O landfall do Furacão Amarelo: estaria o CENE perto do fim?

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Na meteorologia, classifica-se como landfall o movimento no qual um furacão – entre outros ciclones tropicais – deixa a superfície do mar, ultrapassa a linha da costa e adentra a superfície da terra. Neste momento, o furacão costuma perder força, uma vez que sua principal fonte de energia são as águas mornas da superfície marinha que resultam em áreas de baixa pressão atmosférica com circulação fechada de ventos.

Este preâmbulo – baseado em artigos da Wikipedia – explica de maneira metafórica o apogeu e a queda do CENE. Principal potência do futebol sul-mato-grossense no século XXI, o Furacão Amarelo hoje é uma agremiação decadente, de futuro mais do que incerto a curto prazo.

Reverendo Moon (Crédito: Capital News)
Reverendo Moon (Crédito: Capital News)

A história do clube remonta à década de 1990, quando o reverendo Sun Myung Moon, fundador da Igreja da Unificação, adotou a cidade de Jardim (MS) como sede de um ambicioso projeto: criar uma “Nova Coreia”, onde seus seguidores poderiam conviver e trabalhar de maneira harmônica. Em pouco tempo, a cidade recebeu muitos imigrantes sul-coreanos.

Um dos estabelecimentos do Reverendo Moon em Jardim era a Fazenda Nova Esperança, onde trabalhadores, moradores e amigos aproveitavam os finais de semana para jogar futebol entre si e contra times amadores das cercanias. Atento à movimentação, Moon transformou a brincadeira em coisa séria. Assim, em 13 de dezembor de 1999, foi criado oficialmente o Clube Esportivo Nova Esperança (CENE).

“Um belo dia ele chegou e perguntou: ‘vocês querem montar um time, entrar para o profissionalismo?’ Nós queríamos, mas não tínhamos condições. Então ele disse: ‘pode criar o clube que eu patrocino, dou uma ajuda para vocês começarem’”, contou o presidente do CENE, José Rodrigues, em entrevista ao site Globoesporte.com em 2012.

Em 2002, o clube se transferiu de Jardim para Campo Grande, distantes 250 km uma da outra. Na capital, o clube passou a conquistar resultados de expressão. No Campeonato Sul-Mato-Grossense, levantou a taça em 2002, 2004, 2005 e 2011. Em 2003 e 2007, ficou com o vice-campeonato.

O Cene campeão em 2002 (Crédito: Placar)
O Cene campeão em 2002 (Crédito: Placar)

Mas o landfall do CENE chegou. Em 2 de setembro de 2012, aos 92 anos, Reverendo Moon morreu. Questionado, José Rodrigues assegurou: mesmo sem seu patrono, o clube seguiria em frente.

“Tem muita gente perguntando hoje se o Cene vai acabar. Pelo contrário, e se ele (Reverendo Moon) estivesse aqui, diria: ‘agora é que vocês têm que seguir mesmo, para serem campeões’”, declarou o dirigente.

De fato, o clube não decepcionou a curto prazo, conquistando o Campeonato Sul-Mato-Grossense em 2013 e 2014. Entretanto, em 2015, a equipe sentiu a torneira secar: terminou a primeira fase do torneio com a pior campanha entre as 12 equipes participantes e, ao lado do Ubiratan, foi rebaixado à Série B estadual. Neste momento, já se falava em problemas financeiros e no fim das atividades do clube – ainda que a extinção fosse especulada apenas por opositores da gestão vigente.

(Crédito: Jed Vieira/Gazeta MS)
(Crédito: Jed Vieira/Gazeta MS)

“Não era para ter competido esse ano. Escolhi o CENE entrar no Estadual sem a estrutura dos outros anos, com uma diferença considerável. Eu banquei a participação e, se essa participação gerou o rebaixamento, a culpa é minha”, disse José Rodrigues na ocasião.

Aí, chegou 2016, e o desastre anunciado acabou se concretizando. Em outubro de 2016, a equipe comunicou a Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS) que estava se afastando do futebol profissional e nem mesmo disputaria a segunda divisão do Mato Grosso do Sul. Os patrocinadores minguaram, e o Furacão Amarelo não mais se sustentou.

Segundo o presidente da FFMS, Francisco Cezário, o presidente do CENE “nos passou que o time não teria condições financeiras de disputar a Série B, já que patrocinadores que iriam ajudar na disputa não confirmaram o apoio”. A decisão pelo afastamento, tomada dentro do prazo previsto, não implica em punição; desta forma, o clube pode retornar normalmente em 2017, se tiver condições.

Resta saber se o Furacão Amarelo poderá voltar a um mar de águas mornas para se reorganizar e retomar sua força. Do contrário, deve encarar o fim de seu landfall e ver sua trajetória se encerrar em tempestade.

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