O que acontece quando a torcida passa a dirigir o time?

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Há mais de três anos atrás, em fevereiro de 2008, fãs de futebol resolveram sair das arquibancadas e realizar o sonho de muitos torcedores: assumir o controle de um time. Ao invés de discussões em pubs, eles optaram por votações no site MyFootballClub. Ao invés de fazer protestos e xingamentos, passou a ser necessário realizar investimentos. E foi assim que uma grande comunidade virtual de torcedores assumiu o controle do time inglês Ebbsfleet United.

Quando a ideia foi divulgada primeiramente, não faltou quem se animasse com ela. O tempo passou, a empolgação acabou e quase tudo mudou no Ebbsfleet United. O balanço final dessa experiência no minímo inusitada ainda está longe de ser concluído, mas já dá para perceber alguns indícios dos resultados bons e ruins dessa inovação…

The Fleet

O Ebbsfleet United, também conhecido apenas por The Fleet, era um time semi-profissional à beira da falência em 2008.  Depois que abriu o seu capital para todos pela internet, pelo menos a sua situação financeira já começou a mudar para melhor.

Afinal, os membros do MyFootballClub, que já chegaram a ser mais de 30.000, têm que pagar um valor mensal para participar das decisões do time. Com o pagamento feito, eles teoricamente passariam a ter o poder de escolher jogadores, decidir sobre o técnico e até intervir em algumas decisões táticas e de escalação do The Fleet. Na prática, Liam Daish foi o homem escolhido através do site, com mais de 95% dos votos, para organizar sozinho todos esses processos.

Liam Daish ergue o troféu como "manager" do The Fleet
Liam Daish ergue o troféu como “manager” do The Fleet

Com essa estrutura, o primeiro resultado em campo não demorou a vir. Em 2008 mesmo, o time conquistou o FA Trophy, campeonato organizado pela federação inglesa com a participação de times semi-profissionais. O otimismo foi grande, afinal o The Fleet estava se livrando das suas dívidas e já mostrava resultado dentro das quatro linhas.

Mas logo começaram a aparecer os primeiros sinais de problemas. Em um ano, o número de membros caiu drasticamente para menos de 10.000. Depois, veio a trágica queda para a sexta divisão do futebol inglês. E o pior de tudo: os torcedores não tinham como colocar a culpa do fracasso na diretoria.

Aliás, a palavra ‘fracasso’ é totalmente rejeitada pelo MyFootballClub. Em seu site, na parte de perguntas mais frequentemente respondidas, foi preciso esclarecer: “Is MyFootballClub a failure?”. Na resposta há uma crítica contra a imprensa e usa a evolução financeira do time para exaltar seu projeto.

Porém, está cada vez mais complicada a situação no Ebbsfleet United. Liam Daish já perdeu parte do poder que tinha sobre o time. O custo da mensalidade paga pelos membros do MyFootballClub teve que ser aumentado, de 35 libras para 50.

Até o próprio fundador do site, Will Brooks, reconheceu um problema em seu projeto: “Acho que não deu para muitos membros o sentimento de propriedade e proximidade com o clube, como eles esperavam”, admitiu, em entrevista para a BBC.

De fato, na prática tem sido difícil envolver os membros em todas decisões sobre contratações, por exemplo. E mais: nas questões táticas eles jamais interferiram. Mesmo com essas dificuldades, o The Fleet está atualmente na segunda posição da Conference South, competição que pode levá-lo de volta à quinta divisão do futebol inglês.

Entre bons e maus momentos, os membros do MyFootballClub aprendem que dirigir um time pode ser bastante complicado. Com certeza gritar nas arquibancadas ou nos pubs era bem mais fácil.

Nada se cria, tudo se copia

Como não poderia deixar de ser, já existe uma versão brasileira da história acima. O site MTDF (Meu Time De futebol) se inspirou na ideia dos ingleses e já tem um time para controlar desde o começo de 2011: o Ebbsfleet United deles é o Maguary, da 3ª divisão cearense, clube com o qual foi estabelecida uma parceria de co-gestão.

Até mesmo na Inglaterra a ideia já inspirou outros torcedores. O gigante Liverpool, por exemplo, virou alvo da ideia, já que torcedores estudaram a hipótese de juntar dinheiro para comprá-lo. Mas o alto custo inviabilizou o projeto.

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