jogou no Internacional. Mas tem um em especial que precisa ser destacado pois marcou história no futebol sendo o primeiro jogador a usar chuteiras brancas, nos anos de 1975/76: Omar “El Índio” Gomez, ou “El indio de los botines blancos”, como ficou conhecido não só pelo bom futebol.

No início de 2020, o Flamengo assinou contrato com uma jovem promessa indígena brasileira, que desde os 12 anos busca espaço na elite do futebol, é o jovem Vinicios Urissapa Ianamaka Kamaiura, neto do cacique Tabata Kuikuro, nascido no Parque Nacional do Xingu, próximo a Canarana, indígena da tribo Kuikuro do Mato Grosso.

Seu nome de jogador é Vinicios Índio. E me pergunto, se caso vendido para fora do Brasil um dia, seria bonito ver o nome original de sua tribo nas costas da camisa, e imaginar seus parentes em diferentes campos usando as camisas com seu nome, sujas de terra de tanto bater pé e correr atrás de bola.

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Vinicios “Índio” Kamaiura, jogador da base do Flamengo (Divulgação)

Campeonato raiz

Como vimos anteriormente, parece longo e distante o caminho para a oficialização de uma Copa do Mundo dos Povos Originários , sediada no Brasil, com apoio desse governo que não gosta de diferenças. Para a realização de um campeonato nacional de futebol indígena, como aconteceu no Chile oficialmente, também dependeríamos do apoio dos governos brasileiros para colaborar com recursos para infraestrutura de deslocamento e manutenção das equipes e atletas.

Enquanto a oficialização de um evento desse porte não acontece, existe de ponta a ponta do Brasil a organização de campeonatos locais de futebol indígena. Existe a Copa das Árvores no Acre, que ostenta o lema “Essa Copa tem raízes”, e reuniu mais de 13 etnias indígenas da região e tribos indígenas de fora do estado, na sua edição em 2014.

“O povo Kuntanawa é quem está tomando conta organização do torneio e essa Copa não envolve apenas as tribos indígenas, mas todas as etnias, com a proposta de discutir políticas para os povos tradicionais, sejam indígenas ou não”, explica Rachel Moreira.

“A Copa das Árvores é mais que apenas um festival indígena. O objetivo é discutir o conhecimento indígena, abordando o Povo Kuntanawa. Propõe que hajam discussões na casa dos saberes, abordando a sustentabilidade, cultura, ambiente, espiritualidade e medicina, além da valorização e manutenção das manifestações tradicionais das comunidades extrativistas e indígenas”

Na Edição do Torneio da Floresta em 2013, a atacante Rose Kaxinawa se destacou como artilheira, campeã pelo time de sua aldeia Parowa.

Caso um dia aconteça o tão sonhado campeonato nacional de futebol indígena, já existe uma modelo de sucesso pronto para dar base ao projeto. Se trata do Campeonato Peladão, que tem início em 1973 e até hoje é o maior campeonato de peladas do Brasil e envolve os estados do Amazonas, Tocantins e Mato Grosso.

Em 2005, dentro do campeonato Peladão, é criada uma copa que envolve apenas times organizados por tribos e etnias indígenas, aceitando apenas descendentes dessas culturas. Durante os seis meses, mais de 60 campos são utilizados. O Peladão já chegou a reunir 800 times somente na categoria principal do torneio mais disputado do mundo. Em 1998, um total de 630 equipes participaram do Peladão. Para se ter uma ideia do crescimento do torneio, ano de 2008 foram 1.209, recorde absoluto do maior do mundo. Em janeiro de 2009, o Estádio Vivaldo Lima deu vez e espaço para um público de 42.608 espectadores, esse número foi contabilizado somente para as pessoas que se acomodaram nas cadeiras.

O campeonato tem canal de comunicação próprio, lota estádios e joga a final no Estádio de Manaus. No ano de 2020, foram mais de 450 times inscritos, tanto masculino quanto feminino. O time de Futebol Indígena do Rio Negro, conta com jogadores das etnias Desana, Baniwa, Baré, Tuiuca, Tariano e Tukano, que participaram nas edições de 2015/16, e tentam voltar a elite do futebol indígena brasileiro liderados por Jaime Diakara.

“Estamos aguardando a liberação perante os Municípios e o Governo do Estado de Mato Grosso, para iniciar o maior campeonato de futebol amador do Centro-Oeste, o Peladão. O Peladão está tudo ok, premiação ok, bolas ok, as 475 equipes ok, os polos de Cuiabá, Várzea Grande, interior, está tudo pronto para começar. Infelizmente, devido à Covid-19, vamos mudar mais uma vez a data do Peladão. Fizemos uma nova programação, mas não vamos divulgar, não vamos criar expectativa de data, de início, de término. Quando a Covid-19, e os decretos estaduais, municipais, autorizarem a gente dar início ao Peladão, nós seremos o primeiro a dar o pontapé inicial”

São 475 times de 18 municípios, e 12 times na lista de espera caso aconteçam desistências. O retorno dos jogos foi remarcado para o mês de setembro, mas diante do cenário da pandemia, corre riscos de adiamento. O que o Ministério Público não conseguiu adiar, mas gerou alguma polêmica, foi a realização de um campeonato indígena de futebol na aldeia Numunkurá, da etnia Xavante em Cuiabá no Mato Grosso. O MP tentou impedir o evento que estava autorizado por anciões, fazia parte do calendário festivo da aldeia e reuniu mais de mil pessoas, em maio de 2020.

O MP quis abrir uma investigação contra as lideranças Xavantes. Uma resposta oficial veio por parte do cacique Simão Butsé, em documento feito junto a oito anciões, destinados ao MP: “Essa decisão dos ‘velhos Xavantes’ precisa ser respeitada pelo órgão. A Covid-19 é uma doença ‘dos não indígenas, dos brancos e corruptos”, diz o documento. “Justifico ainda Vossa Senhoria Excelência [o MPF], as comunidades das 13 aldeias fizeram decisão e de acordo, para não cancelar essa cerimônia de festa tão muito grande, não é só os jogos, por peço a gentileza para não preocupar com o A’uwe Upatabi Xavante, confie em primeiramente a Deus [sic]”, afirma o documento.


LINGUAGEM DO FUTEBOL INDÍGENA

Ini-Ta-Gol = Gol

Iapa Nhapitsara = Vamos, homens

Iapa Waima = Vamos, mulheres

Iapa ini laptsara Iruá = Vamos lutar para ganhar, parente

Iaptsara Quêchi = Tá dormindo em campo (Tá muito mole)

Miricua = Delegado, quem não toca a bola

Iapa Atawaria = Ficou com as penas do frango

Nhaptsara Iurupaki = Levou um drible bonito

Iapana = Jogador rápido

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