O torcedor e o algoritmo: a história de uma paixão ao acaso

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Algumas variáveis estão envolvidas no processo de escolher um time de futebol para torcer: influência da família, títulos, história e até ideologia. Mas para Gustavo Tonetto tudo se resumiu a um botão, o botão que seleciona um time aleatório no game Winning Eleven de Playstation. O acaso fez com que o algoritmo programado parasse justamente no Kashiwa Reysol, o time que tem sido a grande sensação da Copa São Paulo de Futebol Junior 2014, com duas vitórias, um empate e a classificação para a segunda fase da competição.

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Gustavo é fã da cultura japonesa e planeja ir ao país para acompanhar uma partida do Kashiwa

Foi o pontapé inicial de uma história única para esse jovem estudante de 17 anos, dono do site Kashiwa Reysol BR, um dos poucos do país dedicado exclusivamente ao clube nipônico.

Gustavo conta que a ideia começou em junho de 2012, mas para entender melhor tudo isso precisamos voltar a 2009. Naquele ano, o Reysol tinha alguns nomes que chamaram sua atenção, como Sugeno (o menor goleiro da liga), França (aquele mesmo, ex-São Paulo e Leverkusen-ALE) e Anselmo Ramón (o Ramonstro, ex-Cruzeiro). Apesar disso, a equipe fez uma campanha pífia na J-League e acabou rebaixada. E foi justamente nesse época que Gustavo perdeu suas primeiras horas de sono na madrugada para acompanhar ao vivo os jogos por streaming.

Em 2010, porém, a equipe de Kashiwa venceu a segundona com sobras, voltou à J-League 1 e, em 2011, levou o caneco de campeão japonês, um feito inédito. Com isso, o time participou de sua primeira competição internacional: o Mundial de Clubes da Fifa, em que perdeu para o Santos de Neymar na semifinal. Em 2012, outra conquista: a Copa do Imperador (o equivalente à nossa Copa do Brasil), e, no ano seguinte, foi a vez de garantir a Nabisco Cup (espécie de Copa da Liga Japonesa, só com equipes que disputam alguma das duas divisões nacionais).

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Jorge Wagner, ídolo no Kashiwa, mostra camisa autografada especialmente para Gustavo

Nesse meio tempo, entusiasmado com os resultados do time, o estudante entrou em contato com torcedores japoneses via internet. Conheceu um maluco tão fanático quanto ele e que ainda por cima fala português. O cara lhe enviou algumas camisetas autografadas e outros itens que fizeram a paixão pelo Reysol crescer ainda mais. E foi um desses torcedores quem lhe sugeriu criar um site em português.

Gustavo me explica que o pessoal de lá idolatra os brasileiros. Jorge Wagner (ou JW15) é Deus para eles, assim como Leandro Domingues (ex-Vitória-BA), eleito o melhor jogador da temporada de 2011. Nelsinho Baptista, que treina o time desde 2009, uma vez tentou pedir demissão após uma derrota contra o Kashima Antlers, mas foi demovido da ideia pela própria torcida. No jogo seguinte, o time ganhou de 4 a 0. Segue lá até hoje.

Na Copinha, ‘Barcelona Japonês’

O time que veio participar da Copinha é o sub-19 do Kashiwa. Alguns dos nomes do plantel já jogam na equipe principal, como o capitão Nakatani e o meia Kobayashi. Mas o trunfo desse time é a parte tática, com o entrosamento e o bom passe, o que fez com que o pessoal daqui o apelidasse de Barcelona Japonês.

Gustavo explica como isso funciona: “Esses meninos jogam juntos desde os seis anos e por isso possuem esse ótimo toque de bola”, conta. “Acho essa história de ‘Barcelona Japonês’ ótima, pois incentiva mais os jogadores a melhorar sua performance dentro de campo, e até mesmo a tentarem chegar no profissional”, completa.

Foi com esse esquema tático envolvente que os japoneses garantiram aquele que é o melhor desempenho de uma equipe estrangeira na Copinha até agora. Nunca antes uma equipe estrangeira havia vencido duas partidas e nem mesmo terminado a primeira fase invicta, com direito a um atropelo de 5 a 1 em cima do Auto Esporte-PB.

Sem tentar bancar o imparcial, ele conta que muitos jogadores que estão na seleção japonesa hoje vieram da base do Kashiwa, como Masato Kudo (artilheiro da equipe na J-League 2013) e Hiroki Sakai (da seleção japonesa, hoje no Hannover 96-ALE). “Para ser promovido para o profissional eles tem de ser formado das categorias de base, quem se forma mas não vai para o profissional acaba indo para uma universidade”, conta.

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Kashiwa S19 empatou com o São Paulo na estreia da Copinha. O capitão Nakatani (camisa 20, com a flâmula) é um dos que já integra o profissional do clube.

Coração dividido

Gustavo conta que tem estudado japonês desde 2011. A ideia é ir ao Japão um dia e assistir a uma partida do Kashiwa Reysol ao vivo. Ele conta que adora a cultura japonesa, é budista e participa de eventos ligados à religião. Começou a curtir o futebol nipônico na Copa de 2010, quando os Samurais Azuis fizeram uma boa campanha e foram eliminados nos pênaltis pelo Paraguai nas oitavas-de-final.

Mas sendo de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, é de se entender que seu coração balance por um dos times locais, no caso o Botafogo-SP. “Em 2012, estava entre os 10 mil torcedores apaixonados que vibraram com o gol salvador de Clebinho, aquele que garantiu o time na A1”, relembra o jovem torcedor, que logo pondera: “Mas o meu sentimento torcendo para o Kashiwa é diferente de quando vejo os jogos do Botafogo”.

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