O uruguaio mais querido do Brasil

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Beijar o escudo durante a apresentação em um novo time ou depois de marcar um gol acontece aos montes, em todos os cantos, a toda hora. Porém, nenhum jogador deste país pode se gabar de ter tamanha identidade com o time onde atua quanto o atacante Claudio Milar. No Brasil de Pelotas, ele é muito mais do que um simples atleta. É o craque, o ídolo e o goleador que costuma deixar sua marca em partidas decisivas.

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A história de amor com o clube começou em 2002, após uma passagem apagada pelo Botafogo-RJ e outra curtíssima pelo rival Pelotas. Do Rio, Milar decidiu voltar ao Sul, onde já havia jogado por Caxias e Godoy Cruz-ARG, ambos em 1997. Para ele, era como retornar à própria casa, já que nasceu em Chuy, cidade uruguaia que faz fronteira com o Rio Grande do Sul. Porém, seu lugar não era na Boca do Lobo, mas sim no Bento de Freitas.

A estréia com a camisa rubro-negra deu-se, então, em 1º de maio de 2002, em um sólido 6 a 3 da equipe pelotense sobre o Grêmio Santanense, em casa. Apesar do placar elástico, Milar só veio a marcar o primeiro gol no seu terceiro jogo, na vitória por 2 a 0 sobre o Farroupilha, fora de casa. Nessa hora, o atacante oportunista e cheio de garra mostrou que poderia fazer feliz o exigente torcedor do Brasil.

No entanto, como em toda boa história de amor, há sempre uma hora em que o destino parece querer frustrar as expectativas dos amantes, tirando-os um do outro. No caso de Milar, foi uma boa proposta do exterior que o colocou novamente na estrada. Desta vez, seu destino seria o Hapoel Kfar Saba de Israel, apenas mais um time na extensa lista do andarilho.

O atleta, que começou nas categorias de base do Nacional do Uruguai (1991), já havia defendido a Portuguesa Santista, os rivais Náutico e Santa Cruz, o LKS Lodz da Polônia (todos em 1999), a Matonense, o Club Africain da Tunísia (ambos em 2000), o Young Boys da Suíça e o Botafogo do Rio (ambos em 2001) antes de chegar ao Rio Grande do Sul para vestir a camisa do Pelotas.

Na Boca do Lobo, porém, não teve espaço e acabou se transferindo para o Brasil, onde, com oportunidade, começou a marcar gols e se destacar. No entanto, a saída do Castelhano (seu apelido) durante as finais da Segundona gaúcha daquele ano, para defender o time de Israel, acabou manchando sua imagem com o clube e a torcida, o que só seria recuperada em 2004, ano de seu retorno ao país.

De novo em casa, Milar pôde voltar a jogar bem e a marcar seus gols, sendo inclusive protagonista da maior conquista recente da equipe xavante: o título da segunda divisão gaúcha. No torneio, Milar marcou 33 vezes, foi o artilheiro isolado e ainda levou o time de volta à elite. Seria um final feliz, se neste mesmo ano outra proposta do exterior não balançasse o jogador.

O destino da vez era o pequeno Pogon, da Polônia, que já havia observado o atleta na primeira passagem pelo país, em 2000. “Eu conhecia o jogador, porque ele tinha representado o LKS há alguns anos”, referiu na época Dawid Ptak, que pagou a transferência do atleta com dinheiro que tinha poupado para adquirir um automóvel, segundo nota publicada na época, pelo site da Uefa.

Milar nos tempos de Pogon (Reprodução)

Lá, destacou-se, marcou gols e fez amigos. Mesmo assim, por pressão da família, preferiu voltar a Pelotas em 2005. “Estou retornando para casa por tudo que fiz no Brasil, tendo uma repercussão boa, dos dirigentes e da torcida. O carinho é o mesmo por todos”, apontou à Rádio Pelotense. “Tinha um pedido da minha esposa para voltar ao país. São mais de oito anos fora e preferi aceitar”, completou.

Assim, Milar disputou praticamente toda a temporada 2006 (ao todo, 52 partidas) pelo time pelotense. Neste ano, conquistou o Campeonato Citadino (disputado apenas por Brasil, Farroupilha e Pelotas), torneio que já havia faturado em 2004, e quase terminou entre os quatro primeiros da Série C do Campeonato Brasileiro, o que renderia o acesso à Série B. Subir o time pelotense, aliás, era um dos sonhos de Milar.

Na primeira fase da competição daquele ano, o time venceu cinco dos seis jogos disputados e avançou para a próxima fase em primeiro do grupo. Na segunda etapa do certame, as boas atuações da equipe prosseguiram e, embora tenha vencido apenas três das seis partidas, classificou-se em segundo lugar da chave. Já na terceira, o Brasil seguiu jogando bem, conseguindo outras três vitórias em seis jogos e a vaga para a fase final.

A partir daí, porém, o time de Pelotas esfriou e venceu apenas quatro dos 14 jogos, desempenho que deixou a equipe sem o sonhado acesso. No ano seguinte, porém, o time voltou a conquistar uma vaga na Série C a partir do vice-campeonato da Copa FGF (o campeão Caxias desistiu da vaga porque a conquistou no Campeonato Gaúcho). Era mais uma chance do Brasil alcançar a Série B.

Naquele ano, o Xavante até chegou às finais, mas não foi bem fora de casa nesta etapa e acabou ficando sem a vaga na divisão de acesso. Mais uma vez, o sonho de Milar era adiado para o próximo ano, já que a classificação final do time gaúcho o credenciou para a competição em 2009. Naquele momento, Milar estava tão identificado que reafirmava querer encerrar a carreira no centenário do clube (2011), para então tornar-se presidente.

Contudo, quis o destino que nada disso acontecesse. Isso porque no dia 15 de janeiro de 2009, o ônibus que levava a delegação do Brasil de volta a Pelotas após um amistoso preparatório em Vale do Sol perdeu o controle em uma curva próxima a cidade de Cangaçu, capotou e caiu morro abaixo. O saldo da tragédia foram três mortos: o preparador de goleiros Giovani Guimarães, o zagueiro Régis Gouveia e Cláudio Milar.

(Gazeta do Povo)

Se por um lado o acidente era o fim de uma história de amor, por outro representava o começo de uma devoção eterna. Mesmo emocionalmente abalada, a torcida lotou o estádio Bento de Freitas para acompanhar o velório. No retorno do time aos gramados, algumas semanas depois, várias faixas lembravam os três nas arquibancadas. Demonstrações de carinho que não se restringiram às arquibancadas.

Na comemoração do primeiro gol do time após a tragédia, por exemplo, o zagueiro Alex Martins imitou o gesto tradicional de Milar, o de atirar uma flecha para a arquibancada como se fosse um índio xavante, mascote do clube. É a prova de que a figura de Milar estará sempre presente no Bento de Freitas, seja como exemplo de garra e vontade, seja para lembrar que é possível um jogador amar um clube e ser correspondido.

Roberto Claudio Milar Decuadra
[06/04/1974 (Chuy-URU) a 15/01/2009 (Cangaçú-RS)]

  • 1991-1993: Danubio-Uruguai
  • 1993-1996: Nacional de Montevidéu-Uruguai [Campeão Uruguaio em 1996]
  • 1997: Godoy Cruz-Argentina
  • 1998: Caxias-RS
  • 1999: Portuguesa Santista-SP [primeiro semestre; disputou Campeonato Paulista]
  • 1999: Náutico-PE [de maio a julho/1999]
  • 1999: Santa Cruz-PE [de julho/1999 a janeiro/2000; vice-campeão da Série B]
  • 2000: Matonense-SP [fevereiro/2000]
  • 2000: LKS Lodz-Polônia [a partir de março/2000]
  • 2000-2001: Club Africain-Tunísia [Campeão da Copa da Tunísia 2000]
  • 2001: Young Boys-Suíça [primeiro semestre]
  • 2001: Botafogo-RJ [segundo semestre; disputou o Brasileiro]
  • 2002: Pelotas [primeiro semestre]
  • 2002: Brasil de Pelotas-RS [primeiro gol em 12/05/02, Farroupilha 0 x 2 Brasil]
  • 2002: Hapoel Kfar Saba-Israel [de agosto a dezembro/2002]
  • 2003-2004: Brasil de Pelotas-RS [Campeão da Segunda Divisão e Torneio Citadino]
  • 2005-2006: Pogon-Polônia
  • 2006-2009: Brasil de Pelotas-RS [centésimo gol pelo time em 23/01/2008]
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