O inexplorado futebol da Papua-N. Guiné, que ficou a dois pênaltis de virar o “segundo Taiti”

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Quase aconteceu de novo! Depois do conto de fadas do Taiti em 2013, uma nova nação alternativa da Oceania esteve muito perto de disputar a próxima Copa das Confederações, presenteando os russos com certas histórias que só os recantos mais obscuros do futebol podem proporcionar. 

Jogando em casa, diante de 15 mil torcedores, a Papua-Nova Guiné conseguiu segurar um 0 x 0 sofrido contra a Nova Zelândia por 120 minutos, no último sábado. A final da Copa das Nações foi decidida nos pênaltis pela primeira vez na história, mas o desfecho das cobranças não foi como gostaríamos: 4 a 2 em favor dos All Whites, agora pentacampeões continentais.

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Apesar da frustração, fica a certeza de que a hegemonia neozelandesa será cada vez mais perturbada por seleções forasteiras. Na última década, ao menos três vezes ilhotas emergentes desbancaram o país mais desenvolvido da região: o Taiti em duas oportunidades (em 2008, representando o continente no Mundial Sub-20, e em 2012, faturando a Copa das Nações), além de Fiji, que disputará os Jogos Olímpicos deste ano (embora a eliminação da Nova Zelândia tenha se devido à escalação irregular do lateral Deklan Wynne, sul-africano que não poderia defender o país na ocasião).

A expectativa agora é que a Papua-Nova Guiné assuma seu posto natural de força relevante na região. O potencial é considerável: apaixonado por futebol, o país possui cerca de 8 milhões de habitantes, mais do que todos seus concorrentes continentais somados (mesmo incluindo os 4,5 milhões da Nova Zelândia).

Com a grande possibilidade de que a Oceania ganhe uma vaga direta em edições futuras da Copa do Mundo, não é absurdo imaginar os papuásios desbravando a maior competição do planeta. Claro que esse dia ainda está um tanto distante, mas que tal já ir conhecendo um pouco sobre eles?

Talentos em casa

Alwin Komolong, o único "estrangeiro"
Alwin Komolong, o “estrangeiro”

Dos 23 jogadores vice-campeões da Copa das Nações, apenas um não atua no futebol da Papua-Nova Guiné: o meia Alwin Komolong, que passou a maior parte da juventude entre Alemanha e Nova Zelândia, mas hoje disputa uma liga universitária americana pela Universidade Northern Kentucky. 

A base do time é composta por jogadores do Hekari United (12 atletas, incluindo Felix Komolong, irmão de Alwin) e Lae City Dwellers (6). Ainda há representantes do Rapatona (2) e FC Port Moresby (2). 

Único grande feito
O Hekari United protagonizou o grande feito da história do futebol papuásio. Em 2010, a equipe foi a única até hoje a tirar a Liga dos Campeões da Oceania do “eixo” Austrália-Nova Zelândia, batendo o Waitakere United na final (vitória por 3 a 0 em Port Moresby e derrota por 2 a 1 em Auckland).

Em Abu Dhabi, no Mundial de Clubes daquele ano, o clube se despediu com uma derrota por 3 a 0 logo no primeiro play-off, contra o Al-Wahda dos brasileiros Hugo (aquele, ex-São Paulo, Grêmio e Corinthians), Fernando Baiano (aquele também! Ex-Corinthians e Celta de Vigo) e Magrão (claro que aquele, ex-Palmeiras e São Caetano).

Apenas dois remanescentes daquele Hekari United disputaram a Copa das Nações de 2016 pelo país: o zagueiro Koriak Upaiga e o meia David Muta, ambos hoje com 28 anos, ainda defendendo o mesmo time.

Comando brasileiro
Desde 2015 a seleção papuásia é treinada pelo dinamarquês Flemming Serritslev (com passagens por países como Nigéria, Irã e Armênia), substituto do neozelandês Wynton Rufer (que, como jogador, foi o maior atleta da história da Oceania, artilheiro da Liga dos Campeões da Europa pelo Werder Bremen, em 1994).papua_nova_guine

Outro nome de peso que já comandou a seleção foi o australiano Frank Farina, famoso por dirigir o país natal por 10 anos. Porém, nenhum técnico foi mais marcante para o futebol da Papua-Nova Guiné que  o brasileiro Marcos Gusmão, dono do cargo entre 2004 e 2011. Durante o período, em 2007, ele descreveu a experiência em entrevista ao Trivela.

Em 2004, Gusmão conseguiu levar Papua à 161ª posição no ranking da Fifa, até hoje o melhor resultado já obtido. Ele tentou implementar o método de desenvolvimento Coerver, que introduz jogadores aos conceitos mais básicos do esporte. Hoje o país, que já chegou a ser o último colocado, é o 193° entre 209 seleções.

Torneio conturbado

Homem é carregado após se ferir em conflito entre policiais e manifestantes pouco antes de jogos (fonte: twitter @Mangiwantok)
Homem é carregado após se ferir em conflito entre policiais e manifestantes pouco antes de jogos (fonte: twitter @Mangiwantok)

Maior evento futebolístico já disputado na Papua-Nova Guiné (que, em novembro, sediará também o Mundial Feminino Sub-20), a Copa das Nações da Oceania quase teve um final feliz para os anfitriões, mas esteve longe de ser um campeonato tranquilo.

A primeira preocupação foi uma vexatória eliminação na primeira fase. Empates nas primeiras duas partidas (diante de Nova Caledônia e Taiti) jogaram pressão em cima dos papuásios antes da terceira apresentação. Foi necessária uma goleada por 8 a 0 contra Samoa, o grande saco de pancadas da competição, para conseguir avançar em primeiro lugar no saldo de gols.

O segundo susto aconteceu fora de campo e foi muito mais sério. As semifinais do torneio (rodada dupla com Nova Zelândia x Nova Caledônia e Papua-Nova Guiné x Ilhas Salomão) quase foram adiadas após violento confronto entre a polícia papuásia e manifestantes ao redor do estádio de Port Moresby. Pelo menos 17 pessoas ficaram feridas (uma delas em estado grave, com um tiro na cabeça) ao fim do protesto, organizado por opositores do primeiro-ministro Peter O’Neill.

David Beckham
A Papua-Nova Guiné foi um dos sete lugares visitados por David Beckham no documentário For the Love of the Game, filmado em 2015, no qual o astro inglês disputa uma partida de futebol em cada continente.

O exotismo do país é extremamente explorado no filme, que mostra a confecção de bolas de futebol a partir de folhas de bananeiras, índios locais reverenciando Beckham e apuros do atleta dirigindo pelas estradas esburacadas da ilha.

Beckham exibe no Instagram as bolas feitas com folhas de bananeira
Beckham exibe no Instagram as bolas feitas com folhas de bananeira

País remoto
Apesar da grande população, a Papua-Nova Guiné ainda é um dos locais mais inexplorados do mundo, com grandes territórios selvagens intactos e histórias sobre tribos isoladas que jamais conviveram com europeus ou outras etnias.

Apenas 57∞ da população acima de 15 anos é alfabetizada e o índice de desenvolvimento humano (IDH) é de 0,505 (considerado baixo), conferindo ao país a 158ª posição dentre 188 nações avaliadas pela ONU em 2014 (somente Iêmen, Haiti e Afeganistão, entre os países que estão fora do continente africano, possuem desempenho pior).

Seleção papuásia comemora o título mundial de futebol australiano
Seleção papuásia comemora o título mundial de futebol australiano

O país possui 3 idiomas oficiais (inglês, hri motu e tok pisin), mas estima-se que pelo menos 832 línguas (não dialetos) sejam faladas no território, de longe a maior diversidade do mundo. Práticas como canibalismo e perseguição de bruxas são reportadas com certa frequência, mesmo nos arredores de grandes centros, como a capital Port Moresby (que possui 250.000 habitantes) e Lae (cerca de 100.000).

Ingleses, alemães e australianos já colonizaram Papua-Nova Guiné, que divide a ilha de Nova Guiné com a Indonésia e possui uma série de arquipélagos menores em seu território. Embora o futebol seja muito popular, o rúgbi ainda prevalece na preferência nacional: a seleção local já atingiu as quartas de final da Copa do Mundo de rúgbi league, mas nunca se classificou ao Mundial de rúgbi union (vertente mais famosa internacionalmente). No esporte conhecido como futebol australiano, os papuásios já foram bicampeões do mundo (nota importante: a Austrália nunca participou do torneio).

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