Onofre e o Bangu: uma história de amor(es)

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Por Luciano Borges*

Minha primeira vez no Rio de Janeiro foi em 1982. Eu trabalhava na TV Gazeta, repórter vesgo do jornalismo e do esporte, bilíngue. Porque falava inglês, fui mandado a um seminário organizado pela Deutsche Welle, TV estatal alemã, que queria vender alguns programas e conteúdos para emissoras do Brasil.

O encontro durou dois dias. Todo mundo hospedado no Meridien, hotel no Leme que, quando não havia pandemia, marcava a passagem de ano com uma cascata de fogos de artifícios na fachada que dava para a praia.

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No primeiro dia, assistimos vários vídeos, analisamos e conversamos. Não batemos palmas. Uma moça de nome alemão (sentiram que não lembro dele) – Regina – ensinou os brasileiros que o negócio era dar soquinhos na mesa. Novidade cultural. Passa o programa de turismo, e os tupinambás ali, ó: “toc toc toc”. E fomos dando toques para a comitiva tedesca.

De noite, um jantar estava programado para quem não era visitante do Rio. Mas eu, 24 anos e serelepe, decidi andar pela orla carioca e ver os nativos. Saí umas oito e meia da noite. Caminhei pela praia do Leme. Depois, Copacabana até lá no Forte. Virei à direita, conheci o Arpoador. Segui por Ipanema e cheguei no Leblon. Perguntei para alguns locais onde ficava o Baixo Leblon, que ouvia falar por ser “point” e ter uma tal Pizzaria Guanabara. Segui as indicações e, de fato, o cruzamento onde ficavam chopp e pizzas estava cheio de gente.

Gostei, puxei conversa e fiquei por lá até umas 23h30. Resolvi voltar de ônibus. A verba era curta para táxi. Me derem uma diária contada porque, afinal, a alimentação era por conta dos alemães.

Me indicaram uma linha de ônibus. Peguei o coletivo que era quase individual naquele horário. Motorista, cobrador, passageiro e eu. O ônibus entrou na Av. Nossa Senhora Copacabana. Parou no semáforo. O motorista perguntou em voz alta para o cobrador: “E meu Bangu, ganhou?”. O Bangu encarou o Flamengo naquela noite (pode ter sido outro grande, mas prefiro lembrar que foi o rubro-negro). Jogo bom, que o cobrador esqueceu de ouvir no rádio. “Sei não. Estava escutando música”, respondeu.

O motorista não teve dúvida. Parou o veículo na porta de um bar. Assim, sem nos consultar. Saiu da cadeira, abriu a porta da frente, desceu até o bar e descobriu que o time do coração tinha vencido o (?)Flamengo. Aí ele se empolgou, riu alto, levantou os braços e ficou conversando com dois clientes que estavam no balcão. Eu estava de costas, meio de lado, para a janela do ônibus. Quando olho para a direita, o motorista estava abrindo uma garrafa de cerveja. Ele encheu o copo americano dele e os outros dois dos novos amigos. O cobrador, lá na roleta, sentado com cara de paisagem. Devia estar acostumado.

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Já passava da meia noite quando deu uma luz no motorista. Ele pousou o copo no balcão, entrou pela porta da frente, subiu dois degraus e disse para os dois passageiros olhando mais para este paulistano que sentou mais à frente: “Desculpem a animação, mas meu Bangu fez um feito histórico! Preciso comemorar!”.

E emendou: “Estão vendo aquele ponto ali no começo do próximo quarteirão? Então, vocês por favor, vão até lá e quando passar o próximo ônibus, vocês entram pela porta da frente. É só falar que o Onofre pediu porque deu problema no ônibus”.

Onofre. Nem perguntou se a gente topava tocar a mentira adiante.

Descemos. Caminhamos até o ponto. 00h30 de uma quinta-feira. Nada de passar o próximo ônibus. O outro passageiro perdeu a paciência, mandou um “Foda-se” e saiu andando. Eu, que nada conhecia – exceto que havia uma loja de discos chamada Modern Sound na Barata Ribeiro (mas acho que era em Ipanema) – fiquei quietinho.

Uma hora e 15 da madruga, aparece o próximo coletivo. Estiquei o braço, o novo motorista parou o ônibus de jeito que eu fiquei na frente da porta de trás. Deu uma corridinha, acenei, ele abriu a porta da frente e, antes mesmo que eu usasse a história do Onofre, mandou: “Já vi o carro do Onofre lá atrás. Pode subir. Quando o Bangu ganha é assim”.

E nem era o time do Castor de Andrade que, alguns anos depois chegou a ser vice campeão do Brasil (1985).

Aí, por causa do Onofre, acontecerem três coisas:

1) Cheguei no hotel e a tal moça alemã que chamo hoje de Regina estava na recepção preocupada. O que rendeu uma paquera e uma cerveja porque disse a ela que meu Bangu tinha vencido o (?) Fla.

2) Toda vez que vejo uma farmácia com nome de motorista, eu lembro da primeira noite no Rio. Sei que tem o santo, mas…

E

3) Passei a amar a Cidade de São Sebastião, os motoristas de ônibus e a caminhada pelas praias, ritual que repeti muitas vezes depois.

* Luciano Borges, jornalista desde 1975, é chefe de reportagem da ESPN. A pedido do Última Divisão, topou publicar por aqui este relato.

 

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