O ídolo de duas torcidas

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O ano era 1984. Durante um campeonato de futebol amador de Mogi Guaçu, o bom futebol de um volante chamou a atenção de Luiz Carlos Martins, treinador do Guaçuano, que na época integrava a segunda divisão paulista. E foi a partir daquele momento que a vida de Sebastião Carlos Brandão Alvarenga, mineiro de Borda da Mata, tomaria novos rumos.

No meio do futebol, Sebastião se tornaria o Alemão, um jogador que se destacava pela raça e pela vontade demonstradas em campo, e que em pouco tempo já se tornara um nome conhecido entre os clubes da região. O surpreendente início de carreira foi tão bom que seus feitos daquele jogador ultrapassassem fronteiras, três anos depois.

Eles chegaram ao Sul de Minas. Andradas, pequena cidade de aproximadamente 35 mil habitantes, vizinha de Poços de Caldas e que se localiza na divisa com o estado de São Paulo, passava por um dos melhores momentos na área do seu esporte, fazendo com que seus moradores sonhassem alto.

O motivo para isto era que o Rio Branco, equipe com quase 40 anos de idade e que havia acabado de se profissionalizar, em pouco tempo já havia chegado à elite estadual, dividindo espaço com a dupla Atlético e Cruzeiro, distantes a 463 km dali.

Primeira equipe profissional do Rio Branco, em 1986.

Sem grandes investimentos e contando com uma mistura de desconhecidos jogadores do interior e veteranos como o ex-flamenguista Caio Cambalhota, o time viveu momentos de glória: Foi bicampeão do interior, jogou uma edição da Série B e três da Série C, venceu os grandes da capital… Alemão havia deixado de jogar por diversão pra se tornar ídolo, ainda que de uma cidade pequena, e sua carreira ia crescendo junto com a equipe.

Foi através do futebol que ele passou a conhecer novos lugares e pessoas,  o que fez com que seu talento fosse ganhando fama. Ao passar dos anos, começaram a surgir convites para sair do Rio Branco, e apesar de gostar do clube, o lado profissional falou mais alto, eles foram aceitos.

Foram tantos clubes e tantas histórias que ele não tem certeza de alguns números: “Passei entre dezoito a vinte dois times”, revela. Desta época de cigano da bola, ficaram boas lembranças: Em Matão, ajudou a Matonense a atingir a elite paulista. Pelo Villa Nova mineiro, foi vice-campeão estadual com direito a gol na final contra o Cruzeiro. No Mato Grosso do Sul, título estadual como capitão pelo Chapadão. Pelo Central de Caruaru, mais participações na Série B…

E em meio a essas tantas passagens, sobrou tempo para alguns retornos a Andradas. No total, foram treze campeonatos disputados, o que lhe deu a chance de ser o jogador que mais atuou com a camisa do clube.

Alemão no início de uma longa história.

Brigas com a federação e crises financeiras fizeram com que o time não conseguisse continuar subindo a nível nacional, mas aquela fase brilhante da equipe permanece até hoje viva para todo rio-branquense que se preze, tendo inclusive feito com que muitos virassem frequentadores fiéis do Parque do Azulão.

E foi graças a ela, que aos 38 anos, Alemão retornou mais uma vez. Após uma passagem pelo Tupi, de Juiz de Fora, ele chegava como reforço para o Campeonato Mineiro de 2001, só que para uma função diferente. ”Aonde a gente trabalhava estava sempre anotando o trabalho de alguns treinadores para poder ter uma base como treinador”, diz.

O desafio era dos maiores. Novas responsabilidades viriam, e todas decisões precisavam ser muito bem-pensadas, para que o clube não se tornasse presa fácil. Uma década depois das glórias, a ameaça do rebaixamento era muito mais presente.

“Essa é a transição mais importante da vida do atleta, já que quando você está bem fisicamente, sua única preocupação é jogar bem futebol e mais nada. É um mundo diferente de se viver, tem que ter conhecimento dentro e fora de campo pra poder conciliar as duas coisas.”, explica.

Ao final do campeonato, um oitavo lugar, com direito a vitória sobre o Cruzeiro de Luiz Felipe Scolari, deixou boas impressões. E apesar do carinho da torcida, era hora de partir novamente: O ex-volante viria a comandar Villa Nova, Uberlândia e a equipe de juniores do Atlético.

Porém, apesar de uma carreira consolidada na nova profissão, Alemão também procurava também estabilidade, algo que nem sempre o mundo do futebol pode proporcionar. Surgiu então a idéia de permanecer em Andradas junto de esposa e filhos, e mais: Abrir um estabelcimento comercial.

Trata-se de uma chopperia no centro da cidade, que em pouco tempo se mostrou um investimento bem-sucedido. A decisão permitia que ele conciliasse os negócios com o futebol, e graças a ela o técnico-empresário pode fazer parte das boas campanhas do Azulão da Mantiqueira nos estaduais de 2007 e 2008. Novamente, propostas para ir embora da cidade surgiram.

Mas a vontade de ficar na cidade era maior: “os convites estavam aparecendo, mas eu preferia ficar na cidade porque a gente tem uma estabilidade maior, tanto pra conduzir o comércio quanto para cuidar dos estudos dos meus filhos”

Em uma nova carreira, a de empresário, a estabilidade era melhor…

E assim as coisas se seguiram, até  que uma destas viria a ser a mais inusitada em sua carreira. Caso ele aceitasse, não seria necessário sequer ir embora da cidade. Mas para isso teria que encarar olhares desconfiados e fanatismos.

A Caldense, rival histórcia do Rio Branco, localizada na turística Poços de Caldas, 150 mil habitantes, o queria para ocupar o cargo deixado por Nedo Xavier, de saída para o Ituiutaba.

A comparação pode soar absurda, mas pensem em Zico treinando o Vasco. Marcos defendendo o Corinthians. O Rio Branco era o Davi que integrava a elite. A Caldense, apesar da tradição conquistada ao longo de anos, amargurava a segunda divisão do Mineiro.

Com naturalidade ao tocar no assunto, Alemão conta que foi preciso até uma atitude um tanto quanto radical pra que ele topasse o desafio: “Eu tive o privilégio de ter trabalhado anteriormente com a maioria dos jogadores da Caldense e eles ligavam para mim me chamando pra participar dessa campanha e nos últimos dias de negociação, quando eu estava falando que não iria, eles vieram até em casa e me falaram: Você tem que vir que é pra gente levar a Caldense a primeira divisão”

Em um torneio de dois meses e 22 jogos, o que não podia faltar era vontade de vencer. ”Fazíamos uma viagem de 900 km, jogávamos em casa e já em seguida fazíamos outra viagem de 800, então o desgaste dos jogadores era grande.”

Além das viagens longas, o nível técnico da competição não era baixo. Equipes tão tradicionais quanto a Caldense, quanto a URT de Patos de Minas, e com boas condições financeiras, como o América de Teófilo Otoni e o Funorte de Montes Claros, tinham as mesmas ambições da Veterana.

“Conseguir subir é mais difícil do que evitar cair. Só duas equipes vão se dar bem, cada dia é uma pontuação diferente e os três pontos se tornam valiosos.”

Mas ninguém estava tão incomodado em jogar aquele campeonato quanto o Ipatinga, campeão da primeira divisão em 2005 e que jogou a elite do futebol brasileiro no ano passado. Contra o time do Vale do Aço, uma partida para ficar na memória de todos talvez tenha sido o maior baque sofrido.

“Estávamos jogando em casa, ganhando de 3 a 1 e fizemos uma partida maravilhosa, com o estádio cheio, e os torcedores apoiando. Nos dois minutos finais, tomamos o empate. Os jogadores ficaram cabisbaixos, a torcida nervosa, e tivemos que passar pros atletas que o futebol era daquela maneira, que aquilo acontecia e tínhamos que ficar sempre atentos pra que não se repetisse.”

E não se repetiu. Como em um filme daqueles bem dramáticos, a conquista do segundo lugar e o final feliz só foi garantido na última rodada. O mesmo que já havia causado preocupações para aquela torcida na época de jogador foi proclamado herói, e neste momento, os preconceitos foram pra longe.

Caldense 2 x 0 Valério – Rodada final do Módulo II 2009
E no dia do acesso, a torcida da Caldense comemora junto do novo herói.

“No final boa parte dos torcedores, de ambos os lados, entenderam e o melhor foi ter levado a Caldense a primeira divisão, reforçando o Sul de Minas com duas equipes na elite e ajudando a retornar com esse derby regional.”

Após o término do campeonato, Alemão deixou em aberto a possibilidade de ir embora, mas renovou até o término do estadual de 2010. E mesmo afirmando que o futebol lhe proporcionou uma vida bem melhor do que se continuasse nos campeonatos amadores, e o Rio Branco tem participação nisso, ele prefere pensar mais no futuro e na Caldense.

A pergunta que fica é:  O confronto Alemão X Rio Branco é inevitável e ocorrerá em breve. Conseguirá ele continuar sendo o ídolo de duas torcidas até quando?

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