O mercado ilegal de apostas no futebol

Fernando Pilatos/Gazeta Press
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Você possivelmente já assistiu a um jogo de seu time do coração e reclamou de certo árbitro tendencioso, ou jogador com má vontade em campo, e até proferido aquela famosa frase: “Esse cara está vendido”!

Pois bem, a prática de venda de resultado, seja por jogadores, diretoria ou até árbitros não é tão comum no futebol. Contudo, voltou à tona recentemente devido a suspeita de manipulação em jogos da Série A3 do Campeonato Paulista. Por isso, vamos relembrar de alguns casos emblemáticos envolvendo apostas ilegais no futebol.

 

Escândalo no futebol inglês em 1915

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Manchester United escapou do rebaixamento em jogo armado (via FourFourTwo)

Um dos primeiros escândalos de apostas no futebol aconteceu justamente no seu país de origem. Na primeira divisão inglesa de 1915, em um jogo disputado curiosamente na Sexta-Feira Santa, Manchester United e Liverpool jogaram em Old Trafford.

Os Diabos Vermelhos estavam lutando para evitar o rebaixamento , enquanto os Reds apenas cumpriam tabela. A partida terminou com uma vitória por 2 a 0 para o United, dois gols de George Anderson. Porém, o árbitro da partida e alguns expectadores notaram a falta de comprometimento do Liverpool durante o jogo. Lances, como um pênalti desperdiçado e uma bola travessão do United no final da partida — lance inclusive que fez alguns dos companheiros de equipe do jogador Fred Pagnam protestaram publicamente contra ele — acionaram o alerta.

Jackie Sheldon, um ex-jogador do Manchester United, foi considerado o líder de todo o esquema que envolveu outros seis jogadores (três do United e três do Liverpool). Embora os principais motivos dos jogadores para a combinação de resultados serem financeiros, e não para salvar o United do rebaixamento, os dois pontos que o United ganhou naquele jogo foram suficientes para rebaixar o Chelsea.

Antes do início da temporada 1919-20 , a Liga decidiu expandir a Primeira Divisão em mais duas equipes e, com isso, o próprio Chelsea juntamente do Arsenal foram eleitos à Primeira Divisão.

 

Apito Dourado

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Escutas telefônicas deram origem ao escândalo (Reprodução/sapo.pt)

Um dos casos mais controversos e polêmicos da história do futebol português é o chamado “Apito Dourado”. O caso estourou em 2004, contudo existem relatos de quase 30 anos de tráfico de influências, agressões a dirigentes desportivos, a coação sobre equipas de arbitragem, assim como o pagamento de orgias com prostitutas a árbitros para beneficiar o Porto.

As acusações se voltaram sobretudo contra os dirigentes Jorge Nuno Pinto da Costa (ex-presidente do Porto) e Valentim Loureiro (antigo presidente do Boavista e da Liga Portuguesa de Futebol).

O livro “Eu, Carolina” de 2006, autobiografia da antiga companheira de Pinto da Costa, que no ano seguinte inspiraria o filme “Corrupção”, retratam algumas das histórias envolvendo o dirigente — ou o Presidente, como ele é chamado na película dirigida pelo cineasta Júlio Botelho.

Talvez o caso mais mediático é do jogo entre Porto contra a Estrela da Amadora, realizado na temporada de 2003/04. Na véspera do jogo, a Polícia Judiciária interceptou um telefonema do presidente do Porto, Pinto da Costa, com António Araújo em que o empresário fala em “fruta” (alegadamente prostitutas) para dar a Jacinto Paixão, árbitro do jogo.

Paixão por sua vez, fez-se tornar pública uma confissão , no YouTube, que teve como objetivo evitar represálias e ao mesmo tempo confirmar a corrupção desportiva do Porto. Mesmo assim, o caso acabaria por ser arquivado, sendo as denúncias de Carolina Salgado e de Jacinto Paixão consideradas insuficientes para provar a fala de ambos.

 

Calciopoli

O Calciopoli foi um grande esquema de manipulação de resultados e corrupção no futebol italiano que começou a surgir em 2005 e que eclodiu de vez no ano seguinte. Várias equipes tradicionais do país foram punidos pelo envolvimento, inclusive com rebaixamento à segunda divisão do futebol italiano. Ao todo 19 partidas da temporada 2004-2005 da Série A ficaram sob investigação.

Nesse caso, o escândalo não só envolveu dirigentes e árbitros como também profissionais da própria imprensa italiana, que também sofreram as devidas punições. Dentre eles, o famoso apresentador local Aldo Biscardi, que durante um grampo vazado pela promotoria de Nápoles ouve-se ao telefone com Luciano Moggi, então diretor-geral da Juventus. Moggi pede a Biscardi para “absolver” Bertini, o árbitro do jogo entre Juventus e Milan em 2004, ou seja, para falar bem dele em seu programa de TV. Luciano Moggi, inclusive, foi a pessoa que sofreu a punição mais pesada: inicialmente suspenso por 5 anos, foi banido do futebol e condenado a 18 meses de prisão.

Dentre os clubes, seis sofreram punições: Lazio, Milan, Reggina e Fiorentina começaram a Série A devendo pontos, enquanto a Juventus de Moggi foi rebaixada à Série B. Na segunda divisão, o Arezzo também foi punido.

Vale ressaltar que inicialmente apenas Milan e Reggina não haviam sido punidos com o rebaixamento, contudo, devido a recursos na justiça as penas foram sendo reduzidas.

 

Máfia do Apito

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Revelado na revista Veja, escândalo mexeu com o Brasileirão 2005 (Reprodução)

O mais conhecido e lembrado escândalo de manipulação de resultados no Brasil aconteceu pouco antes do citado acima. Durante o Campeonato Brasileiro de 2005, 11 jogos apitados por Edilson Pereira de Carvalho foram anulados e o árbitro chegou a ser preso após ele admitir participar de um esquema de manipulação de resultados do torneio para favorecer apostadores na internet.

A primeira denúncia partiu de uma matéria na revista Veja que citou ainda outros campeonatos daquele ano, como a Libertadores o Campeonato Paulista.
O empresário Nagib Fayad e outros três empresários ligados ao ramo dos bingos, combinavam um determinado resultado em jogos apitados por Edílson Pereira de Carvalho e realizavam apostas milionárias em dois sites de apostas eletrônicas. Esse tipo de jogo é proibido no Brasil e acontecia de forma clandestina.

A decisão do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), que na época era presidido por Luiz Zveiter (oficializou a saída do cargo no final de 2005), foi de anular as partidas apitadas por Edilson. Posteriormente, a CBF determinou novas datas para a repetição dos jogos com o Corinthians se tornando o campeão graças a dois jogos anulados, já que, havia perdido para São Paulo (3 a 2) e Santos (4 a 2), e nos novos confrontos, empatou com o São Paulo (1 a 1) e ganhou do Santos (3 a 2).

Outro árbitro envolvido no esquema foi Paulo José Danelon. Ele confirmou sua participação em manipulação de algumas partidas do Campeonato Paulista em primeiro depoimento, mas depois mudou a versão e disse que recebeu dinheiro em três oportunidades com a promessa de interferir em resultados de jogos do Paulistão, contudo, disse que não influiu nas partidas.

 

Ano de 2020

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Esquema no Rio de Janeiro foi descoberto pelo Esporte Espetacular (Reprodução)

Nesse ano já são dois casos no Brasil sob investigação: o primeiro foi revelado no Esporte Espetacular, da Rede Globo, em que dirigentes e atletas da quarta divisão carioca aceitaram perder partidas em troca de dinheiro. O caso mais emblemático foi a do presidente do Atlético Carioca comemorando um gol do time adversário. 

O outro caso, que citamos no começo desse texto, começou após o jogo entre Barretos e Linense, pelo Paulista Série A3. Os jogadores do Barreto mostraram uma nítida “falta de vontade” em campo, além de cederem dois pênaltis ao Elefante.

Posteriormente apareceu a primeira denúncia concreta quando Magno Dourado, jogador do Paulista de Jundiaí, registrou boletim de ocorrência, citando o nome do aliciador William Pereira Rogatto. Este teria oferecido R$ 5 mil para o jogador e também pediu para ele para combinar com outros atletas do clube.

Resta agora aguardarmos os desfechos da investigação, na esperança que esse tipo de prática não se alastre pelo esporte já que infelizmente a frase proferida por Willian, em um áudio, demostra o sentimento daqueles que não conhecem verdadeira essência do futebol.

“Hoje em dia o futebol parou de ser sonho, se tornou dinheiro”