Observatório lança Relatório Anual de 2016 e propõe plano nacional de combate ao racismo no futebol

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No dia 23 de novembro, em Brasília, o Observatório Contra a Discriminação Racial no Futebol lançou o Relatório Anual de casos de discriminação ocorridos no futebol brasileiro em 2016 e se reuniu com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) para estabelecer um plano nacional de combate ao racismo no futebol.

No dia anterior, o Observatório participou de um debate sobre o racismo no futebol, na sede do Ministério do Esporte, onde foi apresentado o relatório de 2016. Foram 25 casos registrados de racismo e 6 de homofobia, e os números foram ampliados em 2017 – até o final de novembro deste ano, foram registrados 49 casos.

“É super necessário que a gente discuta isso, faça uma agenda, para trabalhar a questão do racismo no futebol. Escrevemos uma carta de intenções que será entregue ao Ministério do Esporte e à Secretaria de Políticas para Promoção da Igualdade Racial, com ideias para trabalhar em 2018 também com a prevenção. É muito importante que os casos sejam punidos, e punidos com severidade, mas temos que trabalhar com a educação”, afirma Marcelo Carvalho, diretor do Observatório Contra a Discriminação Racial no Futebol.

A carta de intenções foi entregue na quinta-feira (23) na sede da Seppir para o chefe de gabinete da secretaria, Diego de Assis e Santos. O evento da quarta (22) contou com a participação do secretário da Seppir, Juvenal Araújo, e do Secretário Nacional de Futebol e Direitos do Torcedor, Gustavo Perrella. Os secretários manifestaram interesse na construção de um gabinete interministerial de combate ao racismo no futebol, além de um plano nacional de ações preventivas e educativas. O deputado Ossésio Silva (PRB-PE) propôs um ciclo de palestras e uma ação direta na última rodada do Campeonato Brasileiro, dia 3 de dezembro – especialmente na partida entre Sport e Corinthians, na Ilha do Retiro, no Recife.

“Para além das placas de publicidade no campo, precisamos de seminários, cartilhas, com abrangência em todas as regiões do Brasil. Os incidentes são apenas a ponta do iceberg, o problema é muito maior. Onde estão os dirigentes, os presidentes, os árbitros de futebol negros? Se a maior parte dos jogadores de futebol é negra, e se os técnicos de futebol são principalmente ex-jogadores, onde estão os técnicos negros?”, disse Marcelo Carvalho.

No debate ocorrido no Ministério do Esporte, estiveram presentes autoridades do STJD – como José Perdiz e João Rafael dos Santos, da procuradoria. Vinícius Calixto, do Observatório, ressaltou que o STJD, embora trabalhe pela punição de alguns casos, tenta financeirizar a questão ao impor multas como as principais penas. Débora Manera, também do Observatório, ressaltou a necessidade de incluir as mulheres na luta do combate ao preconceito, que atinge também atletas do futebol feminino, fato também ressaltado na reunião com a Seppir. “As ações de combate ao racismo não podem ficar restritas a governos, e serem apagadas quando assumir o próximo”, declarou.

Representantes da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e do Observatório Contra a Discriminação Racial no Futebol se reuniram em Brasília; objetivo é estabelecer um plano nacional de combate ao racismo no futebol (Crédito: Seppir/Divulgação)

O ex-árbitro e comentarista da RBSTV, Márcio Chagas da Silva, lembrou o episódio que marcou a sua luta de combate ao racismo – o ataque racista sofrido na partida entre Caxias e Esportivo, em Bento Gonçalves, no ano de 2014, quando torcedores o ofenderam com vários xingamentos racistas e colocaram bananas no seu carro. O clube de Bento Gonçalves tentou acordos financeiros, que Chagas recusou. “Eu não estou preocupado com o valor financeiro, mas sim com o ganho da causa. O ganho da causa é muito mais honroso que o valor pago pelo clube. O racismo é uma covardia, e só quem é negro sabe o quanto isso é doloroso”, declarou.

“Eu não tive apoio nenhum da Federação Gaúcha de Futebol, muito pelo contrário: não queriam que eu levasse o caso adiante. A represália não aconteceu automaticamente porque o fato tornou-se público no Brasil e no mundo, não deu tempo de acontecer isso, mas sabia que nos bastidores articulavam para que logo em seguida eu perdesse espaço”, afirmou Chagas, lembrando que abandonou a sua carreira na arbitragem naquele ano.

“Eu fui eleito o melhor árbitro do Campeonato Gaúcho cinco vezes, fui árbitro nacional e aspirante à Fifa. Hoje, eu não entro na Federação Gaúcha de Futebol. Não preciso dizer o motivo. Os alunos questionam: ‘onde está o Márcio, já que todos os outros comentaristas de arbitragem gaúchos participam dos cursos?’ O único que não participa sou eu. Porque eu comprei essa briga, e nessa briga eu vou até o fim. E ainda não terminou”, declarou, referindo-se ao processo judicial contra o clube de Bento Gonçalves.

O debate também contou com a presença de Fernando Martinho, da revista Corner, que dedica a sua 4ª edição ao tema do racismo. Na capa da revista estava o ex-jogador Paulo César Tinga, então gerente de futebol no Cruzeiro. “Um analista americano certa vez afirmou que um técnico precisa ‘parecer ser técnico’, o que é uma coisa totalmente subjetiva. Se estender para a política, é ‘não ter postura de presidente’, ou ‘postura de senador’. Isso é o que está na cabeça – não entra ‘ser negro’ aí. Precisa ter meia idade, cabelo grisalho… É uma coisa totalmente estética, onde entra o racismo”, afirmou o editor.

Você pode assistir ao debate na íntegra clicando AQUI.

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