O primeiro gol de bicicleta do futebol brasileiro foi marcado em Manaus

Reprodução/Jornal do Commercio
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Em 24 de abril de 1932, um jovem chamado Leônidas da Silva, vestindo a camisa do Bonsucesso, enfrentava o Carioca pelo campeonato estadual. Em dado momento da partida, a bola passou por cima da sua cabeça e ele, em um toque de genialidade, fez uma acrobacia perfeita, chutando a bola no ar em direção ao gol, surpreendendo o goleiro e os zagueiros adversários. Assim, Leônidas se eternizava com o que muitos consideram como a primeira bicicleta do futebol brasileiro.

Porém, a história não é bem assim. Claro que o Diamante Negro era um mestre na arte de fazer gols de bicicletas naqueles primeiros anos de futebol profissional. Mas o fato dele ter jogado nos grandes centros do futebol brasileiro da época (Rio de Janeiro e São Paulo), e ainda ter brilhado com a Seleção Brasileira, fez com que seu feito fosse superdimensionado até os dias de hoje.

A verdade é que anos antes desse gol — até mesmo antes de Petronilho de Brito, que teria feito o primeiro gol de bicicleta do Brasil e inspirado Leônidas a executar o lance —, um jogador manauara foi o precursor brasileiro do que na época se chamava de “Espanholita”.

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Quem defende essa tese é o historiador Gaspar Vieira Neto, que pesquisa sobre o futebol amazonense. Ele diz que, no começo dos anos 1920, foi o jogador Marcolino quem primeiro marcou um gol de bicicleta em solo nacional. A jogada aconteceu em uma partida entre o Nacional de Manaus contra o União Esportiva, no Parque Amazonense, provavelmente em 1922 ou 1923.

Mas a distância continental de Manaus para a capital Rio de Janeiro, as dificuldades de comunicação da época e fato de Marcolino nunca ter atuado fora do Amazonas fez com que seu feito passasse em branco ao longo de quase um século.

Para entender melhor história, reproduzimos a seguir o post de Gaspar Vieira Neto no Facebook:


MARCOLINO E A “ESPANHOLITA” : NO AMAZONAS, JOGADOR NACIONALINO FOI O PRIMEIRO A PRATICAR A BICICLETA NO FUTEBOL BRASILEIRO

A bicicleta é uma das jogadas mais bonitas que existe no futebol e ,se diz, que o criador dessa peripécia nos gramados foi um jogador espanhol, naturalizado chileno, chamado Ramón Uzaga que a praticou pela primeira vez em 1914.

No Brasil, oficialmente, o craque Leônidas da Silva é tido por muitos como o introdutor da bicicleta em nosso país onde marcou um gol desse estilo, pela primeira vez, em um jogo do campeonato carioca de 1932. Já outros pesquisadores atribuem ao jogador paulista Petronilho de Brito como o verdadeiro introdutor da bicicleta no Brasil, na década de 1920.

Porém o que muitos talvez não saibam é que, longe dos grandes centros do futebol nacional da época, no Amazonas, um jogador já praticava a jogada em Manaus antes dos dois jogadores citados: seu nome era Marcolino.

A TRAJETÓRIA DE MARCOLINO NO FUTEBOL

Marcolino Lopes da Silva nasceu em Manaus, em 1904, no bairro dos Tocos (atual bairro de Aparecida). De origem humilde logo desde criança se sentiu atraído pelo “foot-ball”. Em 1915, com a idade de 11 anos, Marcolino é aceito e passa a integrar o time infantil do Nacional, ficando nessa categoria até 1919.

Em 1920 sobe de categoria, passando a integrar o quadro reserva nacionalino (terceiro time). Porém ganha nova promoção, passando a integrar o outro quadro do time reserva do Nacional (segundo time), disputando então a segunda divisão dos campeonatos amazonense de 1921 e 1922.

Mas o reconhecimento maior veio em 1923. Devido suas boas atuações nos times reservas, Marcolino passa a fazer parte do time titular jogando agora na primeira divisão e, de quebra, conquistava seu primeiro título de importância pelo Nacional: o de campeão amazonense de 1923. Atuou junto de outros craques renomados do plantel nacionalino como Fidoca, Leonardo, Cangalhas e Zé Lopes (que era seu irmão).

Nessa época Marcolino trabalhava como caldeireiro mecânico da firma Souza Pinto, cujo proprietário era um português. Em dias de jogos seu patrão não o queria liberar, mas Marcolino acabava dando um jeito e saía rápido do trabalho, pegava um bonde e chegava no estádio Parque Amazonense em cima da hora do início do jogo. Ele também dizia que o “bicho” pela vitória de seu time lhe rendia somente 400 réis, que só dava pra pagar a passagem de volta do bonde. Entretanto isso pra ele não importava pois adorava seu clube e jogava por amor à camisa, pois era nacionalino de coração.

Marcolino disputou, ainda pelo Nacional, os campeonatos estaduais de 1926 e 1928. Teve uma breve passagem pelo time do Libertador, disputando pelo clube o campeonato de 1929.

Seu grande colega de ataque no Nacional era o hábil negro Leonardo, onde ambos infernizavam as defesas adversárias.

Foi convocado para a seleção de futebol do Amazonas, na disputa do Campeonato Brasileiro em 1925 e 1929, quando os amazonenses se dirigiram à Belém e foram eliminados pela seleção do Pará nas duas edições.

Em 1925 Marcolino, junto com outros amigos, fundam um clube de futebol de seu bairro chamado Independência. E, nesse mesmo ano, ele é escalado para uma excursão do Nacional à cidade de Porto Velho, na festa de inauguração do estádio do time local do Ypiranga.

Contudo Marcolino é cedido pelo Nacional para fazer parte da equipe do Independência, que fez uma pioneira excursão ao Maranhão e Pará em 1929.

Em 1930 Marcolino deixa o Nacional, junto com outros jogadores, e passa a defender o recém fundado Fast Clube, ficando no clube até 1938.

Além da jogada que o tornou conhecido, Marcolino foi também um dos maiores jogadores do Amazonas na década de 1920.

O CRIADOR DA “ESPANHOLITA” EM MANAUS

Em entrevistas Marcolino dizia que a bicicleta era conhecida em Manaus, naquela época, com o nome de “Espanholita” e costumava mencionar dois gols desse estilo que fez, ambos na década de 1920. Um foi num jogo do Nacional contra a União Sportiva, no Parque Amazonense (provavelmente em 1922 ou 1923), e outro foi num amistoso entre a seleção do Amazonas e o Remo, em Belém (ao que tudo indica, em 1929).

Porém devido à distância e isolamento do Amazonas dos outros centros do futebol brasileiro da época, as comunicações precárias daqueles anos e o fato de Marcolino nunca ter jogado em um clube de outros estados do país, fez com que a bicicleta e seu primeiro executor no Brasil, fosse conhecido apenas pelos jogadores, torcedores e profissionais da imprensa daquelas décadas longínquas na capital amazonense.

Se hoje sabemos da genial acrobacia que Marcolino executava nos gramados de Manaus, muito se deve ao antigo cronista esportivo Aessene e ao famoso historiador do futebol amazonense Carlos Zamith.

Aessene foi testemunha ocular do futebol de Manaus nas décadas de 1910 e 1920 e viu Marcolino aplicando a sua “Espanholita”, chegou inclusive a escrever para o Jornal do Commercio o seguinte comentário: “…Marcolino, o autor da primeira bicicleta levada a efeito no Brasil”.

Já Carlos Zamith colheu depoimentos de torcedores, jogadores da época e do próprio Marcolino sobre aquela, até então, desconhecida jogada que ele fazia e que deixava a torcida maravilhada. E Zamith sempre publicava sobre esse feito de Marcolino em sua coluna e livros “Baú Velho”, para que não caísse no esquecimento.

Também o conhecido intelectual amazonense Almir Diniz publicou e afirmava em um jornal, de 1953, que Marcolino já aplicava a bicicleta quando ainda jogava no infantil do Nacional.

Marcolino faleceu em Manaus em 1998, com a idade avançada de 93 anos, no bairro de Aparecida, local onde nasceu e residiu durante toda sua vida.

A ilustração, de Lúcio Izel, mostra Marcolino Lopes em ação aplicando a bicicleta num jogo do Nacional contra a União Sportiva.

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