O que a política divide, o futebol une

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Segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm, foi na cidade de Sarajevo onde o século 20 começou e terminou. Simbolicamente falando, faz sentido. Foi entre o início da Primeira Guerra Mundial e o fim da utopia do mundo pós-comunista, com a Guerra da Bósnia, que definiram o mundo como o conhecemos. Se para nós, que vemos de longe, tudo já parece um pesadelo, imagine para os bósnios.

As marcas de um país sofrido são inegáveis. Não apenas as visíveis a olho nu, como os buracos de bala nas construções da cidade, mas também nas cicatrizes da economia em frangalhos e no inconsciente coletivo da população. Desde a invasão dos nazistas até a limpeza étnica comandada pelos sérvios durante a luta pela independência, curar as feridas abertas parece ser um eterno desafio.

E onde entra o futebol nisso tudo? Bom, quase duas décadas depois do fim do conflito sangrento, o país ainda procura uma identidade nacional, uma imagem com a qual seu povo possa se reconhecer, e o futebol tem sido um importante ator nessa busca.

Mosaico político-religioso

P18-131018-341Para nós, brasileiros (ou mesmo para o mundo), é estranho entender a estrutura da sociedade bósnia. O país é dividido em dois territórios (Bósnia e Herzegovina, e República Sérvia), tem três grupos étnicos fortes (bosníacos-muçulmanos são a maioria, seguido pelos sérvios e pelos croatas) e três grandes religiões (islamismo, catolicismo e cristianismo sérvio-ortodoxo). Como reflexo disso, a política é dividida em três partidos majoritários, cada um representando uma etnia, e eles se alternam no poder a cada oito meses durante o mandato presidencial de quatro anos.

O principal culpado é o acordo de Dayton, tratado assinado no final de 1995 que pôs fim à guerra civil. Nele, decidiu-se que, embora esteja sob a mesma constituição da Bósnia, a República Sérvia seria uma província autônoma, com suas próprias leis, bandeira, polícia e Parlamento. Foi uma condição para que os sérvios acalmassem os ânimos e abaixassem as armas, o que de fato aconteceu. No entanto, a decisão criou métodos de governança no mínimo absurdos.

No dia 1° de abril de 2011, a UEFA e a Fifa tomaram uma atitude drástica: baniram a N/FSBiH (a CBF deles) de competições internacionais simplesmente porque não é permitido que haja três presidentes no comando de uma mesma entidade.

d2a16596832b87ed9742daa5fe4a1276Essa divisão já era criticada por alguns jogadores da seleção, como o meia Misimović, e por boa parte da torcida, que protestou e boicotou diversas partidas dos Dragões, como é conhecida a seleção de lá. A alegação era de que os dirigentes indicados não tinham qualquer relação com o futebol, servindo apenas para defender os interesses de suas respectivas etnias, o que deixava um rastro de corrupção, desmandos e injustiças pelo caminho. O então secretário-geral da entidade, Jasmin Bakovic, tentou se explicar: “Somos parte da sociedade e o futebol é apenas um reflexo do Estado. Neste país, se você não mexer com a política, a política vai mexer com você”.

O banimento durou apenas dois meses. Sob pressão, a federação de futebol local aceitou mudar o estatuto e eleger um presidente. Nesse meio tempo, um comitê criado pela Fifa passou a tomar conta do futebol bósnio, sob o comando do ex-treinador Ivica Osim (aquele que sofreu um derrame quando treinava a seleção japonesa, em 2007). O comitê saiu de cena em dezembro de 2012, após Elvedin Begić ser eleito presidente da Federação.

bosnia_qualifies_for_brazil_world_cup2Pode parecer pouco, mas essa mudança foi considerada uma revolução dentro e fora de campo. Ao contrário das outras organizações sociais do país, o futebol nacional é o único de fato unificado. Até 2002 haviam três ligas principais na Bósnia: a dos bosníacos, a dos croatas e a da República Sérvia. A partir de 2000, times bosníacos e croatas passaram a jogar juntos e criaram a Premier League, que, em 2002, passou a ter também a participação dos sérvios.

O ponto alto dessa história é obviamente a classificação para a Copa do Mundo do Brasil, ocorrida em 15 de outubro de 2013. Após a vitória de 1 a 0 sobre a Lituânia, as ruas de Sarajevo foram tomadas por 50 mil pessoas e houve uma festa como poucas vezes se viu. “Esse time une as pessoas. Há alguns anos, você não imaginaria ver bosníacos, sérvios e croatas torcendo para o mesmo time, mas tudo mudou agora”, disse o técnico Safet Susic à Associated Press.

Engajamento futebolístico

Slovakia+v+Bosnia+Herzegovina+FIFA+2014+World+wCXFRBRh8mMlDe fato, o espírito de patriotismo está refletido na mentalidade dos jogadores. Muitos deles são refugiados de guerra e nasceram ou moraram em outros países, mas mesmo assim decidiram defender as cores da Bósnia. É o caso do goleiro Begović, que cresceu na Alemanha e depois foi para o Canadá, onde inclusive chegou a jogar nas seleções de base, mas preferiu ficar com os Dragões. Sua família teve um forte peso na decisão, mas as perspectivas do time canadense em disputar uma Copa nunca soaram muito animadores.

Já o craque do time, Edin Džeko, teve uma experiência inversa. Ainda novo, jogou na República Tcheca e na Alemanha e recebeu propostas para se naturalizar e, possivelmente, disputar a Copa do Mundo, mas declinou. Hoje ele é um grandes orgulhos da pequena nação balcânica, e não somente pelos gols decisivos. Desde 2009, ele é embaixador da UNICEF e faz visitas a escolas e a crianças de famílias vítimas da guerra.

Slovakia+v+Bosnia+Herzegovina+FIFA+2014+World+FnXHUGJTCvglComo ídolo nacional, Džeko demonstra que as barreiras étnicas são, para ele, coisas de um momento que já deveria estar enterrado. Um dos seus grandes amigos na seleção é Misimović, com quem foi campeão alemão no Wolfsburg. Misimović é de origem croata e Džeko, bosníaco-muçulmano.

“Em campo, somos um time e isso é o mais importante”, disse ele ao site Bleacher Report. “Esse é o único jeito de assegurar um bom resultado, e nós já mostramos união em diversas ocasiões. Espero que nossa união possa ser uma inspiração para outros.”

Muito trabalho a fazer

bosnia_qualifies_for_brazil_world_cup6Se esse clima de união vai continuar após a Copa, é difícil dizer. A Bósnia e Herzegovina já foi uma região próspera na antiga Iugoslávia, mas hoje é uma das mais pobres da região. Seu PIB per capita é o 103° do mundo, atrás do Brasil e do Iraque, segundo dados de 2013 do CIA World Factbook. O desemprego está na faixa dos 44% da população.

A falta de trabalho, aliás, causou uma série de manifestações em fevereiro deste ano, após antigas empresas estatais que foram privatizadas fecharem as portas e provocarem demissões em massa. Assim como aconteceu no Brasil, a revolta logo se voltou contra os políticos e contra a corrupção, e ganhou força em diversas cidades, provocando tumultos, vandalismos e transformando ruas em praças de guerra. Em certo momento, policiais da tropa de choque da cidade de Tuzla abaixaram seus escudos, tiraram seus capacetes e se juntaram à multidão. Governadores de três cantões deixaram seus cargos e o governo central prometeu abrir mais espaços para o diálogo com a população.

A insatisfação geral com o governo pode acelerar o processo de cisão definitiva da República Sérvia do território bósnio. Desde 2008, partidos nacionalistas ganham força e o plano de se anexar de vez à vizinha Sérvia permanece vivo. A entrada na União Europeia, um sonho antigo, está paralisada sem perspectivas de mudanças.

Desde o fim da guerra civil, a Bósnia e Herzegovina procura uma identidade nacional. As profundas divisões no país não deverão desaparecer tão cedo, e não parece haver vontade política para tal. Mas o futebol está fazendo sua parte.

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