O Touro dos Pampas

Ivo Gonzalez / Agência O Globo
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A abertura do Campeonato Brasileiro de 1995 colocou frente a frente Vitória e Botafogo, em Salvador. O primeiro gol do Alvinegro no campeonato que se tornaria histórico surgiu num tiro despretensioso de um volante vindo do futebol gaúcho. Com 23 anos recém completos, Jamir Adriano Paz Gomes arriscou de fora da área e o goleiro Nilson aceitou. Mais que inaugurar o placar, vale a lembrança da comemoração rumo ao banco de reservas.

“Era a estréia no campeonato e eu fui até o Paulo Autuori para abraçá-lo. É difícil ir para outro Estado, outro clube, e o treinador me deu toda a confiança para jogar. Foi minha melhor fase”, conta o camisa 5 do time de General Severiano.

Aos 20 anos, o forte garoto de Uruguaiana, interior do Rio Grande do Sul, já era titular do Grêmio. Lá foi campeão gaúcho de 1993 e da Copa do Brasil 94. Porém, a aposta da diretoria nos campeões mundiais pelo São Paulo, Luiz Carlos Goiano e Dinho, fez com queJamir fosse emprestado ao Botafogo.

Mudança que, no começo, não foi bem assimilada. Mas que, aos poucos, o motivou ainda mais. Jamir chegou muito bem preparado fisicamente para os padrões do começo de ano carioca. Fez a pré-temporada pelo Tricolor, realizada em Gramado, na Serra Gaúcha, e a puxada carga de treinos comandada por Luiz Felipe Scolari no Sul assustou o grupo botafoguense.

“Estava voando. Chegaram a falar: esse menino parece um touro”.

Tamanha disposição levou o técnico Paulo Autuori a confirmá-lo no time titular, formando o meio campo com Leandro, Beto e Sérgio Manoel, responsáveis por municiar a inspiradíssima dupla Donizete Pantera e Túlio Maravilha.

No Campeonato Carioca de 1995, o Alvinegro perdeu a Taça Guanabara para o rival Flamengo. O Fluminense acabou campeão estadual, exatamente sobre o Fla, no famoso gol de barriga de Renato Gaúcho. Mas, começado o Brasileirão, o já entrosado Botafogo caminhou rumo ao título inédito.

Na campanha, apenas quatro derrotas em 27 jogos, com vitórias emblemáticas como o 3 a 1 sobre o Flamengo, que naquela temporada contava com Romário, Sávio e Edmundo, em partida disputada no Ceará.

“Chamei aquele jogo de Forró de Fortaleza no texto do Jornal dos Sports. O Botafogo tinha uma zaga fantástica com Gonçalves e Wilson Gottardo. A proteção com Jamir e Leandro. Um meia como Sérgio Manoel, que também ajudava muito a marcar, e Beto, que chegava muito bem ao ataque. E Donizete e Túlio que, apesar de não serem craques, fizeram um ano incrível”, comenta o jornalista Roberto Porto, autor do livro Botafogo: 101 Anos de Histórias, Mitos e Superstições.

Depois das duas fases classificatórias, o Fogão encontrou o Cruzeiro nas semifinais. E passou com certa soberania.

“Por ser uma semifinal, até que o Botafogo se garantiu com tranquilidade. Coisa que se repetiu no primeiro jogo da decisão contra o Santos, no Maracanã”, analisa o escritor botafoguense Marcelo Migueres, autor de 20 Anos da Copa do Brasil, em parceria com o também jornalista Alex Escobar.

No placar da primeira final, 2 a 1 para o Botafogo. Gols do capitão Wilson Gottardo e do artilheiro Túlio Maravilha.


Os autores dos tentos que deram a vantagem aos cariocas eram líderes dentro de campo e desafetos fora dele. O zagueiro, comandante da defesa que menos perdeu naquele campeonato, se incomodava com o fato de que o centroavante era o centro das atenções tanto para torcida quanto imprensa. Sem correr feito Gottardo, Túlio liderava a tabela de goleadores. Entre eles, tanto nas quatro linhas quanto na concentração, estava Jamir.

“O Túlio estava sempre brincando. Parecia desligado do treino quando a bola vinha e ele chutava no ângulo. Eu era parceiro de quarto dele, mas amigo também do Gottardo. Entendo o que o nosso capitão sentia, tem gente que tem esse tipo de vaidade e se incomoda com certas coisas. O Túlio era provocador, polêmico, mas podia, né? Imagina o Jamir ir à televisão desafiar o Flamengo? Eu não podia, e ninguém ia prestar atenção. Por isso eu corria para ele, mesmo. Tenho muito orgulho de dar o sangue para o cara do time brilhar”.

Túlio não fez com que o touro dos pampas corresse apenas atrás de flamenguistas, cruzeirenses ou santistas. Certa vez, na concentração, o empresário do artilheiro participou da armação de uma pegadinha do Faustão, como melhor narra o próprio Jamir.

“Chegamos no quarto e a cama estava mais alta, estranha. No chão, uma mala grande, e o empresário disse para o Túlio que eram roupas e chuteiras da empresa de material esportivo. A hora que ele abriu, saiu de lá de dentro a Regininha Poltergeist (atriz e modelo famosa por participar de programas humorísticos e posar nua). Foi muito engraçado”.

Se suou tanto para Túlio, o mesmo pode-se dizer da relação com Romário. Depois de passagem discreta pelo Benfica, de Portugal, em 1996, Jamir voltou emprestado ao Flamengo, onde se tornou parceiro, dos maiores, do Baixinho. Tanto que conta, surpreso como se ainda não acreditasse, de como o craque da grande área fez valer a amizade a ponto de arrumar-lhe um emprego.

O ano era 2001. Jamir no Rio Grande do Sul, Romário, no de Janeiro.

“Alô, Romário?”

“Fala, Jamir, sumiu, tá por onde, parceiro?”

“Tô em Porto Alegre. Voltei de Portugal e tô sem clube.”

“Dá pra estar amanhã, às 15h, em São Januário?”

“Dá…. claro que dá”.

E pegou o vôo, desembarcou na Cidade Maravilhosa e foi direto ao Clube de Regatas Vasco da Gama. O combinado era esperar o Peixe na portaria. Assim o fez e foram direto para o vestiário.

“Pega a roupa aí pra treinar.”

Jamir então se vestiu ressabiado: sem conhecer nenhum diretor e sabendo como era a fama do dirigente Eurico Miranda. Entrou em campo, e, em meio à chegada do técnico Hélio dos Anjos, que fazia o reconhecimento do grupo que acabara de assumir, Romário apresentou o amigo como novo jogador do Vasco. Pouco depois, passou por Jamir e conversou rapidamente.

“O salário é tanto. Quer?”

“Quero, claro.”

Só depois de dois dias foi assinar o contrato.


Gols não foram muitos na carreira. Apesar de arriscar bastante de fora da área, Jamir considera que chegava pouco ao ataque. No Botafogo, em um ano e meio, acredita ter sido o time onde mais balançou as redes, coisa de meia dúzia, no máximo. Mas um deles foi de um jeito que sempre sonhou fazer.

Na Libertadores 96, o Botafogo enfrentou o Grêmio nas oitavas-de-final. Era 1º de maio, Dia do Trabalho.

“Eu sempre ouvi aquela coisa de que o jogador marca gol contra o ex-clube. E, no meu caso, eu pensava: vou fazer gol contra o Grêmio quando, de que jeito, se nem chego perto da área?”

Mas nem perto da área precisou chegar. Falta para o Botafogo cobrar, de longe. Meia-esqueda do campo de ataque, e como sempre, zagueiros na área e alguma de Sérgio Manoel. Mas o pressentimento de Jamir o fez pedir para bater. Ele se recorda que os companheiros levaram um susto. Teve de insistir. E o chute, forte, com raiva, como se descontasse todo o sentimento de desprezo que carregou do Olímpico ao Caio Martins, entrou no ângulo do amigo Danrlei, goleiro que defendeu o Tricolor gaúcho por mais de uma década.

Mas, se marcar gols não era a especialidade de Jamir, a marcação implacável era o grande mérito do volante. Tanto que, admite, “muitas vezes não media a força dentro de campo”.

Um dos que sofreram com a vontade do touro foi exatamente um dos mais habilidosos que já viu pela frente: o franzino Dener, que morreu em acidente de carro em abril de 1994. Jamir o conhecia muito bem da final da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 1991, quando, pelo Grêmio, foi goleado pela Portuguesa de Dener na decisão. Depois, o promissor atacante chegou ao time gaúcho em 1993.

“Logo no primeiro treino, tinha que dar umas chegadas nele. Ele vinha com graça e eu mandava ele ir pedalar lá para o outro lado. Eu falava, tenho que fazer o meu, né, neguinho?”

Apesar de reconhecer que às vezes chegava de maneira excessivamente forte nos meias e atacantes que marcava, foi uma acusação desse tipo que encurtou a carreira de Jamir na Europa.

Um jogo festivo entre Botafogo e Porto, de Portugal, o tornou conhecido na pátria-irmã. O clube do Rio de Janeiro negociou seu passe com o Benfica, para onde ele partiu no início da temporada 1996/97. O técnico era o mesmo Paulo Autuori dos tempos de Niterói, mas, ainda sem saber explicar um motivo concreto, Jamirnão se sentiu a vontade nem motivado para desempenhar o futebol dos tempos de Grêmio e Fogo.

Pior que isso. Estava infeliz. Longe da família, inibido e sem paciência.

Foi então depois de pouco mais de dez jogos e um gol com a camisa do clube português que, num treino de dois toques, Jamirpercebeu que era hora de voltar para o Brasil.

Um bom meia romeno, Nica Panduru, que havia jogado a Copa de 1994 nos Estados Unidos, acusou em meio ao treino o também brasileiro – e volante – Amaral de ser violento com os próprios companheiros de time. Jamir tomou as dores do compatriota e, no lance seguinte, tocou entre as pernas da estrela, como se tentasse, na bola, mostrar o real valor de seu futebol.

Panduru, na melhor descrição de Jamir, “deu-lhe um rapa”.

“Não deu outra. Levantei e dei um soco na cara dele. A diretoria me suspendeu por uma semana, e, quando acabou a suspensão, meu empresário já havia acertado minha volta para o Flamengo”, conta.

No Rio de Janeiro, se viu alegre novamente. Não só pela praia que reencontrara, mas pela grata surpresa de ouvir seu nome gritado pela torcida do Botafogo num clássico no Maracanã.

“Até parei para prestar atenção, ver se era meu nome mesmo que estavam cantando”, diz, como se tentasse relembrar aquele eco marcado para sempre em seus ouvidos.

Depois do Fla, voltou para Portugal, onde atuou no Alverca, clube satélite do Benfica, e teve algum destaque. De lá, a vaga ajeitada por Romário no Vasco em 2001 e uma participação decisiva num clube de seu Estado natal.

“Foi no São Gabriel. Me convidaram para jogar dois jogos e ajudar o time a subir na segunda divisão do Campeonato Gaúcho. Não é que joguei e ainda fiz o gol do acesso?”


Dali em diante, Jamir passou a ver a carreira já com outros olhos. Em 2002, jogou seis meses pela Portuguesa, mas deixou o clube com problemas de salários atrasados. Além da Lusa, Vasco, Flamengo e Botafogo ainda têm pendências financeiras com o ex-jogador, segundo conta o próprio.

Em 2003, com 31 anos, foi para a sala de aula. Cursou dois anos de Educação Física, e praticamente já havia deixado as chuteiras num canto bem escondido da casa em Porto Alegre.

Mas em 2005, aceitou o desafio de jogar uma temporada pelo Clube de Regatas Brasil, o CRB de Alagoas. O time fez boa campanha na Série B, permanecendo várias rodadas na zona de classificação, mas acabou não subindo. Lá, conta, viu o que nunca tinha visto em toda a carreira.

“Foi bem diferente. Primeiro porque não tinha a estrutura dos clubes que eu estava acostumado. Era o campo e a bola. Não tem ninguém para te ajudar se você perde um documento, um telefone. Eu ainda vivi numa condição legal, mas o que chegava para o pessoal comer era fruta da caixa que amassava na feira”.

Pela primeira vez, Jamir era o grande destaque de um time. E última. Abandonou o futebol depois de uma temporada como principal jogador da equipe nordestina, e foi viajar e aproveitar o tempo deixado em concentrações e finais de semana. Abriu uma lan house no interior do Rio Grande do Sul, e, junto com um grupo e amigos, promove festas tanto em Porto Alegre quanto em Florianópolis, onde vive atualmente. O próximo plano é terminar o curso na faculdade – restam dois semestres, e abrir uma academia. Gosta de malhar e pode, quem sabe, ajudar a treinar novos touros nos pampas.


Mas, faltava ainda o segundo jogo da final do Brasileirão de 1995. Terminado o Botafogo 2 x 1 Santos no Maracanã, os santistas que tinham nomes como Edinho, goleiro filho de Pelé, Narciso, Giovanni e Jamelli comemoraram o resultado. Acharam que virariam o placar como fizeram com o Fluminense nas semifinais, quando tiraram um 4 x 1 com uma vitória por 5 x 2. Conseguiram, sim, motivar ainda mais o Botafogo.

“O Gonçalves chamou o grupo logo depois do jogo e já desabafou: esses caras estão saindo comemorando, aplaudidos pela torcida, dizendo que resolvem lá no Pacaembu? Vão ver como vai ser”.

Em São Paulo, o Botafogo teve o controle da partida. Donizete atuou com um estiramento na perna, e mesmo assim se sacrificou como sempre. A equipe carioca não perdeu a concentração em nenhum momento, e, ainda no primeiro tempo, abriu o placar num gol até hoje lamentado pelos santistas.

Na área, em posição de impedimento, o toque final para as redes só podia ser dele: Túlio. Inegável é o senso de posicionamento do matador. Tão importante quanto, o cabeceio de Jamir, que permitiu a conclusão do camisa 9. O jogo acabaria 1 a 1, suficiente para o título carioca.

O touro, o menino campeão no Grêmio que chegou para ser o pegador do meio-campo Alvinegro, colocava o nome na história do Botafogo de Futebol e Regatas.

O mesmo que marcou o primeiro gol da campanha e correu para agradecer ao técnico. O mesmo que correu mais que qualquer um naquele elenco. O mesmo que trabalhou como ninguém para buscar o caneco inédito.

O mesmo que dá o último toque na bola do Brasileirão 1995, fechando a conquista única do time de General Severiano. Como narrou Galvão Bueno, “bola espirrada, sobra para Jamir, tira dali, acaboooooooou. O Botafogo é campeão brasileiro de futebol”.

Perfil publicado originalmente no livro-reportagem “Carregadores de Piano – A História de 12 Operários do Futebol Brasileiro”, em edição finalizada em dezembro de 2009.

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